CAFÉ EXPRESSO

Setembro 26 2016

Madalena: Não me apetece sair daqui. És tão quente. E lá fora faz tanto frio.

Teresa: Não temos que ir já. Mas temos mesmo que ir.

Madalena: E tem mesmo que ser a Sintra? É longe, querida.

Teresa: No meio daquela serra sente-se uma energia única. Positiva. Uma pessoa sente-se bem lá. Acalma os nervos.

Madalena: Por acaso, é verdade. Mas não me apetecia nada ir. Ficávamos aqui na cama e…

Teresa: Nem pensar. Levanta-te.

Teresa saltou da cama.

Madalena ficou irritada

Madalena: Olha lá, não vais aparecer o dia todo à tua filha? Passaste cá a noite. Não achas que ela vai estranhar, por acaso?

Teresa: Não vai estranhar porque pensa que arranjei um dos meus namorados do costume, já te expliquei isso.

Madalena: Um dos teus namorados do costume. Que horror!

Teresa: Seria um horror depois de estar contigo outra vez.

Madalena olhava pelo vidro para a rua relativamente calma. Distraída foi perguntando a Teresa o que queria ela, afinal.

Teresa: Quero dizer que te amo profundamente. Em contas certas, há vinte e dois anos que te amo. É disto e de tudo o que tem a ver com isto que te quero falar.

Madalena: E era preciso irmos para Sintra para me dizeres essas coisas? Querida, tu dizes-me todos os dias que me amas.

Teresa: Para que te estás a armar-te em insensível?

Madalena: Não sou insensível. Apenas não me comovo com as tuas declarações de amor.

Teresa: Eu sei que não és insensível. Todos os dias me dás provas do contrário. No entanto, é espantoso que nunca tenhas dito que me amas. Nem nos momentos mais loucos da nossa paixão, quando está nos meus braços e te perdes de ti… nem aí tu dizes “amo-te Teresa”. O que tu gostas é de dizer “querida”. Como se estivesses numa manobra de engate permanente.

Madalena: Porque tu és a minha querida. E sim, contigo estou numa manobra de engate permanente. Dá-me tesão. Compreendes?

Teresa: Estás a tentar enervar-me.

Madalena: Deixa lá. Vais acalmar quando estivermos envolvidas pela boa energia de Sintra.

Teresa: Agora merecias uma bofetada.

Madalena: Desculpa. Sei que estou a ser imbecil. Mas venho contrariada. O que queres?

Teresa: Quero que fales comigo como uma adulta.

Madalena: Eu sei bem o que tu queres. Queres ligar-nos à terra. Mas eu não quero. Estou bem como estou. Trabalho na tese durante o dia, estou contigo ao fim da tarde e muitas vezes passamos a noite juntas também. De permeio dou as minhas aulas. Não desejo mais nada. Está tudo perfeito.

Teresa: E ligar-nos à terra significa o quê, para ti?

Madalena: Significa que tu queres alterar as coisas. Não sei muito bem em que sentido. Mas queres.

Teresa: É preciso clarificar os sentimentos. Ninguém vive assim pra sempre.

Madalena: E quem te disse que eu te queria para sempre?

Teresa: Acaba já com esse teatro! Eu sei que me amas. Sei muito bem que me amas.

Madalena: Não, Teresa. Não te amo. Há vinte anos que não te amo.

 

publicado por Cat2007 às 20:26
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Setembro 26 2016

Passou o Natal e chegou janeiro. Joana regressou do Porto e Madalena de Bragança. Teresa e Clara emergiam também do recolhimento familiar em que tinham estado toda a semana passada e onde foram felizes como sempre na Alameda. Porque estavam sem elas e uma com a outra. Como outrora. A paixão e a mentira colaboram. Por vezes colaboram. E quando assim é as almas andam pesadas, os espíritos confundidos e os corpos ficam demasiado doridos e indolentes. Em janeiro é costume ter esperança de que alguma coisa vá acontecer. De que algo vá mudar para melhor. É sempre assim no começo de um novo ano. Joana compreendia bem que não poderiam viver assim. A fazer amor às tardes e a viver apenas de angústias antes e depois. Teresa reconhecia que não poderiam continuar só a fazer amor. Clara desejava que a mãe a compreendesse e aceitasse. Madalena ansiava pelo dia em que lhe fosse permitido desligar-se de Teresa.

Os reencontros sucederam como o que se aguardava. Embora mais furiosos ainda. Por causa dos afastamentos. As peles rolaram. E rodaram. E colaram. Por fim, as bocas sacrificadas afastaram-se só para respirar um bocadinho e deixar entrar a saudade.

Joana: Até amanhã, amor.

Clara: Até amanhã, meu amor

Madalena: Adeus, querida.

Teresa: Adeus, amor.

E os dias foram passando assim repetidos mas cheios de coisas novas. Como sempre. Tal qual tinha sucedido no ano velho. Costuma ser assim no ano novo. O tempo passa sem que se produzam grandes alterações nas vidas. A menos que se tomem decisões muito sérias.

Teresa: Amanhã é sábado. Quero ir passear contigo amanhã pela tarde. Vamos a Sintra.

Madalena: Vamos a Sintra fazer o quê?

Teresa: Passear de carro. Nunca fomos passear juntas. Tu só queres estar aqui.

Madalena: Sabes bem que eu estou aflita com a tese. E…

Madalena não queria outra vida com Teresa. Basicamente aterrorizava-se com a ideia de serem namoradas.

Teresa: Madalena, não me dês desculpas. Em vez de irmos para a cama amanhã à tarde vamos passear a Sintra.

Madalena: Mas eu prefiro ficar a fazer-te. Não me canso e sinto sempre falta. Tu não? Tu sim. Eu sei que sim. Tu também preferes ficar na cama comigo em vez de ir agora para Sintra.

Teresa: Não.

Madalena: Não? Estou a errar as fórmulas químicas, já vejo.

Teresa: Não. Quero mesmo falar contigo.

Madalena: Então, querias passear e afinal é para termos uma conversa? É assunto sério?

Teresa: Não te armes em parva. Chegou o momento de falarmos sobre nós em termos diferentes do que temos feito. Sem a sombra do passado.

Madalena: O passado está vivo.

Teresa: Não é para discutir esse assunto hoje. É amanhã. Quando formos a Sintra.

Madalena: Vai ser uma conversa igual a mil que já tivemos.

Teresa: Veremos.

publicado por Cat2007 às 19:01
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Setembro 26 2016

Resultado de imagem para electra complex

 

Quando existe um pai e uma mãe presentes, é suposto que a filha siga o modelo da mãe. Com efeito, [o] complexo de Electra define-se como sendo uma atitude emocional que, segundo algumas doutrinas psicanalíticas, todas as meninas têm para com a sua mãe; trata-se de uma atitude que implica uma identificação tão completa com a mãe que a filha deseja, inconscientemente, eliminá-la e possuir o pai (citado da Wikipédia).

 

Portanto, a filha, que quer conquistar o pai, segue o modelo comportamental da mãe por ciúmes dela. Sublinhe-se, então, que a criança quer conquistar o pai ao mesmo tempo que tenta afastar a sua rival, a mãe. O que nunca chega a conseguir, constituindo-se assim a primeira grande frustração da vida da mulher. Por isso, quando crescem, as mulheres procuram homens que sejam semelhantes ao seu pai. E eu já não sei se é por isto que elas têm uma certa tendência para se aniquilarem umas às outras. No sentido em que este sentimento, esta vontade de eliminação de criaturas do mesmo sexo responde a uma forte pulsão que reside na infância, nos termos explicitados.

 

Na hipótese de crescer sem uma referência masculina, ou seja, se a criança menina viver só com a mãe, o que sucede? Isto sou eu a pensar. Porque não li nada sobre o assunto. Então, pensando, começarei por dizer que é muito provável que a garota imite os comportamentos da mãe para lhe agradar, uma vez que é a criatura que a protege e orienta.

 

Podia, mas não vou levantar mais hipóteses porque não é preciso complicar.

 

publicado por Cat2007 às 15:21
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