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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL - Cap XXXVII


Cat2007

29.09.16

Clara encetou uma reflexão.

Clara: Por exemplo, desde o início que ela me deu liberdade para pensar e agir. Porém, de acordo com um conjunto de princípios e de regras que são dela. Porque é minha mãe e os filhos devem seguir as linhas orientadoras dos pais.

Joana estava profundamente calada.

Clara: Ela é uma pessoa coerente. Esses princípios e regras são que melhor servem a sua forma de sentir e de pensar.

Joana mantinha-se calada. Porém, agora estava estupefacta com o que Clara lhe ia contando.

Clara: A questão é que me levou a crer que todos eles seriam tão bons para mim como são para ela. Em suma, a minha mãe educou-me como se fossemos iguais. Durante muito tempo convenceu-me. Até há pouco o meu maior objetivo era ser como ela. Alcançar aquele especial tom de azul. Lembras-te?

Joana: Sim. E já não é?

Clara: Não. O azul que eu quero está conquistado. É o teu. De resto, a cor é apenas uma coincidência. Tu és minha por isso tenho o teu azul. Que é completamente diferente do dela. Porque tem uma função muito distinta na minha vida.

Ofereceu a Joana um sorriso cândido.

Clara: O que sinto por ti extravasa, naturalmente, o universo particular das minhas relações com a minha mãe. Um universo que, até tu apareceres, era quase toda a minha vida.

Joana deu-lhe um beijo suave na boca. Ali mesmo no bar.

Clara: Não sei como ela reagirá à nossa relação. Não sei o que fará. Agora, quanto à mentira, não tenho dúvidas. Ela odeia a mentira. E nisso somos quase iguais. Embora ela seja bastante mais fundamentalista do que eu. Portanto, já vês, sinto-me muito desmoralizada. E estou com medo.

Joana: Medo dela?

Clara: Sim. Principalmente.

Joana: Querida, tu e a tua mãe vivem num estado anormal de sujeição relativamente à verdade. A verdade é um princípio. Uma linha orientadora de comportamentos.

Clara: Pois. É o que eu digo. A verdade é fundamental.

Joana: Querida, a verdade, enquanto princípio, ponto de partida para os nossos atos, deve ser respeitada. No entanto, não podemos olhar para ela com a submissão cega de quem é desprovido de sentido crítico e de bom senso. Sob pena de fazermos mais mal do que bem aos outros e a nós próprios. O facto de não teres contado imediatamente à tua mãe que namoras comigo não é um grande pecado. Nem chega a ser verdadeiramente uma mentira porque tu nunca quiseste manter a tua mãe na eterna ignorância. Se não fosse a necessidade que tens de resolver certas coisas na tua cabeça já lhe terias contado.

Clara: Com certeza. Mas eu contei-lhe uma série de mentirinhas que, todas juntas, significam que já lhe preguei uma grande mentira sobre a pessoa que eu sou.

Joana: Bem, estás mesmo decidida a contar-lhe já?

Clara: Sem dúvida.

Joana: Quando vais contar-lhe?

Clara: Neste fim-de-semana.

AZUL Cap XXXVI


Cat2007

29.09.16

Estavam sentadas no bar da faculdade. Joana tinha ido à aula de opção que Madalena lecionava.

Clara: Então, como foi a aula.

Joana: Foi interessante. A matéria é interessante. De resto no news, como sempre.

Clara: Mas ela não te pede para conversar?

Joana: Não. A única vez que conversámos sobre nós, foi aqui no bar. Já te contei.

Clara: Sim. Mas é uma mulher estranha. Que tu não tenhas nada para lhe dizer, eu compreendo. Estás comigo. No entanto. Ela podia querer dar mais alguma satisfação, saber de ti… não sei

Joana: Mas eu disse-lhe que andava contigo. Contei-te. Além disso, ela deixou-me por causa de outra. Por causa daquele amor antigo. Não te lembras?

Clara: Lembro. Mas achas que andam?

Joana: Não sei. Mas é provável. Não sei…

Clara: incomoda-te falar deste assunto.

Joana incomodava-se muito. Mas não pelas razões que Clara ponderava.

Joana: Não, amor. É que se trata de um não-assunto. O meu encanto por ela acabou por tua causa. Era uma idiotice o que eu sentia. Que coisa mais cliché. A aluna deslumbrada pela professora com o dobro da idade. Agora vejo como tudo isso é ridículo. Como eu me comportei de uma forma ridícula.

Clara: Sabes que eu tinha ciúmes dela, não sabes?

Joana: Sim. Mas pensavas que eram ciúmes de amiguinha.

Clara: Pois pensava. E tu pensavas o quê?

Joana: O quê o quê?

Clara: Sobre mim.

Joana: Bem, ciúmes não tinha. Porque tu não me apareceste com ninguém à frente. Mas tinha sempre muita vontade de estar ao pé de ti. Sentia saudades tuas. Claro que me questionei. Mas não encontrava respostas. Nem me atrevia a empreender sobre o assunto. Porque tu eras heterossexual, afinal de contas. Mas para que me estás a obrigar a dizer-te estas coisas outra vez?

Clara: Porque gosto de ouvir, querida. Mas agora, mudando de assunto, queria falar-te da minha mãe. Tenho que lhe contar de nós

Joana sentiu-se estremecer.

Joana: Outra vez… Não percebo porque estás a falar disso agora.

Clara: Porque ela sabe, Joana.

Joana: Ela sabe? Se ela soubesse…

Clara: Ela conhece-me. Disse-me que eu estou diferente. Ela só não parou para pensar. Mas conhece-me bem. Em pouco tempo vai chegar a conclusões.

Joana: Tenho impressão que te sentes culpada. E é por isso que dizes essas coisas.

Clara: Ela sabe de nós, querida. E quando ela perceber que sabe… Quando ela realizar que não lhe contei. Que andei a mentir-lhe… Ela jamais me perdoará.

À medida que se ouvia, Clara ficava mais convencida do que dizia. Os seus receios materializavam-se. A ansiedade aumentava. Ficou muito inquieta.

Joana: Amor, meu amor, escuta-me. As mães perdoam tudo às filhas. Tudo. Porque não as querem perder.

Clara: Tu não compreendes, amor. A minha mãe tem tantas qualidades. Tantas. Tu sabes. Só que a cabeça dela às vezes complica-se.

Tinha uma ponta de desespero na voz.

Joana: E como é que a cabeça dela se complica?

PAI, EU FUMO


Cat2007

29.09.16

 

Comecei a fumar com 16 anos (um horror, bem sei). No princípio, menos de meia dúzia de cigarros por dia. Assim, fumava tudo o que tinha para fumar na rua. Sem sentir qualquer tipo de necessidade quando estava em casa. Não obstante, andava sempre preocupada com, por exemplo, o cheiro da roupa e dos cabelos. Tinha medo de ser descoberta pelos meus pais. Sobretudo pelo meu pai. Um grande autoritário. Que às vezes me metia medo -  vem a propósito dizer que eu não sabia que o meu pai já tinha sido um fumador inveterado. E que tinha largado o tabaco há cerca de 10 anos. Na verdade, ele fumava cerca de três maços de cigarros por dia, sendo certo que eu nunca o vi fumar.

 

Bom, mas para o que importa, importa dizer que eu não me sentia bem com aquilo. Aquilo da marginalidade. A minha cabeça inconsciente não via onde estava o mal em fumar, pelo que não compreendia porque tinha de esconder. É verdade que sou transparente. E franca. Que detesto viver na mentira. E sobretudo não aguento ter de lidar diariamente com o medo. Assim, cheia de medo fui falar com o meu pai. “Pai, sabe que eu fumo? Não fumo muito mas fumo”. Ele não estava à espera de tamanha frontalidade. Se fosse ele a descobrir, seria o diabo. Porém, como era eu quem contava, ficou um tanto desarmado. “Não digas disparates. Não fumas nada”. E eu: “Fumo, fumo”. E ele: “Então deixas de fumar”. E eu, num atrevimento inusitado: “Mas eu gosto de fumar. Olhe, pai, eu fumo e estou a contar-lhe. É a única coisa que eu faço contra as regras do pai. Mas se me der autorização, é diferente. Deixa de ser contra as regras. Saiba que comigo pode sempre contar com a verdade. Nunca hei-de fazer nada nas suas costas”. Creio que ele aceitou porque já andava preocupado com a eventualidade de começarem a surgir namorados. Gostou, portanto, de saber que tinha uma filha que não lhe mentia.

 

Dois anos mais tarde. Aconteceu-me outra coisa que era contra as regras. Contra as regras de toda a gente. Por terror, por vergonha e por causa de uma certa confusão que se instalou em mim, não lhe contei. Acontece que ele descobriu. Era, de facto, contra as regras de toda a gente, porém, ele gostou da ideia. Eram regras que nunca lhe tinham ocorrido. Gostou da ideia. E disse-mo. Fiquei incrédula, a princípio. Envergonhadissima também. Mas, depois, com o tempo, começei a andar incomparavelmente mais leve.

 

Tudo isto a propósito de contar as coisas a quem nos importa.

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