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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL - Cap XLII


Cat2007

02.10.16

Teresa: Penso que é tudo muito mau.

Teresa calou-se por uns segundos para acrescentar em seguida:

Teresa: Devias ter-me dito o que sentias antes de acontecer. Assim, o que tu fizeste foi uma traição.

Clara: Como queria que eu lhe contasse coisas que eu própria não compreendia? Depois, quando as percebi, não queria falar sobre elas porque sofria. Esperei que passasse. Eu não queria que nada acontecesse. Tomei decisões. Achei que nada aconteceria. O que havia eu de lhe contar? Queria que fosse falar-lhe de fantasmas?

Teresa rodou os calcanhares, virando-lhe as costas, Numa atitude que denotava zanga e desapontamento. Na verdade, porém, o artifício que afastara Madalena já se dissipara. E agora Teresa atuava com uma espécie de convicção forjada. Tentava concentrar-se no seu papel de mãe, procurando esquecer-se das “debilidades” da sua própria personalidade. Aquelas que já não aceitava de novo e que só compreendia pela força dos sentimentos. Portanto, no confronto com idênticas “debilidades” da filha, Teresa estava preparada para compreender somente a sua pessoa.

Teresa: Fantasmas. Clara? Como fantasmas se tudo aconteceu? Ela meteu-se contigo. Claro que se meteu. Eu bem disse que ela tinha um ar demasiado maduro. Como é evidente, ela teve outros casos antes de ti. Quando ela se meteu contigo, devias ter-me contado tudo.

Para Teresa o silêncio “ignorante e ingénuo” onde Clara se ficara a movimentar impedira-a de evitar a realização das coisas. No momento presente, já não conseguia pensar mais nada para além de que a filha lhe “devia ter dito”. Para que a oportunidade de abortar os planos de Joana não lhe escapasse.

Clara: Engana-se, mãe. Ela não se atirou a mim. Eu descobri que gostava dela sem que tivéssemos dito nada uma à outra sobre o assunto. E depois, quando a vi ali tão baralhada quanto eu… Aconteceu, mãe. Aconteceu.

Clara parecia atordoada.

Clara: Eu adoro a Joana. E a mãe é a pessoa mais importante da minha vida.

Teresa pensava que a vida a feria cruel e vingativamente. E não compreendia porquê. Só se fosse pelo facto de ter feito sempre tudo bem e de acordo com as regras. Sim. Fizera tudo bem. Não fora certamente a sua conduta impecável que levara Clara áquilo. Teresa abdicara de Madalena durante vinte anos.

Clara: Mãe, não me passa pela cabeça deixar de estar com a Joana. A nossa relação é perfeita.

AZUL - Cap XLI


Cat2007

02.10.16

Teresa fez ecoar um riso que deitou pela garganta fora como se fosse um grito.

Teresa: A tua relação com a Joana? Eu estou completamente incrédula!

Clara: Com o quê, mãe? Para que está a criar esta situação, mãe? A mãe já sabia.

Teresa já não ria. Mas raciocinava mal.

Teresa: Olha Clara, há uma enorme confusão aqui. Muito maior do que imaginas. Seja como for, garanto-te que temia mas não sabia de nada.

Clara sentiu a cabeça a rodopiar.

Teresa: Não te imaginava atreita a semelhantes caprichos.

Teresa sentia-se ultrapassada pela própria vida. Sentia a alma inerte e o espírito cego.

Clara: Caprichos?

“Sexo. Meu Deus! A mãe está a pensar em sexo. Em mim e na Joana a fazer amor.”. Foi tomada imediatamente por recordações do seu próprio corpo nu sobre a cama cheia de odores no quarto de Joana onde, por todos os cantos, tinham sido decalcados ainda há poucas horas os mais prodigiosos prazeres. Prazeres que se viam agora tatuados sobre a sua pele. Escondeu as mãos. Invadia-a um nervosismo profundo. A partir do ventre, começou a formar-se uma emoção crescente que subiu até à garganta na direção da sua boca. Deixou-se cair no sofá, quedando-se horrorizada com o que lhe estava a acontecer. Sentiu urgência em controlar-se, Mas as gargalhadas começaram a sair-lhe pelos olhos em forma de lágrimas. Tinha o rosto desfigurado pelo esforço. Ria e chorava ao mesmo tempo. “Não pode estar a acontecer-me isto”. Tinha cada vez mais vontade de rir. Pregou os olhos no chão e ficou ali. Naquele sofrimento absurdo.

Por seu lado, Teresa segurava no seu rosto empedernido um olhar aparentemente muito sério.

Porém, para Clara, a imobilidade da mãe era um estímulo acrescido para o riso. Que não afrouxava. Ria porque a mãe tinha deixado de ser mãe de uma criança. Clara era agora uma mulher cujo coração estava cheio de espantosas novidades e o corpo vivia no seio de um amor arrebatado onde todo o prazer é possível e concretizado. A sua imagem da filha de Teresa estava desfeita. Porque a mãe tinha os dados e já podia imaginar tudo.

Clara: Desculpe estar a rir-me, mãe. Desculpe.

Entretanto, Teresa ia recuperando. Apesar da tragédia que transportava, o destino apagara Madalena momentaneamente da sua vida. Assim, Teresa sentia que não tinha nada a revelar à filha. Sem confissões a fazer, Teresa mudara-se para um cenário de silêncio totalmente fechado. Deixou de ser possível ver-lhe o rosto. De fora ainda se ouviam os risos e os soluços da filha. Mas foi assim que Teresa pôde fazer com que Clara se sentisse muito só. Presa no fundo de uma gruta escura, vendo-se a rir de coisa nenhuma.

Teresa: Agora que estás mais calma gostava que me contasses o que realmente se passa.

Clara: Já lhe disse, mãe.

Teresa: Tu estás a dar-me factos. Coisas decididas. Não me perguntas o que eu penso?

Clara: Diga-me o que pensa, mãe.

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