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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL - Cap XLVIII


Cat2007

05.10.16

“Hoje fico a dormir em casa da Joana. Um beijinho.”. Teresa indignou-se. “A Clara não tem vergonha nenhuma. Não sei como pode ela, a minha filha, estar a fazer-me uma coisa destas. Trair assim toda a educação que lhe dei. E eu esforcei-me tanto. E agora, o que faço?”. Teresa estava disposta a fazer tudo. Menos a aceitar a relação da filha. Não rejeitava Clara. Mas Ignorava Joana. Para Teresa, a filha era a filha, a que sempre tivera. Era assim que pretendia continuar a viver. “Portanto a Clara não pode vir para aqui mandar mensagens a dizer que vai dormir com ela. Aliás, não pode falar-me mais nela. Que faça a vida que entender. Até que a vida lhe ensine o quanto está errada. Postas as coisas como estão, a minha filha vai ter que aprender com os seus próprios erros.”. Raciocinava assim mas a angústia não parava de crescer-lhe dentro do peito. Como viver ignorando uma realidade que já lhe entrara pela vida dentro? Clara não iria fazer como ela fez há vinte anos atrás. Deixou Madalena por causa dos juízos de valor que imaginou que a mãe fizesse. Não queria perder aquela mãe. Por isso escolheu Amélia em detrimento de Madalena. Optou por viver uma vida digna. Que a mãe, a certa altura, lhe tivesse dito que não era nada disso que queria, era indiferente. Porque Teresa, imaginando-a uma mulher conservadora, deu o passo. Um passo que se coadunava perfeitamente com a sua própria maneira de encarar o mundo. Clara, ao contrário, não a imaginava conservadora. Até porque Teresa sempre lhe dera toda a liberdade possível e respeitava a sua maneira de pensar. Apenas não imaginou que ela não tivesse defesas contra pessoas da índole de Joana. Clara foi apanhada numa teia de sedução onde se deixou enredar. Agora achava-se apaixonada. Mas não estava. Era tudo uma ilusão. Tudo fruto da falta de experiência. “Clara era virgem, santo Deus!”. Continuou a ponderar e concluiu que Clara não era lésbica. Joana era um acidente. “Mas quando é que isto vai acabar?”. Não se via preparada para engolir tudo em silêncio. Impotente e ignorada. “O que vou eu fazer? Como poderei viver em paz enquanto as coisas se vão passando?”. Neste ponto, Teresa estava já muito confusa. Porque via bem que partia de pressupostos que podiam não estar corretos. “E se elas se amam realmente? Como eu e a Madalena nos amávamos? E aquele amor sobreviveu… Preciso de falar com alguém. Preciso de falar com a Madalena. Não há outra pessoa com quem eu possa discutir este problema. Ela é capaz de me dar uma luz. Apesar de neste momento me odiar, a Madalena vai ouvir-me.”.

Mais uma vez Teresa se via a rodar com o carro à volta daquele quarteirão, passando à porta daquele mesmo prédio. Afinal, não estava certa que Madalena a deixasse entrar. E muito menos que estivesse disponível para conversar sobre o assunto nos termos em que Teresa queria. Deu mais umas voltas. “Ela vai deixar-me entrar. Ela odeia-me mas ama-me. Como eu a amo.”.

Teresa entrou finalmente no prédio. Subiu e bateu à porta.

Madalena: Teresa?

Teresa: Olá Madalena.

Madalena abriu a porta. Mas colocou o corpo no meio do caminho.

Madalena: O que queres Teresa?

Teresa: Entrar.

Madalena: Eu disse-te para sair. Lembras-te?

Teresa: Madalena, eu preciso de conversar com uma amiga.

Madalena: Eu não sou tua amiga. Fui tua amante.

Teresa: Tu foste tudo para mim. Deixa-me entrar.

Madalena suspirou.

Madalena: Está bem, entra.´

Teresa: A minha filha está outra. E eu estou perdida.

Madalena: Esse assunto. Vem aqui falar-me disso. É preciso ter lata.

Teresa: Ouve-me Madalena. Eu sou mãe. Não quero perder a minha filha. Mas não sei o que fazer para que isso não aconteça. Ela deixou-me sem qualquer hipóteses de agir para a proteger. Impediu-me de assumir o controlo da situação. O que falhou? Afinal a minha filha não confiava em mim desde sempre? Podia ter-se evitado tanta coisa. Mas não. Hoje atira-me para cima o facto consumado. Isto não é honestidade. Não a que esperava dela. Nós éramos tão unidas. Bastou um passo de sedução da Joana e tudo mudou entre nós. Raios! Imaginava que Clara fosse mais forte. Dei-lhe uma preparação que eu não recebi sobre estas questões. Ensinei-a a pensar pela cabeça dela. Como pôde falhar assim?

Madalena observava Teresa com muita curiosidade.

Teresa: Isto está a dar cabo de mim.

Madalena manteve-se em silêncio. Se pensasse exclusivamente em Clara e em Teresa, podia concluir que a coincidência era em si devastadora. Tentou focar-se nelas e esquecer por momentos as suas próprias mágoas. Porque Teresa estava ali muito frágil. De qualquer modo, não se sentia muito confortável a analisar fenómenos que escapam à lógica. “Realmente. Porque há-de a filha dela ser lésbica?”. Teresa continuou.

Teresa: A Clara diz que a ama. Já me viste isto? Ama-a, Madalena. Isto é uma praga do destino ou o que é? Não queria que ela passasse pelo sofrimento que eu passei quando te deixei. Mas é talvez a única solução para tudo isto.

Madalena: Ora teresa! Tu não tens pudores em estar-me a dizer isso. Queres que a Joana passe pelo que eu passei? O teu egoísmo cega-te. E explica-me lá porque não hão-de elas continuar?

Teresa: Cega, eu, Madalena? Tu seguiste o caminho para onde apontaram os teus pés, como me disseste. E vê o que aconteceu.

Madalena: Realmente aconteceu vir dar contigo outra vez. Um erro tremendo. De resto, o que aconteceu na minha vida com outras pessoas, Teresa? Estás outra vez louca. Pensei que depois do que se passou entre nós, as tuas emoções se tinham reequilibrado. Mas não. Estás de novo tomada pela homofobia furiosa. A minha vida foi certamente mais gratificante do que a tua. Percebo que a vida da tua filha seria mais fácil se não fosse lésbica. Ainda assim, a culpa não é dela. Mas se as coisas não são mais fáceis é porque pessoas exatamente como tu não querem deixar.

Os olhos de Teresa brilharam demais. As lágrimas pequenas desfizeram-se no rosto.

Teresa: Estou extenuada.

Madalena: Desculpa.

Teresa: Não faz mal. Esclareceste-me em algumas coisas. Realmente a culpa não é da Clara… Mas admitamos que a minha filha gosta realmente muito dessa Joana. Que significado pode isso ter?

Madalena: Que significado pode ter? Ora, Teresa, em princípio ela vai querer estar com a Joana. Viver com ela.

Teresa: Vês, Madalena, era aí que eu queria chegar. Eu escolhi ter uma vida diferente da tua. Eu casei e tive uma filha.

Madalena: Tu pareces doida. Já te disse. Insistes no absurdo. E magoas-me. Nem sei para que estamos para aqui a falar. Bom, mas então diz lá como foi a tua vida?

Teresa: Não me posso queixar. O Diogo morreu, é certo. Mas tenho a Clara. Por ela tudo valeu a pena.

Madalena: Percebo que um filho dê algum sentido à vida de uma pessoa. Mas e o Diogo. Teres casado com ele valeu a pena? Teres-me deixado valeu a pena? A vida que tu levaste até me reencontrares valeu a pena?

Teresa: Neste momento ainda é complicado falar de nós. Neste momento da minha vida. Percebes?

AZUL - Cap XLVII


Cat2007

05.10.16

Clara olhava para ela. Todo o caminho olhou para ela. Simplesmente era incapaz de não olhar. Tanto, que na sua cabeça estava já gravado o perfil do rosto, as mãos sobre o volante e o peito. Os seios no seu movimento particular sobre a circulação do sangue e a respiração. Clara também não via pela força de tanto olhar. Já só tinha a imagem que se gravara no cérebro. Por isso não pensava. Não conseguia pensar. Tinha os olhos enormes saturados. Assaltou-a uma vontade súbita de fugir dali. Uma sensação de ausência de vida agitou-a violentamente. Agora já queria falar mas não sabia o que dizer. Percebeu que não conseguia mexer-se. Foi assim o percurso todo.

Há um bom tempo que Joana não a olhava. Estavam tão perto da sua casa. Um quarteirão. Joana parou e encostou o carro. Desligou o motor. Ficou parada a olhar em frente. Depois deixou tombar a testa. Clara perdeu qualquer contacto com a realidade. Deixou de sentir o corpo e a alma como que se apagava nele.

Clara: Vai para o teu prédio e entra na garagem.

Joana não respondeu. Levantou a cabeça e voltou a olhar em frente. Deu à chave e conduziu. O carro andou sozinho ao acaso dentro do espaço sombrio e abafado. Até que ficou imóvel num sítio qualquer. Com a energia antes contida, Clara saltou para fora do carro e foi encostar-se a uma parede cinzenta e fria. Já não olhava para Joana. Tinha os olhos pregados no chão. Os braços pendurados ao longo do corpo. Não encontrava força nas mãos. Nem nas pernas. Clara estava ali a um metro a mirá-la com aqueles olhos brilhantes absolutamente demolidores. Alguém deu um passo em frente. Alguém deu o primeiro passo. Agora estavam tão próximas. Clara colocou-lhe as mãos na barriga. Mas imediatamente pensou em empurra-la. Joana segurou-lhe as mãos com força. Caíram, por fim, nos braços uma da outra. De uma forma abrupta. Apertaram-se muito. Joana relaxou os braços e procurou a boca de Clara. Que recusou o beijo mas estreito-a mais contra si. Para ela não fugir. O corpo de Joana obedeceu. Colaram as faces. Ficaram imóveis assim. Sem deslocar o corpo, Clara colocou a mão por baixo da camisola dela. E passou-lhe suavemente com a ponta dos dedos pela pele da cintura. Apenas as pontas dos dedos. Mantiveram-se assim por minutos. A alguns centímetros da fria e cinzenta parede de betão. Num equilíbrio próprio de dois corpos que se empurram um contra o outro. A lentidão de cada segundo que passa imperturbável num relógio de pulso, marca o tempo de cada movimento facial. O coração pulsa, para e recomeça a bater. O motor do relógio é o coração. Que move os seus ponteiros de acordo com o seu ritmo próprio. Lentamente. Cadenciadamente. Segundo a segundo. Os rostos colados movem-se assim no ritmo definido pela máquina. Vão em sentidos opostos que convergem no objetivo do beijo.

Respira-se toxicidade dentro da garagem pelos pulmões de quem lá vá. Entram e saem carros de acordo com o ritmo habitual de um sábado. Os elevadores sobem e descem com gente dentro. Passam malas pendidas em ombros distraídos. E outras presas nos dedos inchados das mãos. Os olhos absorvidos que trespassam a realidade monotonamente densa não as vêm. Não as podem ver. Porque a vida delas corre num mundo paralelo absolutamente exclusivo das suas duas almas unificadas. Elas também não veem nem ouvem ninguém.

O cheiro de Joana mistura-se no sangue de Clara. E corre-lhe célere dentro das veias azuis. Os cantos das bocas tocam-se. O movimento fica parado ali naquele momento em que o relógio deixa de trabalhar. O coração deixou de bater. A máquina recomeça o seu ritmo. O coração retomou. As bocas recomeçam a mover-se. Encontram-se por fim numa compatibilidade perfeita. As ocas trémulas são retidas. O relógio volta a parar. De novo o peito parou. O mundo também parou. Aquele mundo paralelo feito à medida das suas almas. A ideia de um beijo queimar sem dor é uma impossibilidade. Por isso elas suportavam o ardor nos lábios em carne viva. Os ponteiros do relógio de pulso recomeçaram a andar. É um relógio suíço. Daí tamanha precisão. A cruz branca marcada no fundo encarnado ainda sobressai no pequeno mostrador. Mas Joana já não encontra os seus lábios perdidos na cruz que agora é encarnada. O constante morrer e renascer do coração libertou-se da obrigação imposta pelo círculo desenhado pelos ponteiros do relógio. E acelerou descompassadamente. Joana molha a boca de Clara com a língua. Os ponteiros do relógio apagam-se. O mostrador da máquina já não tem números- A cruz é encarnada. Não há mais nada para além da cruz encarnada. As línguas delas estão inundadas de sangue transparente que se mistura. O relógio desapareceu. Agora é a velocidade do sangue bombeado pelo coração desenfreado que comanda os gestos e os sentidos. A máquina encarnada já não voltará a parar. Os corpos giram. As costas de Joana dão conta da parede de betão. O corpo quente de Clara pesa contra o seu. Joana sente-se mais pequena. As pernas enormes de Clara abrem as suas. Os jeans apertam-lhe as coxas e a barriga. As mãos de Clara têm o comprimento de todo o seu corpo. Fugir é uma impossibilidade. Joana deixa que a morte venha. O seu corpo desfaz-se. O sangue transparente escorre-lhe para fora da boca e pelo interior das pernas para a mão ensanguentada de Clara. Sangue branco viscoso escorre e encharca-lhe o pulso. A mão voltou a mexer-se como se fingisse querer estancar a hemorragia. Mas a verdade é que os seus longos dedos procuravam agora planos interiores escorregadios. Os cabelos de Clara colavam-se no rosto. Empurrava as suas coxas contra as dela. Queria derreter-se sobre ela. Penetrar-lhe feita em líquidos os poros dilatados da pele. Queria viver pelo menos por um momento único dentro dela. Abriu-lhe mais as pernas com os joelhos e pressionou-a outra vez contra a parede. Aproximou o seu rosto selvagem do de Joana e prendeu-lhe para sempre o olhar. Os seus dedos trémulos penetraram. O corpo de Joana abriu-se para Clara entrar. Por entre os lagos e caminhos desta viagem sem destino certo imaginável, o silêncio marcava as palavras pouco ditas.

Clara: Diz-me. Já estiveste com alguém assim desta maneira?

A voz saia-lhe entrecortada.

Joana: Eu nunca estive com ninguém antes.

O corpo de Joana estremeceu imediatamente. Clara empurrou os dedos com mais força dentro dela.

Clara: Porque me mentes assim?

Joana: Eu não estou a mentir.

Joana sorria e olhava-a com os olhos húmidos.

Clara: Eu não queria ninguém na tua vida antes.

As vozes quase não saiam do peito.

Clara: Mas houve. E eu não queria, Não queria.

Joana: Amo-te tanto, querida.

Clara: E eu a ti.

Os braços de Joana envolviam agora a “linda” cabeça de Clara. Clara saiu de dentro dela. Abraçaram-se com inexplicável desespero. Com força. Olharam-se como se o mundo não existisse para além do espaço exíguo que os seus pés ocupavam. As lágrimas rolaram pelas faces de Clara. Molharam-lhe a boca inchada. Estavam felizes. Era uma felicidade que lhes doía mas também lhe sossegava a alma. Como se a morte a envolvesse sem lhes tocar. Estiveram assim muito tempo. Num silêncio cheio de significados. Repleto de mensagens. Nem todas descodificadas.

Joana: Eu queria morrer agora. Eu queria que morrêssemos as duas agora.

Clara abriu os olhos sobre o azul dos olhos dela. Viu-os a pairar algures entre o céu e o mar. Cerrou os seus. Joana fechou os dela. Esperaram assim que a morte chegasse.

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