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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL - Cap LIII


Cat2007

08.10.16

Não fez menção de ir atrás da filha. Porque não valia a pena. Sabia que ela ia andar pela Avenida de Roma até se cansar. Nisto eram iguais. Clara precisava agora de se enquadrar na nova realidade que Teresa lhe apresentara. Haveria de chegar mais calma. Logo falariam um bocadinho melhor sobre tudo. Teresa estava pronta para lhe dar todas as respostas. Não obstante estes pensamentos tranquilizadores, Teresa estava em dor. Porque a sua filha estava a sofrer muitíssimo.

Teresa marcou o número de Madalena.

Teresa: Contei tudo à Clara.

Madalenas: Tudo?

Teresa: Sim. Tudo sobre nós.

Madalena: Olha, eu estou em casa. É melhor vires cá.

Teresa foi.

Madalena: Entra.

Teresa entrou. Estava trémula.

Madalena: Conta-me o que se passou. Como lhe disseste?

Teresa: Primeiro falámos sobre ela a e Joana. Questionei-a sobre o valor da relação delas. A Clara confirmou que se amavam. E eu acabei por lhe dizer que aceitava a relação.

Madalena: Muito bem. Mas tinhas que atirar a homofobia para cima dela outra vez, questionando a relação delas?

Teresa: Não foi homofobia. Foi preocupação. Queria saber se a Joana era confiável. Coisas normais de mãe.

Madalena: Uma vez que tu, com a idade da Joana, me deixaste a morrer.

Teresa: Sim. Porque eu não fui confiável. Sim.

Madalena: E nós, como lhe contaste de nós? Achas que era o momento certo?

Teresa: Não sei se era o momento certo para ela. Mas era o momento certo para mim. Porque foi ali que, de repente ganhei coragem. E não penses que o fiz porque me queria assumir perante ela para depois assumir uma relação contigo. Não. Foi uma questão só entre mim e ela.

Madalena: Mas tu estás completamente louca, Teresa. Como pudeste fazer isso assim?

Teresa: Ela tinha o direito de saber, Madalena. De saber quem é a mãe. Mesmo que a mãe não tenha ninguém.

Era tão raro ver Teresa assim. Confusa. Inconsistente. Tão transparente. Madalena observou-a através dos seus gestos e sons. “Como está fraca.”.

Madalena: Então tu não lhe contaste por nós. Foi por ti. Se foi por ti, eu pergunto que direito tinha ela de saber aqui e agora. Porque não esperar que a crise que se abriu entre ti e ela por causa da Joana fosse ultrapassada? Tu e a porcaria das tuas verdades. Que só são verdades quando tu resolves deitá-las cá para fora. Doa a quem doer. Que desastrada, Teresa.

Madalena sentia-se um pouco deprimida pela evidente pobreza da face do espírito que Teresa lhe mostrava com tão baixo pudor. Por consequência, uma ponta de aversão estava a azedar-lhe a boca. Era por causa deste azedume que Madalena não se sentia capaz de contemporizar com Teresa. Ao contrário, no momento, Teresa inspirava-lhe raiva.

Teresa: Eu sei dos segredos dela. Agora ela já sabe dos meus.

Teresa argumentava, evidenciando-se pela negativa.

Madalena: Que infantilidade. Tu és a mãe. Tu podias saber dos segredos dela e guardares os teus para lhe revelar no momento certo. Não compreendo porque razão contigo as coisas têm de ser assim sempre tão dramáticas. Porque tens sempre graves revelações a fazer às pessoas que amas? Tudo contigo é demasiado pesado. Porque tinhas que contar à miúda no momento em que ela está a resolver a vida dela contigo? Isto não se percebe. O melhor, percebe-se. As coisas passam-se dessa maneira porque a tua vida interior é uma confusão monumental. Queres sempre dizer a verdade. Mas vives da mentira. Descobres alguma coisa nova e já queres mudar tudo. Para de controlar a vida de uma vez, mulher.

Teresa: Contámos uma à outra realidades semelhantes.

Teresa mostrava-se ridiculamente impassível.

Madalena: Deves estar a brincar. Tu contaste-lhe uma história de vida. Ela contou-te um episódio da dela.

Teresa: Posso perceber onde queres chegar. Acontece que eu não poderia avançar mais sem lhe contar. Especialmente agora que te reencontrei. Se tu não tivesses reaparecido talvez me calasse. Porque muito provavelmente não haveria nada para contar.

Madalena: O que me faz confusão aqui é o timing que tu escolheste. Não podia ser pior. É por isso que eu digo que te és egoísta.

Teresa: Já te disse que foi honestidade.

Madalena: E eu já te disse que desse tipo de honestidade ninguém precisa. Estás tão pouco convicta da tua vida que precisaste da aprovação da tua filha. E porque não? Ela também é lésbica. Mas afinal quem tem aqui responsabilidades? Tu ou ela? É possível que tenhas reconhecido que a miúda é mais bem resolvida do que tu e que por isso sentiste tu necessidade da proteção dela?

Teresa: Tu estás a delirar, Madalena.

Madalena: Antes estivesse, Teresa. O pior é que, parece-me, há mais do que isso. Porque nada está resolvido em ti. Tu és a ambivalência viva. Então o que tu fizeste foi também uma jogada desesperada. Foi o teu último trunfo para a afastares da Joana. Atiraste-lhe com toda a culpa para cima. Afinal a Clara estragou a vida toda da mãe. Tu não foste feliz por causa dela. Durante toda a vida dela. Afinal, és lésbica. Ela também é. Agora as coisas devem estar muito alteradas na cabeça dela. O que antes terá visto como uma coisa extraordinária que lhe aconteceu na vida, a Joana, deve parecer-lhe agora uma maldição. Com a tua revelação fizeste com que a miúda se sentisse infeliz por amar. Como se os sentimentos dela fossem doentios. Acabaste com a estória delas, Teresa. Conseguiste. E para quê? Acabará com a Joana. Mas haverão outras.

Teresa: Não. Isso não. Nunca! Eu não fiz isso à minha filha. Tu estás a ser extraordinariamente rebuscada, Madalena. O que é isso? Maldade? A Clara está naturalmente chocada mas via superar. Eu tenho a noção de que fiz uma manobra muito arriscada. Mas não conheço um modo diferente de jogar senão no tudo ou nada. E é só nestas ocasiões que eu jogo. Quando o que está em causa é mesmo o tudo ou nada. O que fiz foi para salvar a minha filha e a mim. A nossa vida está agora nas mãos dela. A Clara é muito melhor do que tu imaginas. Muito melhor.

Madalena: Deus queira, Teresa. Deus queira. Porque é muito perigoso confundir a vida com um jogo.

Teresa: Não me tomes tão à letra Madalena.

Madalena: Posto isto tudo o que dissemos aqui, sabes o que me parece? Parece-me que se eu tivesse um filho não gostava que fosse gay. Da mesma forma que tu não gostas que a tua filha o seja. São as tais dificuldades de que tanto gostas de falar que me fazem pensar assim. Ninguém quer entraves na vida dos filhos. Por outro lado, recordo quando tinha vinte anos. O que pensaria eu se o meu pai ou a minha mãe me viesse informar que era gay. O que faria? O que sentiria? Coisas más. Não sei bem explica-las. Sei que não gostaria. Talvez sentisse que as minhas referências se diluíam. É complicado refazer a imagem de uma mãe na nossa cabeça. Acredito que se perde o pé numa situação destas. Portanto, a tua filha está neste momento a atravessar uma crise tremenda.

Teresa: Pois.

Madalena: Queres um chá?

Teresa: Aceito. Obrigada.

Madalena: Tenho sentido muito a tua falta.

AZUL - Cap LII


Cat2007

08.10.16

Clara não viu o alcance das palavras da mãe. Mas esforçava-se muito para compreender. Para entender tudo. Sentia-se cheia de uma urgência súbita de perceber o que ela lhe ia contar. Na verdade, aquilo que nunca quisera perguntar. Porque não desejava realmente saber. Teresa já tinha começado a falar. Clara espalhava nas diversas expressões e gestos toda a sua boa vontade face ao que estava para vir. O que quer que fosse. O medo aparecera-lhe ainda agora.

Clara: Acho que percebo onde a mãe quer chegar.

Teresa: E amores?

Teresa sentia-se mais perto do objetivo. E já não conseguia pensar nas consequências do que ia revelar.

Clara: Então, há pouco disse-me que amou o meu pai. Embora à sua maneira… Teve um amor, portanto.

Clara arremessava as palavras sobre a mãe. Tentava calá-la.

Teresa: Até hoje tive um amor. Um único amor.

Clara: O meu pai.

Era a segunda tentativa de Clara.

Teresa: Não.

Para Teresa a vida jogava-se assim. Antes de tomar a decisão de contar, a angústia perseguiu-a. Agora só pensava em chegar ao fim. A ansiedade sobre o resultado de tudo aquilo empurrava-a para a frente.

Clara: Não?

Malgrado o que a mãe lhe dissera antes, a surpresa que evidenciou no rosto era absolutamente verdadeira. Existe uma diferença no nível de convencimento humano em situações como esta. Há pelo menos dois estágios de certeza. O primeiro é quando os indivíduos têm todos os dados à disposição para formar a sua ideia. Nestas circunstâncias ele retira as conclusões corretas. Embora não lhes confira a devida credibilidade. Esta, na verdade, depende da confirmação. Com efeito, só quando os factos são confirmados por quem de direito é que se tornam credíveis. No fundo, pouco importa se conseguimos ver a existência daquilo que não nos interessa que exista. Nunca o saberemos valorizar enquanto dado real que é. É por esta razão que a verdade depende das pessoas e das circunstâncias em que elas se encontram. O individuo sozinho é incapaz de fugir a este esquema comportamental. Assim, Clara ficou efetivamente surpreendida quando a mãe lhe revelou que o pai não fora o amor da sua vida. “Outra pessoa.”. Alguém que Clara desconhecia por completo, imaginava. Temeu pelo nome.

Teresa: Casei com o teu pai. Gostava muito dele. Mas nem por sombras o amava. Mas como estava grávida de ti, casei com ele. Mas também casei com ele porque tinha que me afastar da pessoa que eu amava. Era necessário virar as costas a esse amor. Foi o que fiz. Pareceu-me uma tarefa possível. Daí que tomei as atitudes que tinha a tomar. No entanto, não ficou nada arrumado. Afinal, não era possível virar costas. Esse amor voltou para perto de mim. Procurei-o e voltei lá.

Clara: Voltou la?

Clara estava com um peso insuportável sobre o peito.

Teresa: Sim.

Clara: Mas quando?

Agora Clara já falava como se estivesse com dificuldades em respirar.

Teresa: Recentemente. Há uns meses. Em novembro passado.

Clara quase lhe gritou.

Clara: Quem é, mãe? Como se chama?

Teresa: Madalena.

Nada em Teresa mudara quando referiu o nome. Há já alguns minutos que uma espécie de autismo relativo a acompanhava. Conseguiu atravessar a conversa com a filha com a rapidez das poucas palavras utilizadas.

Clara: Madalena? É… também é uma mulher. A mãe fugiu de uma mulher!

Clara olhou em volta. Confirmou o movimento giratório das portas e janelas. Principiou a cambalear. Estava de pé quando sentiu a náusea. Estendeu uma mão sobre a madeira da mesa que tinha sido da avó Amélia. Tinha necessidade de se apoiar.

Clara: Madalena… É professora na minha faculdade não é? A mãe… a mãe é a namorada que voltou.

Teresa: Exatamente.

Aqui terminou o autismo de Teresa. Uma vez calada, sorriu a despropósito. Por causa do nervosismo que subitamente a invadiu. Depois da revelação, Teresa voltara de novo a olhar para a filha. Importavam-lhe muito os sentimentos dela. No entanto, só agora.

Clara estava já de costas voltadas.

Clara: A joana sabia que era a mãe?

Teresa: Sabia.

Teresa ainda lhe viu o esgar de dor e de espanto antes de a ver sair muito depressa.

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