Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL - Cap LV


Cat2007

09.10.16

Teresa deixou Madalena angustiada quando saiu. A leveza que lhes ficara do amor feito dissipara-se com os primeiros raios de sol pela manhã. E tudo se agravava um pouco mais porque não tinham dormido. Na ânsia de se consumirem. Como se aqueles atos pudessem ser eternos. A claridade, porém, instalara o afogo no peito. E tudo voltou ao que era antes. Despediram-se com pressa e sem se olharem. Teresa desceu a pé a Guerra Junqueiro. Para depois subir à direita. Na cabeça rodopiavam as palavras de Madalena sobre tudo o que podia acontecer. Teresa já não estava tão certa sobre o que Clara iria fazer. Talvez fossem aqueles raios de sol tão intensos que lhe estavam a confundir a mente porque não a deixavam ver bem. Com efeito, mal abria os olhos. No entanto, quando entrou no prédio e se fez sombra, o receio agudizou-se. Realmente, o que dissera Madalena corrigira-lhe o pensamento. Talvez agora estivesse mais alinhado com a realidade. E a realidade era que a filha sofria muitíssimo. Sem dúvida que devia ter deixado o tempo atuar. O tempo atua quase sempre bem. Não fora capaz. Não podia. Para tanto, teria que ser a mulher honesta e equilibrada que pensava ser mas não era. Reconhecia agora que, quando as questões rodeavam assuntos de mulheres, tudo se complicava muito. Teresa enganava-se. Mentia. Mudava de personalidade. Agora havia um preço alto a pagar por isso. Era já terrível a preocupação que a consumia. Como estaria Clara a bater-se na luta em que ela, Teresa, lhe inventara? Pelo bem dos filhos, os pais não podem estar assim desequilibrados. Teresa agia sempre segundo as suas convicções. Ora, havia um lado no lado de dentro de Teresa que não possuía bons alicerces. Quando se apresentou à filha por esse lado, aconteceu o que aconteceu. Fizera muito mal a Clara. Teresa olhava, portanto, para dentro de si. E sentia uma imperativa necessidade de mudar. Para fazer bem. Mudando, poderia talvez vir a perdoar-se. Até porque era verdade que não pudera saber exatamente o que fazia. Sentia-se como um bêbado que provocara um acidente de automóvel, atropelando uma pessoa. Um bêbado não consegue evitar o acidente. Mas a culpa da embriaguez é sua porque se colocou deliberadamente nesse estado. Assim sendo, depois de atropelar a filha, Teresa decidiu que não beberia mais. Procurou então Clara dentro de casa. Aflita com as dores dela. Queria trata-la. Não a encontrou em lado nenhum. “Não está. Ou está no quarto.”. Dirigiu-se lá. Ficou parada em frente à porta. Depois olhou para a fechadura. Não estava trancada. Sentiu alívio. Estavam na casa da Alameda. Ali não se trancavam as portas sob nenhum pretexto. Tinha a certeza que a filha estava lá dentro. Encostou o ouvido. Sentiu calor. Bateu à porta cheia de esperanças. Esperou. Naquela casa não se entrava desavisadamente nos espaços privados. Teresa lembrou-se rapidamente que aprendera isto à sua custa. Continuou então à espera. Voltou a bater um pouco depois. Esperou. Não queria sair dali. Não podia. Manteve-se em frente à porta. Finalmente, decidiu bater pela última vez. Pôde ouvir então um silêncio fundo e largo que lhe devastou as esperanças imediatas de poder encontrar a filha. Deixou-se ficar encostada à porta por um tempo em que não pensou em nada. Depois foi-se. Muito só. Madalena fornecera-lhe algumas pistas sobre a vida. Sobre aquele lado da vida. Insuficientes, porém. Para além de saber fazer amor, Teresa não sabia quase nada. Compreendeu que teria de estar ao lado dela. De Madalena. Certamente, até os pés lhe assentarem seguros no chão. E depois disso, talvez para toda a vida. No entanto, agora não era o momento delas. Madalena teria que esperar o tempo que fosse preciso. Até que o silêncio de Clara se dissolvesse. E talvez um pouco mais. Teresa também pensava que devia aplicar a si própria um castigo. E castigar-se-ia não vendo nem falando mais com Madalena. Não até Clara decidir.

AZUL - Cap LIV


Cat2007

09.10.16

Teresa: Tens sentido falta do meu corpo e do prazer, queres dizer.

Madalena: Sim. Porque, embora eu naquela altura o desejasse, tu não me largaste a porta. Sinto falta do teu corpo e do prazer que ele me dá. Único. Muita falta. Nuca mais dormi como deve ser. E tem sido um desconserto escrever a tese.

Teresa: Eu também sinto falta de ti. De colar a minha pele à tua. Do teu cheiro. Igualmente, não tenho trabalhado nada de jeito.

Madalena aproximou-se dela. Levou-a pela mão para se sentarem juntas no sofá sangue-de-boi. Ficaram um pouco em silêncio viradas uma para a outra de mãos dadas e as cabeças baixas. Depois Madalena falou em voz baixa.

Madalena: Porque não disseste tu à tua filha que me amavas quando ela te disse que amava a Joana. Era tão simples. Para que foste repudiá-la? E não lhe contaste nada quando ela estava a ser sincera contigo? Para que vieste aqui agredir-me em seguida?

Teresa: Querida, tu sabes. Ela apanhou-me de surpresa quando eu ia contar-lhe de nós. Do nosso amor.

Madalena: Mas o que te sucedeu foi uma crise de homofobia. Tu ali só pensaste em ti. E quando vieste ter comigo, e me tomaste, foi com raiva. Como se a culpa da Clara ser gay fosse também minha.

Teresa: Naquele momento em que ela me contou, eu odiei-me por ser lésbica. Era como se a culpa de ela também o ser fosse minha. Uma coisa hereditária. Sei lá. E, obviamente, odiei-te. Porque eu sou lésbica porque te amo. Porque foste o meu primeiro amor da vida. O único até hoje. Porque eu não estive com outra mulher. Às vezes duvido que seja lésbica por estas razões. Por seres a única.

Madalena: Sim. Dá impressão que uma pessoa deixa de ter orientação sexual quando ama. Eu sinto o mesmo. Porque, apesar de não teres sido a única, foi só a ti que amei. E amo. Mas agora, as coisas que tu fizeste, este desastre que criaste, vai dar cabo de nós.

Teresa: Não fales assim. É óbvio que eu tenho de esperar pela Clara. Mas ela há-de chegar. Há-de compreender e aceitar. Depois, teremos a vida. A nossa vida.

Madalena: Vai ser tão complicado. Já falámos sobre isso. Para já, como te disse, ela vai acabar com a Joana. E tu vais ter que aguentar as consequências disso. Neste momento, a tua filha deve estar a sentir uma raiva muito grande de ti.

Teresa: Também já te disse que ela é muito melhor do que isso.

Madalena: Espero que estejas certa.

Teresa: Porque me largaste as mãos? Porque te levantaste?

Madalena: Porque este é aquele assunto que nos fere. Estou ferida. Tu não tinhas o direito de fazeres as coisas todas mal. Comigo, não. Porque me partiste um dia. Não tens créditos atualmente.

Teresa: Não confias em mim.

Madalena: Como confiar? Tu fazes sempre tudo para nos afastar uma da outra.

Teresa: Vem cá, querida. Esquece o trauma. Finge que não há passado. Vive hoje como se nós existíssemos apenas a partir do presente. O presente corre desde o dia em que nos voltámos a amar na cama e foi maravilhoso. Vem cá.

Madalena foi. Sentou-se ao lado dela e estendeu-lhe a mão.

Madalena: Mas o presente já está como está.

Teresa: Isso agora não importa.

Teresa aproximou-se dela. Tocou-lhe nos cabelos devagar. Passou-lhe os dedos pelos olhos e pela boca. Madalena inspirou e expirou com calma. Aclamara-se pelo efeito dos atos de Teresa. Abriu os olhos. E ficou presa naqueles dois lagos profundos cheios de pontes a atravessá-los. A custo saiu deles e reteve-se sobre a boca encarnada. Inclinou a cabeça para a frente. E beijou-a muito devagar. Foi talvez o beijo mais longo que deram no presente. Os corpos conformaram-se com as emoções que se iam soltando. Madalena subiu para cima de Teresa sem nunca lhe largar a boca. Esmagaram o vente. Os seios. Partiram as mãos. Apesar da roupa. Madalena soltou-se para lhe dizer baixinho.

Madalena: Tenho tanto medo de ti, mulher.

Teresa voltou a beijá-la. Madalena deixou-se cair naquele beijo. Mais uma vez longo. Depois voltou a afastar-se ligeiramente. Falava-lhe sobre a boca.

Madalena: Isto só me vai fazer mal.

Libertavam-se da roupa com muito vagar.

Madalena: Depois vais-te embora. E eu vou ficar aqui a atravessar um deserto enquanto te espero.

Teresa: Não vais esperar muito, querida.

Madalena: Talvez nem voltes.

Teresa: Cala-te. E não pares de me beijar. Se beijas não falas, querida.

Madalena foi tomada de uma fúria amorosa. Mordeu-lhe a boca. Teresa respondeu ao golpe. Mas com as mãos. Como sempre, perderam a razão e alhearam-se das razões que lhes que lhe recomendavam que parassem. Não pararam até que que os corpos se aquietaram de exaustão.

stats

What I Am

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.