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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL - Cap LXII


Cat2007

15.10.16

Evidentemente, Clara não fez o telefonema da sala. Foi para o quarto. Mas não ligou. Pôs-se a flanar pelo espaço. Pensava nas palavras que iria usar de entrada. Tinham de ser certeiras. Ou ela podia descampar de uma vez por todas. “E se ela gelou?”. Consumia-se. “Passou um mês. Uma eternidade.”. Parou de pensar. Agarrou o telemóvel com muita força. Decidiu mandar uma mensagem, afinal. “Posso ligar?”. Não se sentia corajosa para falar já. “A mãe disse que ela ia ficar feliz. Tenho de confiar na mãe”. Voltou a deambular pelo quarto com o telemóvel na mão. Naturalmente desejava que ela respondesse de imediato. “E se ela não responde?”. Passaram mais de quarenta minutos em que Clara esteve a andar de trás para a frente e da frente para trás. “Ela não me vai responder.”. Concluiu isto e saiu do quarto apressada. Mas levou consigo o telefone. Foi para a cozinha. Passou pela mãe. Teresa estava na sala a tentar ler. Não lhe contou nada no momento. Fez um chá para duas. Mas tomou o seu na cozinha. Depois dirigiu-se à sala para entregar o chá da mãe.

Teresa: Obrigada, filha.

Clara: Como está hoje, mãe?

Teresa: Com o peito menos pesado. Mas com muitas saudades dela.

Clara: E como são as suas saudades?

Perguntou com ingenuidade. O que queria saber era se as saudades da mãe era como as suas.

Teresa: Vamos lá a ver, filha. Nós temos que manter aqui o respeito. Não passámos a ser duas amigas confidentes. Eu sou a tua mãe. Quando muito, tu podes falar-me das tuas saudades.

As saudades de Teresa eram do tipo das que causam ardor na pele entre outras incríveis sensações pelo corpo. Na verdade, o desejo pulsava em Teresa. Era um inferno estar a viver com o desejo vivo não corporizado.

Clara: Desculpe mãe. Era isso que eu queria realmente. Falar-lhe das saudades que eu tenho da Joana.

Teresa: Então fala, querida.

Clara continuava a apertar o telefone.

Clara: Não estou a conseguir descansar nada. Durmo muito mal de noite. E durante o dia estou sempre ansiosa. Mandei-lhe uma mensagem há uma hora atrás e ela ainda não respondeu.

Teresa: Uma mensagem… estamos cobardes, portanto. Está bem. Mas ela pode não ter visto. O telefone não toca com mensagens. Ela pode estar distraída. Ou não estar ao pé do telefone.

Clara: Mas não acha que ela devia estar ansiosa à espera que eu lhe dissesse alguma coisa? A mãe é que disse que ela ia ficar muito feliz por eu a procurar.

Teresa: Neste momento já não está colada ao telefone. Passaram algumas semanas, não é?

Clara: talvez tempo a mais.

Teresa: tem paciência, filha. Se ela não te responder deves ligar-lhe. É preciso esclarecer as coisas.

Clara: Então a mãe já acha que as coisas podem não correr bem.

Teresa: Acho que existe essa possibilidade. Mas mantenho a minha opinião inicial. Ela quer-te de volta.

O telefone deu um sinal. “Podes.”.

Clara: Mãe olhe.

Mostrou-lhe.

Vou para o quarto. Reze por mim.

Clara: Joana.

Joana: Clara.

Clara: Não me respondias.

Joana: Estava lá fora na varanda a apanhar um bocadinho de sol e a ver o rio. Deixei o telefone na sala.

Clara: Mas da tua casa não se vê o rio.

Joana: O rio Douro.

Clara sentiu-se a cair por um abismo.

Joana: Estou no Porto.

Clara: Voltaste para o Porto?

Joana: Não sei. Quer dizer. Não. Mas adoeci. Precisava e apoio. Estava sozinha. Os meus pais cuidaram de mim.

Clara: Adoeceste? Porque não me ligaste? O que te aconteceu?

Joana: Comecei a sentir muitas tonturas e vontade de vomitar. Passava a vida a vomitar. Eles foram ai buscar-me. Deixei o carro em Lisboa.

Clara: Mas porque não me ligaste?

Joana: Porque tu também estavas doente. Era necessário que te curasses.

Clara: Pois estava. Perdoa-me.

Joana: Não está aqui em causa perdoar ou não.

Clara: Então o que está aqui em causa?

Joana: Inevitabilidades. A vida. Aconteceram coisas muto graves que abalaram toda a gente.

Clara: Sim. Pois foi.

Suspirou.

Clara: Vais ficar ai até quando?

Joana: Bem, eu já estou melhor há mais de uma semana. Apenas não estava com desejo de regressar a Lisboa. Mas agora que tu melhoraste…

Clara: Agora…

Joana: Agora tenho que explicar aqui em casa a razão pela qual, depois de amanhã, vou apanhar o comboio para Lisboa.

Clara: Tens a certeza?

Joana: Tenho. No Oriente às seis da tarde.

Desligaram.

Clara correu para a sala.

Clara: Mãe. O seu carro. Vai precisar do seu carro depois de amanhã a partir da tarde?

Teresa: Não vou se tu tiveres uma urgência. E parece que tens uma urgência.

Clara: A Joana vai voltar do Porto. Tenho de ir busca-la.

Teresa: Do Porto. Pois. Faz sentido.

AZUL - Cap LXI


Cat2007

15.10.16

Teresa estava imóvel. Pequena, que não era, sentada naquele sofá enorme da sala grande a olhar para o telemóvel. Como se Madalena tivesse desparecido por ali. As lágrimas secaram totalmente assim que desligaram. A luz era ténue. Deixou-se cair para trás e largou o telemóvel no chão. Dobrou um braço sobre a cabeça e apontou os olhos para o teto. Ficou a ver as imagens da sua vida toda que passavam céleres naquele écran branco. Por isso parecia que ia morrer em poucos momentos. Fazia-se ali um balanço. Os resultados do mesmo, segundo a sua interpretação, indicavam que tinha errado muito. Subitamente ouviu as lyrics: I kinda thought that I'd be better off by myself/I've never been so wrong before/You made it impossible for me to ever/Love somebody else.

Clara: Mãe.

Teresa solevantou-se de um passo. Momentaneamente sentiu-se estrovinhada.

Teresa: Estavas aí? Puseste música.

Clara: Sim. Mãe. Porque não foi falar para o seu quarto? Era uma conversa íntima. É assim cá em casa. Foi a mãe que me ensinou.

Teresa: Não sei. Achei que não estavas. Não sei.

Clara: Acontece que eu ouvi tudo.

Teresa: A que propósito, menina?

Clara: A propósito de vir a caminho da sala quando a mãe lhe ligou. Podia ter voltado para trás. Mas queria muito saber como ia ser. Estive ali a torcer para que tudo corresse bem. Estava preocupada consigo. Perdoe-me.

Teresa: Não perdoo-o. Mas, já que ouviste, percebeste que foi o fim. Certo?

Clara: Não. Não percebi isso. Percebi que a Madalena joga muito duro. E que a mãe acreditou cegamente em tudo o que ela lhe disse. Eu vi como sofria. E as respostas que ia dando. Também chorei. Mãe. Não suporto vê-la sofrer tanto.

Teresa: Oh, querida! Para que te foste meter nisto? São os meus problemas. Eu sou adulta.

Clara: Não mãe. Ainda bem que ouvi. A mãe não está capaz de raciocinar. Está numa fase em que só sabe fazer autocritica. Está a enfraquecer-se assim. Eu sei que a mãe não tem um amigo com quem possa partilhar. Ninguém que a ajude a recompor-se. Eu sei que também sou culpada pelo seu estado atual. A mãe está extenuada. É preciso invertermos aqui os papéis. É preciso que eu cuide de si agora.

Teresa: Meu amor, não há nada que tu possas fazer. Mas agradeço-te.

Clara: Mãe. Não me escutou. Eu disse que a Madalena joga muito duro. É óbvio que não ouvi o que ela disse. Mas ouvi as suas concordâncias magoadas com o que ela ia dizendo do lado de lá. Desculpe mãe, mas a que propósito duas pessoas confessam que se amam para o resto da vida e vão separar-se? A conversa sobre o amor do passado, que morreu, não tem sentido nenhum. Se vocês se amam hoje, é porque aquele amor do passado as juntou de novo. A idade é outra mas o sentimento prolongou-se até hoje. Com o que se passou entre ambas no presente, foi dada continuidade ao amor. Até parece que morreu um amor e nasceu outro que nada tem a ver com o primeiro. Não há aqui dois sentimentos. Há apenas um. Que conversa fiada a da Madalena. Depois disseram que se não tivessem conhecido no passado, este amor do presente seria o amor das vossas vidas. Veja bem! Não acha que isto quer dizer que o amor ente ambas nunca morreu?

Teresa: Filha… como tu és lúcida! Estou a compreender. Estou a compreender que a Madalena tem medo de mim. Aliás, ela já mo disse. Ela tem medo, sim.

Clara: Mas não deve ser medo de passar pelo mesmo. É o trauma. Creio que ela lhe perdoou. Mas…

Teresa: Mas não é capaz de ir mais longe do que isto.

Clara: Ela também deve estar a sofrer um bocado, mãe.

Teresa: Mas desta vez vai ficar a sofrer. Não vou procura-la. Ela tem que fazer como eu fiz. Libertar-se dos fantasmas. Para isso é necessário ver se vale a pena ceder ao medo. Ou se o nosso amor é maior do que isso. Depois das coisas que ela me disse. Da decisão que ela tomou. De se separar de mim de vez, não vou procurá-la. Se ela tiver caráter, vai conseguir tirar-nos desta dor.

Clara: E se não tiver?

Teresa: Se não tiver, é porque foi um grande azar tê-la reencontrado.

Clara: Nem sei mais o que dizer. Temo por si. É só isso.

Teresa: Minha filha querida, já disseste muito mais do que era suposto. Estou muito orgulhosa de ti. E grata. Estás madura, querida.

Sorriu-lhe com ternura.

Teresa: Olha, e a Joana, já lhe ligaste?

Clara: Não. Estou aterrorizada.

Teresa: Mau!

Clara: Eu sou como a mãe. Ótima a resolver a vida dos outros. Desde o princípio com a Joana que estou habituada que seja ela a vir ter comigo.

Teresa: Era o que faltava que ela te procurasse. Mandaste-a embora.

Clara. Pois foi. E o pior é o que eu lhe disse. Já me lembro bem. Foi um monte de horrores.

Teresa: De que tipo?

Clara: Do tipo colocar tudo em causa. Os sentimentos, sobretudo.

Teresa: Passaste-te, portanto. Desculpa, querida. A culpa foi minha.

Clara: Não. A culpa foi minha. Eu é que sou responsável pela minha relação. Ela deve estar devastada.

Teresa: E tu como estás?

Clara: Eu? Sem apetite. Sem estímulos. Triste.

Teresa: Filha, está na hora de acabar com isso. Pelas duas. Vocês não merecem estar assim.

Clara: Nem sei que palavras vou usar quando ela me atender o telefone. Isto se atender.

Teresa: Vai atender e ficar feliz. A Joana não é uma miúda marcada. Não te procura porque é o correto a fazer. Tem que dar tempo à tua loucura. Mas estou certa que o que ela quer é que voltes para ela como eras antes.

Clara: Confio em si, mãe.

 

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