CAFÉ EXPRESSO

Outubro 16 2016

Uma semana depois Teresa ainda não tinha o carro. De qualquer modo, não lhe fizera ainda falta. Não tinha muita vontade de sair para longe da Alameda. Fazia tudo a pé no respeito de rotinas muito bem programadas. Todas as manhãs subia a Guerra Junqueiro e ia à Mexicana tomar o pequeno-almoço e ler os jornais. Depois visitava as montras da Avenida de Roma até à hora do almoço. Por vezes comprava uma peça de roupa ou um livro. Almoçava em casa. Saía em seguida para dar um passeio breve no jardim da Igreja da Praça de Londres. Voltava a casa meia hora depois. Pegava no computador e vagueava nas páginas a que sempre se habituara. Ler não conseguia. Jantava cedo em qualquer lado antes de ir para o ginásio. Quando regressava retomava o computador. Ia para a cama perto da meia-noite. Como é evidente Madalena fazia parte destes ramerrões que Teresa projetara. Havia sempre a esperança de esbarrar com ela em algum daqueles lugares. E à noite, na cama, mil vezes as lembranças do amor com ela lhe acendiam o corpo. Num fogo que era necessário apagar. Sentia como se durante toda a vida não tivesse passado um dia sem fazer amor com ela. Estava completamente tomada pelo vício.

Na manhã seguinte Madalena descia a Guerra Junqueiro. Teresa viu-a do outro lado da rua quando subia. Deixou-a avançar uns metros e foi atrás dela. Não sabia se havia de a abordar. Madalenas andava com pressa. Dobrou a esquina ao fundo da rua e subiu á direita. Teresa sentiu um sobressalto. Andou mais depressa e pôde surpreender-se com o que via. Madalena estava parada em frente à porta do seu prédio. Teresa pegou no telemóvel e marcou o número.

Teresa: Madalena, onde estás?

Madalena: Não muito longe, como sempre.

Teresa sentiu-lhe a tensão na voz.

Teresa: Eu não estou em casa.

Madalena: Não? Onde estás?

Teresa: Não muito longe, como sempre.

Teresa ia subindo a rua. Podia vê-la perfeitamente. Com o cabelo liso a cair-lhe sobre a cara pregada no chão.

Madalena: Mas quanto tempo levas a chegar a casa?

Teresa: Porquê?

Madalena: Porque eu estou aqui à tua porta.

Teresa desligou o telefone e falou-lhe a um metro.

Teresa: Então sobe.

Madalena: Jesus!

Teresa: Vens tomar chá?

Madalena: O quê?

Teresa: Chá. Vens tomar chá com a tua amiga muito amiga quase como uma irmã?

Madalena: Nós somos amigas, Teresa.

Teresa: Pois somos.

Entraram em casa.

Madalena: Isto está diferente. Fizeste obras. Mas os móveis são os mesmos. Não estão é nos mesmos sítios. Nem as fotografias. Aqui está a tua mãe.

Teresa: A minha mãe está por todos os lados desta casa. Tomas chá ou não?

Madalena: É muito cedo. Não costumo beber chá de manhã. Prefiro um café. Outro. Já tomei o pequeno-almoço.

Teresa: Pois eu não. Tomo sempre na Mexicana a esta hora. Mas hoje não foi possível porque te vi passar.

Madalena: E porque não me chamaste, imbecil?

Teresa: Por acaso tive essa intenção. Mas tu andaste muito depressa. Vinhas para aqui com muita pressa. Porquê?

Madalena: Eu ando depressa.

Teresa: Não andas nada. Tu vinhas depressa porque tiveste medo de perder a coragem.

Madalena: Coragem para quê?

Teresa: Diz-me tu.

Madalena: Tem sido difícil passar os dias.

Teresa: E as noites.

Madalena: Sim. As noites.

Teresa: Como passas as noites? Fazes-te todas as noites?

Madalena baixou a cabeça.

Teresa: Diz-me.

Madalena: Por vezes de dia também.

Teresa: No entanto, és apenas minha amiga.

Madalena: Não sejas cínica, Teresa.

Teresa: Descarada és tu. Vens aqui para ter sexo comigo. Só para isso. Podias ter ligado há mais tempo. Não percebo o que te fez vir à Alameda. Tens tão más recordações daqui. Não percebo porque queres fazer amor aqui.

Madalena: Também não percebo nada. Ontem chorei muito à noite. Hoje de manhã acordei com esta decisão tomada. Queria ver-te aqui.

Teresa: Descansa. Eu também só penso em fazer amor contigo. Não te vou pedir mais nada. Vem cá.

Madalena aproximou-se. Teresa abraçou-a pela cintura e puxou-a contra si. Ficaram presas pelo ventre. Olharam-se intensamente. E beijaram-se violentamente na boca.

publicado por Cat2007 às 23:03
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Outubro 16 2016

Clara: Emagreceste.

Joana: Tu também.

Clara: Não fui capaz de comer grande coisa.

Joana: Eu vomitava.

Clara: Disseste-me. Já estás bem, não é?

Joana: Sim.

Clara: Não foste à faculdade, claro.

Joana: Claro que não. E tu?

Clara: Não.

Calaram-se. Ficaram frente a frente muito tempo. Sem palavras. De olhos cerrados. Estiveram assim até as almas se reanimarem.

Joana: Vamos ver o mar?

Foram comer junto à praia. Comeram imenso. Embora lhes doesse um pouco o estômago. De uma forma tácita, encetaram um processo comum de recuperação. O corpo doía-lhes. Cansado nos músculos e nos ossos. Cada uma tinha uma nódoa negra bem visível no peito. Clara olhou dentro dos olhos azuis de Joana e em seguida virou o seu olhar extenuado para o mar. Fez uma ligação perfeita de cores. Joana segui-lhe o olhar.

Clara: Duvidaste de mim? Achaste que eu não voltava?

Joana: Nunca. Só senti muito a tua falta.

Clara: Eu amo-te tanto!

Um brilho iluminou-lhe o olhar rasgado. Parecia que tinha tomado uma droga qualquer. Olhou Joana por dentro de um sorriso que despontara.

Clara: É perfeito o nosso amor. Como é perfeito! A ti eu não preciso de pedir nada. Tudo vem no ritmo dos meus desejos e necessidades.

Joana: E eu não preciso de te fazer muitas perguntas. Quase tudo o que quero saber descubro no silêncio da tua boca molhada ou através do contacto com a tua pele.

Clara: Eu precisava muito de te beijar agora. Quero todas as respostas. E responder-te a tudo.

Joana: Eu preciso de te beijar agora para saber como foi sem mim.

Levantaram-se da mesa. Descalçaram os sapatos. E atravessaram a areia, até ao mar. Molharam as mãos e a cara. Beijaram-se profundamente com sabor a sal pelo tempo de uma eternidade.

Joana: E se adoecermos de amor? Achas que podemos ficar doentes de amor?

Clara sorriu.

Clara: Não, acho que não. Juntas, não. Separadas, sim. Eu fiquei doente de amor.

Joana: Eu também.

Clara: Perdoa-me, Joana.

Joana: Gostar de ti não é uma decisão. Desejei simplesmente voltar. Aliás, tinha mesmo que voltar.

Clara: Mas perdoas-me ou não, querida?

Joana: Não sei se compreendes porque nos deixaste.

Clara: Porque dizes isso?

Joana: Porque podes voltar a deixar-me, talvez.

Clara: Tu sabes que eu te deixei por causa da minha mãe.

Joana: Tu disseste-me que tinhas de me deixar porque, pelo que vieste a saber da vida da tua mãe, o nosso amor já não te parecia tão belo.

Clara: Não parecia porque eu estava completamente louca. Doente da cabeça por causa daquelas emoções todas. Na altura, o nosso amor não me pareceu belo, de facto. Mas só naquele momento. Compreendes?

Joana: Acho que compreendo mais do que isso. E solidarizo-me contigo. Coloco-me no teu lugar e vejo perfeitamente que o teu mundo desabou.

Clara: É verdade. Perdi o pé. Coloquei tudo em causa. Mas como viver como sou se rejeitasse a minha mãe como é? Se eu não queria que a revelação dela fosse mais do que um pesadelo, como viveria feliz contigo? Foi por isso que terminei.

Joana: Eu sei.

Clara: E perdoas-me.

Joana: Não posso perdoar algo que tu fizeste sem consciência. Só posso compreender. E já compreendi, anjo.

Clara: E já não tens medo que eu te deixe?

Joana: Tu, na verdade, não me deixaste. Mas eu fiquei perdida.

Clara: Pois não. Só enlouqueci momentaneamente. Mas demorei a ir buscar-te porque estava partida por causa da minha mãe. Não lhe falei durante este mês. Nem ela a mim.

Joana: E agora já se falam. Resolveram tudo, como é evidente. O que acha ela de mim? Detestava-me.

Clara: Foi ela quem me ordenou que te telefonasse. Foi ela que me explicou que tu ficarias feliz. Que não me rejeitarias.

Joana: A sério? Olha, eu nunca simpatizei com ela. Confesso-te. Mas acho-a linda de morrer. Por isso posso ultrapassar qualquer obstáculo.

Riu-se.

Joana: A Madalena é uma mulher de sorte.

Clara: A Madalena disse-lhe que não queria mais nada com ela.

Joana: Disse? Mas, olha, eu não acredito. A Madalena é louca por ela.

Clara: Eu sei. Mas tem medo.

Joana: Pois.

Clara: Mas a minha mãe mudou. Creio que o facto de eu ser lésbica a ajudou a mudar. O problema dela era aquela homofobia e a necessidade de parecer perfeita ao mundo. Ela adora a Madalena. Não creio que a fosse deixar outra vez. Não com o que já aprendeu com tudo o que sofreu durante vinte anos e agora. O problema é que a minha mãe decidiu não ir mais atrás da Madalena.

Joana: Ai agora a Madalena vai ter que ultrapassar-se e tomar a iniciativa de ir ter com a tua mãe? Não sei se ela fará isso.

Clara: Nem eu. Ela deve continuar a achar-se uma vítima das coisas que a minha mãe lhe fez no passado. E portanto acredita que tem uma fatura que ainda não está paga.

Joana: Sabes o que acho?

Clara: Diz.

Joana: Acho que elas são duas mulheres marcadas. A maturidade tem isto. Muitas experiências traumáticas. E muitas delas mal absorvidas. Enquanto nós temos o espírito limpo. Confiamos totalmente. Por isso foi tão fácil voltar.

Há já algum tempo que caminhavam à beira mar de mãos dadas. Pararam. E sentaram-se na areia. Ficaram caladas a observar as ondas vigorosas que se lançavam cegas contra a costa. E se desfaziam. Escutavam o barulho plural do mar. Talvez o único que não incomoda ou irrita mas acalma. O barulho que é necessário ouvir quando o silêncio é preciso. As ondas morrem pacificamente. E renascem uma e outra vez. Olhavam juntas para o mar e assistiam a um movimento constante e alternado de vida e de morte. Olhavam para o mar e metia-se-lhes no peito a ideia de renovação. Só de o ver atuar. O mar explicava-lhes como tudo deve ter um fim pacífico. Como é pacífica a fusão entre a água salgada e a massa compacta de grãos de areia. Assim como a força das águas, que consecutivamente renasce nas ondas extraordinárias, apela ao sentimento profundo de vida renovada. Princípio. Sal. Sabor. E a vida que afinal nunca acaba. Os olhos delas transformaram-se em água do mar de tanto olharem. Tinham-nos por isso da mesma cor. Azul. Aquele azul que um dia Clara sonhara ter para si, agora era definitivamente seu.

Clara: O mar. Esta energia. A minha boca ainda sabe a sal. Sinto-me como que renascida. E por isso com necessidades primárias. Tenho muita fome.

Joana: Eu também preciso de te comer toda inteira.

Clara: Sinto formigueiro nas mãos.

Joana: E na língua.

Puxou-a pelo colarinho e deu-lhe um beijo ávido na boca.

Caíram na areia. Os corpos debatiam-se. O beijo não parava de magoar.

Clara: Vamos para casa.

Joana: Vamos.

Foram com as mãos cheias de segredos e mistérios comuns sobre o mar e a vida.

“Hoje fico com a Joana. Gosto muito de si, mãe”.

Teresa sorriu. “Quero ver quando é que tenho o carro de volta”.

 

publicado por Cat2007 às 15:15
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