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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL - Cap LXVII


Cat2007

19.10.16

Queriam comer peixe, e como regressavam a Lisboa, decidiram ir almoçar a uma esplanada no Rossio. Sentaram-se na diagonal para estarem mais próximas.

Joana: Meu Deus, nem consigo abrir os olhos. Que esfrega monumental.

Clara: Esfrega, Joana? Que vocabulário é esse?

Joana: É uma palavra enquadrada no contexto. Significa fricção, por exemplo.

Clara: Eu sei o que significa, anjo. Não tens vergonha de falar assim?

Joana: Nenhuma.

Clara: Eu tenho um bocadinho.

Sorriu-lhe.

Joana: Também quer dizer sova. Ou, melhor, uma sova também pode ser uma esfrega.

Clara: Santo Deus, estás desbragada!

Riu-se.

Joana: Porque ainda sinto tesão. Apesar de me doer o corpo todo e sentir o cérebro a esvair-se

Clara: E continuas. Tarada!

Joana: Ora cala-te. Sei perfeitamente que estás como eu.

Clara: Sim. Estou toda partida. Sem dúvida.

Joana E estás cheia de desejo. Vejo bem isso nos teus olhos anormalmente brilhantes e no teu sorriso trémulo.

Clara: Pois estou, amor. É de estares a respirar tão perto de mim.

Apertaram as mãos debaixo da mesa. E olharam-se fixamente. Depois soltaram-se e riram com prazer.

Joana: Sempre quereres que eu entre em tua casa hoje?

Clara: Quero que entres e que fiques para passar a noite comigo. Jantamos com a minha mãe. Já combinámos isso.

Joana: Estou nervosa. Ela nem sequer me convidou. Apareço lá assim contigo e fico logo para dormir…

Clara: Podia ser para dormir, que bem precisamos. Mas não faço muita fé nisso.

Joana: Vá lá. Não brinques.

Clara: Eu sei, querida. Já falámos sobre isto. Também me sinto um bocadinho embaraçada. Mas tem que ser. Ela ficou muito feliz por nós. Nem se importou com o carro. E olha que ela não gosta muito de emprestar o carro. Como já te expliquei, não quero que ela pense que, agora que estou contigo outra vez, a minha relação com ela ficou distante. Logo agora, que cheguei a entendimento extraordinário com ela. Vais conhecer finalmente a casa da Alameda. E vais adorar. Olha, o meu quarto é cheio de sol. Vais amar o meu quarto.

 

Meteram-se no carro em direção à Alameda. Chegaram a casa. Silêncio. Dirigiram-se à grande sala de estar à procura de Teresa. Estavam ligeiramente nervosas-

Clara: Não está aqui. Deve ter saído.

Joana. Ainda bem. Assim tenho tempo para me preparar.

Clara: Anda. Vou mostrar-te o meu quarto.

Atravessaram o largo corredor em direção à zona dos quartos. Foi então que Clara ouviu a música que vinha do quarto da mãe. Hasta en sueños he creído tenerte devorándome/ Y he mojado mis sabanas blancas recordándote/ Y en mi cama nadie es como tu /No he podido encontrar ese ser /Que dibuje mi cuerpo en cada rincón/ Sin que sobre un pedazo de piel ay ven /Devórame otra vez, ven devórame otra vez/ Ven castígame con tus deseos mas/Que mi amor lo guarde para ti /Ay ven devórame otra vez, ven devórame otra vez /Que la boca me sabe a tu cuerpo/ Que esperan mis ganas por ti.

Joana: É do quarto dela?

Clara: É.

Joana: Não vamos incomodá-la. Leva-me para o teu quarto e depois falamos com ela.

Clara: Está bem. Depois eu venho aqui chamá-la.

Passados alguns minutos Clara achou que devia ir dizer à mãe que já voltara a casa. E que trazia Joana consigo. Era só passar-lhe esta informação. E depois deixava-a em paz pelo tempo que ela desejasse. Na Alameda, quando uma pessoa se remetia ao seu espaço privado, estava a deixar uma mensagem muito clara para a outra. Não aparecer. Não incomodar. Esperar. Ali as pessoas interagiam nos espaços comuns. Embora muitas vezes esta regra fosse levemente contornada quando era mesmo necessário dizer alguma coisa. Dar um recado importante. Chamar para fazer alguma coisa inadiável. Para tanto, bastava tocar à porta e esperar na sala. Clara considerou que era mesmo importante informar a mãe de que estava em casa com Joana. Teresa haveria de gostar de saber disso. A porta estava fechada sem ser no trinco. A música subsistia. Clara sentiu uma vibração especial naquela música, que não foi capaz de identificar. A minha alma tem/Um corpo moreno/Nem sempre sereno/Nem sempre explosão/Feliz esta alma/Que vive comigo/Que vai onde eu sigo/O meu coração. Clara bateu à porta. Não obteve resposta. Dentro do quarto elas beijavam-se, suadas, com o corpo todo. Estavam espalhadas por cima dos lençóis enrodilhados. Clara decidiu-se a abrir a porta. Talvez fosse da ansiedade. Talvez por saudades. Clara quebrou a regra. E abriu a porta. O que viu deixou-a com uma sensação de arrasamento. De tal forma que não conseguiu fechar a porta imediatamente. Teresa e Madalena mantiveram-se na mesma posição. Também elas incapazes de reagir. Finalmente Clara pôde fechar a porta. Afastou-se do quarto em agitação. Essencialmente por causa da profunda sensação de vergonha e também da culpa.

LEMBREI-ME DO AMOR


Cat2007

19.10.16

 

Agora decidi romper um bocadinho o lençol do tempo e vir até aqui.

 

Lembrei-me do amor. Não para dar a respetiva definição camoniana, que não responde à questão, mas para refletir um bocadinho sobre o assunto.

 

Estou a pensar naqueles casos de amor em que as pessoas discutem in a daily base. Casos em que as pessoas se amam mas não se entendem de facto. E, por causa disso, não se decidem a ficar juntas para além do tempo que leva a consumir o desejo. Tudo isto porque, um dia, alguém já se magoou muitíssimo.

 

Estou a escrever sobre um amor assim.

 

Por várias vezes me passou pela ideia de acabar com o dito amor. Não avançar com a relação. Deixar estar como está até morrer exaurida pelo sexo praticado numa base constante. Porque é isto que tem lógica.

 

No entanto, de outras vezes tenho pena que se triturem sonhos. Ainda que nascidos no passado. E é por isso que estou tentada a meter-me na árdua tarefa de descobrir argumentos que sustentem de forma credível a possibilidade de um amor assim vingar. Mas não sei se vou ter sucesso. Porque não estou convencida.

 

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