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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL - Cap LXVIII


Cat2007

20.10.16

Clara atravessou o largo corredor com a alma muda. Quando chegou ao pé de Joana ainda não conseguia falar.

Joana: Mas tu estás branca! O que aconteceu?

Clara: Olha, Joana, nem sei o que te dizer…

Joana: A tua mãe não me quer cá em casa.

Clara: Não, querida. Não é isso. Mas temos que sair. Temos que ir passar a noite a tua casa.

Joana: Ela também te mandou embora?

Clara: Joana, querida, acalma-te, por favor. Eu surpreendi-as na cama.

Joana: O quê? A quem?

Clara: A minha mãe está com a Madalena no quarto… na cama.

Joana: E tu viste…

Clara: Vi.

Joana: Que horror! Que vergonha inacreditável.

Clara: Pois é. E agora não sei o que fazer. Não tenho lata para falar com ela.

Joana: E ela não vai aparecer por aí agora?

Clara: Não. Aqui em casa não funciona assim. Se ela quiser falar comigo simplesmente bate à porta. Não vai abrir como eu, estúpida, fiz.

Joana: Não entendo muito bem esses rituais. Mas confesso que, agora, dão jeito. E também tinham dado muito jeito se tu os tivesses cumprido.

Clara: Pois. Mas não cumpri. E agora está criada esta situação extremamente constrangedora.

Joana: Mas não podemos ir embora assim sem mais nem menos. Tens que lhe dizer alguma coisa. Senão ela ainda morre de susto.

Clara: E o pior é que isso é verdade. Tenho que lá voltar e bater à porta e depois vou para a sala esperar por ela. Meu Deus, vai ser de fugir!

Joana: Então é melhor ires já. Quanto mais depressa fizeres a coisa, melhor.

Clara: Achas?

Joana: Acho, meu amor lindo.

Clara: Mas eu ainda estou em estado de choque. Vou tremer. Olha nem sei como lhe falar.

Joana puxou-a para si. E abraçou-a com firmeza.

Joana: Não te preocupes. Vai correr tudo bem. Eu estou aqui.

Clara soltou-se suavemente dela.

Clara: Vou lá, então.

Voltou a atravessar o corredor largo. Já não se ouvia música. Bateu à porta e retirou-se.

Madalena: Eu não acredito que isto me aconteceu outra vez nesta casa!

Teresa emitiu um riso nervoso.

Teresa: Que nos aconteceu, se fazes favor. Fomos surpreendidas a fazer amor pela minha mãe e agora pela minha filha. Não há pachorra para estas ironias da vida.

Madalena estava trémula.

Madalena: E agora, o que pretendes fazer?

Teresa: O que pretendo fazer, como assim? Eu não pretendo fazer nada, ora essa! Sou uma mulher adulta que já escolheu o seu destino. E ela sabe qual é.

Madalena: E disseste-lhe que o teu destino era comigo?

Teresa: Isso não. Porque tu ainda não aceitaste o meu pedido de namoro.

Madalena: Não sei como tens espírito para te pores com piadas.

Teresa: O que queres que faça? A miúda entrou aqui. Ninguém a mandou entrar. Viu o que não queria. E que eu também não queria, claro.

Madalena: É uma vergonha, Teresa. Como vais enfrentá-la agora?

Teresa: Enfrentá-la? O que vai nessa cabeça, mulher.

Madalena: Tu estás a sério, querida? Isto que aconteceu não tem consequências para nós?

Teresa: Madalena, mas afinal que idade é que tens? Porque haveria de ter? É só um pequeno constrangimento. Nada mais.

Madalena: Olha, estão a bater à porta.

Teresa: É ela a dizer que quer falar-me. Tenho que lá ir.

Madalena: Mas eu não. Eu não quero vê-la outra vez. Não agora.

Teresa: Mas tu estás mesmo tonta. A que propósito eu te levaria agora para falar com ela? Só se fosse para infernizar a cabeça da miúda que, convenhamos, deve estar morta de vergonha.

Madalena: Também eu estou morta de vergonha. Admira-me é que tu não estejas.

Teresa: Eu sinto algum embaraço. É natural. Mas morta de vergonha… é ridículo. Eu já venho querida.

Clara estava de pé à espera da mãe. Não se poderia sentar calmamente. Porque não estava calma. Quando a viu aproximar-se sentiu um pequeno disparo no coração. As faces ficaram afogueadas. Pousou os olhos no desenho do tapete. E deixou-os para lá ficar. Teresa caminhou na sua direção e deu-lhe um beijo. Clara, confusa, não conseguiu retribuir.

Teresa: Olá filha. Sejas bem aparecida. Tanto tempo fora de casa. Estava cheia de saudades tuas.

Clara: Mãe, desculpe. Eu não queria ferir a sua intimidade. Fiz muito mal em ter entrado no quarto. Mas estava com saudades e feliz. Não imaginava…

Teresa: Não imaginavas que a Madalena pudesse estar cá em casa.

Clara: Pois. E…

Teresa: E mais nada. Foi uma chatice tu teres aberto a porta do quarto. Peço-te que não repitas. Mas já és crescida. Claro que ninguém quer ver os pais em certas figuras, mas não serás certamente a primeira a quem isso acontece. Vamos. Esquece isso e recupera-te lá.

Clara sorriu, por fim.

Clara: Está bem, mãe.

Teresa: Muito bem. Assim é que se fala. Olha, ainda falta um bocadinho para a hora a hora de jantar. Vamos mandar vir qualquer coisa de fora e, mais logo, jantamos as três.

Clara: Mãe… é que a Joana também está cá em casa.

Teresa riu-se.

Teresa: A Joana? Santo Deus! Mas isto parece uma cena de manicómio. Porque não me avisaste que a ias trazer? Aliás, porque não me disseste que vinhas hoje para casa?

Clara: Mãe eu nunca precisei de dizer que vinha para casa. Depois, achei que podia fazer-lhe uma surpresa. A Joana veio para a mãe ver com os seus próprios olhos como estamos ótimas.

Teresa: Logo hoje que está cá a Madalena. Elas tiveram aquele caso… tu sabes. É capaz de ser constrangedor para elas.

Clara: Pois.

Teresa: Paciência. Seja o que Deus quiser. Hoje jantamos aqui as quatro. Agora vai fazer companhia à Joana. Quando forem horas, eu bato-te à porta.

Clara: E a mãe vai ter com a Madalena lá para dentro para o quarto?

Teresa: Então o que é isso, menina? Que falta de respeito é essa?

Clara: Desculpe, mãe. Ainda estou um bocadinho desnorteada.

Teresa sorriu e beijou-lhe a face.

AS CAUSAS DO QUE SENTIMOS


Cat2007

20.10.16

 

Eu sou psicoanalizada e por isso sei (naturalmente às minhas custas) que existem muitas pessoas que pensam, falam e atuam em desconformidade com o que sentem. Mas não vale a pena falar aqui em “muitas pessoas”. Porque posso tomar-me como exemplo.

 

Para mim, o que importava no passado era o que o meu pensamento muito bem esquematizado e ordenado se dispunha a produzir. E assim afogava as emoções. O pensamento é muito bem organizado quando o desejo de fugir aos sentimentos é grande, devo dizer.

 

Lembro-me de certa vez ter dito ao terapeuta que tinha sentido qualquer coisa (de que agora não tenho memória) que considerei ser sem nexo. Ao que ele respondeu que “há sempre uma causa para o que sentimos”. Interiorizei isto.

 

Claro que se trata de um processo doloroso (este de “fazer sair as emoções” e compreendê-las) mas vale muito a pena. De facto, neste percurso, eu adquiri a capacidade de ser honesta comigo mesma, tornando-me por isso numa pessoa muito mais tranquila.

 

Agora também é verdade que este último parágrafo stinks. Nem sei o que parece. Divido-me entre uma cena de autoajuda e a conversa de um pregador barato.

 

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