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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL - Cap LXXII


Cat2007

23.10.16

 

Clara: por acaso preciso que me explique. Porque suspeito que há-de ser algo diferente do que eu sinto pela Joana. A nossa paixão não nos engole. A nossa paixão dá-nos vida. A sua paixão devasta-a?

Madalena: Sabe que as palavras têm significados múltiplos. Uma paixão devoradora, é uma paixão que me consome. Que nos consome, aliás. A Teresa sabe o que eu quero dizer. Não sabes, Teresa?

Teresa: Sei. Absorve-nos.

Teresa respondeu com os olhos azuis postos nos dela. Fitaram-se a fulgir durante alguns momentos.

Clara: Parece que estão a falar de uma coisa que vos desgasta.

Madalena: Sim. É algo que nos deixa exaustadas física e mentalmente.

Joana: Clara, nós também sentimos essas coisas.

Quando disse isto, olhou para Teresa e enrubesceu.

Mas elas têm a experiência que nós não temos.

Teresa: Onde queres chegar, Clara? A que propósito vens falar da minha experiência na intimidade? Mas perdeste completamente a cabeça? De facto, esta conversa descambou. Eu não devia ter permitido que a Madalena te respondesse à pergunta da paixão. E de como é a nossa paixão. Estás a entrar despudoradamente na parte da minha vida que não te diz respeito. Ora, isso eu não te vou admitir.

Madalena: Já te disse para não seres paternalista comigo, Teresa. Eu não ia adiantar mais nada. Nem iria permitir mais avanços.

Clara: Desculpe, mãe. Eu não queria invadir a sua intimidade. A única coisa que eu quero perceber é a razão pela qual a Madalena a faz sofrer tanto.

Virou-se para Madalena.

Clara: É por isso que não gosto de si. Graças a si eu e a minha mãe passámos um inferno dentro desta casa. Quase nos perdemos uma à outra. E depois, quando a minha mãe se recuperou, a Madalena disse-lhe que já não a queria. E ela voltou a sofrer enormemente.

Teresa: Clara, estás a ser injusta com a Madalena.

Joana: Sim, Clara. A culpa do inferno por que passaram aqui as duas não é da responsabilidade da Madalena.

Teresa: Eu expliquei-te tudo quando conversámos. A culpa foi minha. Eu deixei a Madalena há vinte anos por ser homofóbica. Nunca a procurei durante esse tempo por ser homofóbica. Repudiei a tua relação com a Joana por ser homofóbica. Quando resolvi contar-te tudo, falei antes com a Madalena, que me aconselhou a não dizer nada naquele momento para não estragar a tua relação com a Joana. Mesmo assim, eu resolvi abrir o jogo todo. E foi isso que nos fraturou. Demorámos um mês a recuperar. E depois disso, foi possível falarmos. Lembra-te que, nessa altura, me mandaste ir falar com a Madalena. Numa altura em que eu temia que ela já não me quisesse mais por causa do tempo que estive sem a atender. Sem lhe dar uma palavra de satisfação. Foste tu. Para que vem agora dizer que não gostas dela?

Clara: Não gosto dela porque a mãe sofre por causa dela. Ela não a quis de volta. E eu vi a mãe chorar. E a mãe não chora sem um motivo grande. Agora, chego aqui a casa e a Madalena está cá consigo. E eu pergunto o que aconteceu? Já a quer de novo ou está só a alimentar-se de si?

Madalena: Talvez os pais da Joana também não gostassem muito de si se soubessem que abandonou a Joana num momento de exaltação e que a deixou um mês à espera de explicações sem a promessa de as vir a dar.

Joana: Os meus pais sabem. Eu contei-lhes quando fui doente para o Porto. De facto, estão preocupados comigo. Têm medo que eu sofra mais. É normal. Há-de passar-lhes. Sobretudo quando se aperceberem que eu sou feliz com ela.

Teresa: Perdão, Joana.

Madalena: Perdão Joana, está muito bem. Mas e onde está o pedido de perdão para a Madalena? Para mim. Eu que voltei de Coimbra em paz. Que não procurei ninguém. Que aceitei conversar. Que cedi no amor. Que perdoei no tempo. Que apostei de novo. Que me desiludi outra vez. Que voltei a tentar. E que, por fim, porque a Teresa resolveu fazer tudo à maneira dela, fiquei um mês sem descortinar como haveria de sobreviver. Porque para mim, ela tinha partido de vez. Mais uma vez.

Joana: E tu, Clara? Faz-me impressão que, mesmo apesar de tudo o que estavas a passar, não tenhas tido saudades, desejos…

Madalena: Sim. Isso, Teresa. Não sentiste nada? Como foi possível conceberes o fim de tudo?

Joana: Pois. Como foste capaz de aceitar o nosso fim?

Clara: Não estejas a meter tudo no mesmo saco, Joana. São situações diferentes.

Madalena: São situações idênticas. Sendo que a minha e a da Teresa é muito pior porque nós temos um passado funesto. Tudo se torna muito mais difícil de recuperar.

Teresa: Filha, somos duas sociopatas.

Madalena: Acho muito bem que brinques, Teresa. Porque o ambiente está realmente para o pesado. Mas é verdade que ambas demonstraram desinteresse pelos sentimentos de cada uma de nós.

Clara: Elas têm razão, mãe.

Teresa: Sim, Clara. Mas em que condições iriamos ter com elas? Se nós fizemos o mesmo uma à outra. Madalena, nós desistimos de tudo. Inclusivamente deixámos a nossa própria relação de mãe e filha à deriva. Entrámos ambas num estado depresso. E só voltámos a falar porque num certo dia demos conta que o tempo já tinha operado sobre as coisas. Como só o tempo o sabe fazer.

AZUL - Cap LXXI


Cat2007

23.10.16

Joana: O que significa para si estar encantada?

Madalena: Para mim, é estar seduzida com alegria.

Clara: Pelo físico, neste caso?

Madalena: Sim.

Clara: E chegam-lhe relações estritamente físicas?

Madalena: Sim. Chegam-me. A si não, não é? É natural na sua idade.

Clara: Sim. Na minha idade as pessoas são sempre menos cínicas.

Madalena: É verdade. Aliás, a idade também foi uma das razões porque me envolvi com a Joana. Com ela vivi a pequena ilusão de regressar à juventude. Não que eu não me sinta e não seja uma mulher jovem. Acontece é que voltei um pouco aos meus vinte anos. Uma fase da minha vida em que as minhas emoções estavam bem arrumadas e eram puras.

Clara: Estou a ver. Mas não esteja sempre a puxar o assunto para o lado da minha mãe. Não é sobre ela que estamos a falar agora.

Madalena: Eu, quando falo de mim, acabo sempre por chegar à sua mãe.

Teresa: E tiveste, durante estes últimos vinte anos, muitos regressos ao passado assim do mesmo género?

Madalena: Não. A Joana foi o meu único caso com uma pessoa mais nova.

Joana: E como se sente uma mulher quando usa sexualmente outra? Foi disso que se tratou, afinal. Não foi?

Madalena: Que disparate! Claro que não. Entre nós não existia uma paixão devoradora. Mas havia atração de parte a parte. Foi uma relação curta. Mas, ficámos boas amigas. E isso é que é importante.

Joana: É verdade.

Clara: Uma paixão devoradora como a que sente pela minha mãe, Madalena?

Madalena: Clara, desculpe. Mas está a interrogar-me. Não sei se me sinto muito confortável com o tom que está a usar.

Clara: Não tem que responder, se não quiser.

Madalena: Não. Eu respondo. Já lhe disse. Respondo porque quero. Sabe, eu também acho importante que fique esclarecida sobre o que se passa entre mim e sua mãe.

Clara: Noto alguma animosidade em si?

Madalena ficou visivelmente irritada. Olhou para Teresa.

Madalena: Agora que fez essa pergunta, sou obrigada a responder-lhe que sim.

Teresa: Filha, estás a ser rude na forma como colocas as questões. E de facto, isto aqui não é um interrogatório. Além do mais, não tens autorização para ser descarada.

Clara: Desculpem. Eu só quero que esta conversa corra bem. Para o bem de todas nós. Mas cada vez que me ocorre uma questão…

Madalena: Fica enervada. Deixe lá. Com a maturidade virá a calma.

Joana: Madalena!

Clara: Deixe lá. Com a maturidade há-de chegar o bom senso.

Teresa: Isto não está a correr nada bem. E, portanto…

Madalena: Portanto, nada. Há que continuar. E pode ser a discutir. Não me incomoda e até prefiro

Clara: Pode ser a discutir sim. Porque, tenho que lhe dizer, a Madalena irrita-me profundamente.

Madalena: Ai sim? E porquê, se nem me conhece? Tem ciúmes da Joana?

Clara: De facto, fala como se tivesse muito pouca idade. E ainda se atreve a dizer que eu não sou suficientemente madura. E não serei. Mas fique sabendo que eu nunca tive ciúmes da Joana. Não depois de estar apaixonada por ela. Quando compreendi que gostava da Joana, já vocês tinham terminado. Terminado por causa do seu grande amor da vida que era precisamente a minha mãe. Ora, que grande ironia.

Joana: Acho que é melhor termos calma.

Teresa: Deixe, Joana. Elas que se entendam.

Madalena: Ora, Teresa. Deixa de ser paternalista. Entendemo-nos se for caso disso. Senão for, não nos entenderemos mesmo.

Clara: Pois é isso mesmo. Sabe o que eu acho? Acho que a Madalena está ressentida comigo. Porque eu simbolizo o seu abandono de há vinte anos atrás. A minha mãe deixou-a e não voltou mais para si porque eu nasci.

Madalena: A menina está a fazer aqui psicologia de almanaque.

Teresa: Desculpa, Madalena mas eu acho que não está. De facto, a Clara é o carpo que nasceu na sequência da nossa separação. Por isso, e como ela diz, simboliza a nossa rotura.

Clara: Carpo, mãe?

Teresa: Fruto, filha.

Madalena: Sim. Simboliza. Mas o meu ressentimento vai todo para ti.

Teresa: Pensei que me tinhas perdoado e que já não havia ressentimento. Tivemos longas conversas sobre isso.

Joana: Eu creio que a Madalena ainda se agarra a essas ideias apenas para se proteger.

Madalena: E eu creio que duas miúdas não podem dar-me lições. Era o que faltava. Nem tu, Teresa. Esta é a minha área neste amor. A da dor. Só eu é que sei como foi passar por esta dor. Mas, Clara, eu respondo-lhe à pergunta que fez lá atrás. Sim. Sinto uma paixão devoradora pela sua mãe. Precisa que eu lhe explique o que isso é?

AZUL - Cap LXX


Cat2007

23.10.16

Como era esperado, o jantar começou num silêncio desassossegado, onde se ouvia o barulho exaltado dos talheres a bater nas travessas e nos pratos coloridos. Comiam indiano. E bebiam vinho tinto. Por vezes, as bases dos copos batiam inadvertidamente nas ourelas dos pratos, denunciando também a inquietação ali aformalada. Sabia-se que aquele jantar não era uma mera circunstância. Não estavam ali para se conhecer melhor no âmbito de um simpático convívio onde a comida era boa e o vinho ajudava a descontrair. Não se esperavam atos indulgentes nem compassivas atitudes. Porque cada uma entendia que tinha fiúzas que deviam ser satisfeitas e nenhuma aceitava, por outro lado, que devia satisfações. Mas há medida que os segundos passavam, crescia a necessidade de interromper aquele silêncio. Só para o interromper. Assim, aquietaram-se as intenções primárias e foi em tom mudo que todas decidiram que se acolheriam umas às outras com a amabilidade devida, como determinam os mais básicos deveres de educação. Foi então que Teresa pôde falar.

Teresa: Clara já conheces a Madalena.

Podia ter encetado a conversa num outro ponto menos melindroso. No entanto, não lhe foi possível. Apesar de bem saber que a camada de “verniz” que envolvia a atmosfera era demasiado frágil, Teresa sentia-se segura e tinha pressa.

Clara: Só de vista da faculdade. Nunca conversámos.

Madalena: Sim. É verdade, nunca conversámos.

Clara: Mas eu já sei algumas coisas de si. E a Madalena também já deve saber algumas coisas de mim.

Sorriu para Madalena e o ar estremeceu um pouco.

Teresa: Então este jantar é bom para aprofundarmos conhecimentos. Eu, por exemplo, já conheço a Joana. Mas mal trocámos palavra. Gostava de a conhecer melhor.

Ouviram-se pequenos suspiros.

Joana: Eu também gostava muito de a conhecer melhor. Afinal é a mãe da Clara e…

Clara: E nós estamos apaixonadas.

Parecia que Clara não estava disposta a respeitar o ajuste inicial.

Joana baixou o tom de voz e dirigiu-se a Clara.

Joana: Querida, não é preciso começarmos isto logo com uma declaração de interesses.

Teresa: E porque não Joana? Creio que é por causa disso, por estar apaixonada pela minha filha, que veio com veio com ela cá a casa hoje. Segundo julgo saber, era até para me fazerem uma surpresa.

Joana: Eu peço desculpa por ter aparecido sem avisar.

Madalena: Ora, Joana. Não é preciso seres tão formal.

Teresa: A Joana é do Porto, não é?

Teresa infletiu. Porque fez alguma fé na possibilidade de se seguir ali um procedimento pacífico.

Joana: Sim. Mas não tenho intenções de voltar a viver no Porto.

Madalena: Por causa da Clara?

Clara: Como é evidente.

Clara largou os talheres e cruzou automaticamente os braços.

Teresa: A pergunta não era para ti, filha.

Clara: Sim. Tem razão mãe. Desculpe, Madalena.

Teresa: Creio que ambas vão chumbar este ano letivo.

Madalena: Sem dúvida.

Teresa: E o que pretendem fazer?

Clara: Namorar.

Teresa: Filha, por favor, a vida não é assim. O que me diz a Joana?

Joana: Nós vamos terminar o curso, arranjar emprego e depois, mais tarde, haveremos de ir viver juntas. Este ano foi diferente, mas nós somos boas alunas, como deve saber.

Teresa: Desculpe. Sei que a Clara é boa aluna. E acredito que a Joana também seja. Mas viver juntas…

Clara: A Joana é ótima aluna.

Madalena: É verdade.

Clara: Sim, viver juntas, mãe. Mais tarde. É o que fazem as pessoas que se amam.

Madalena: Também tive esse sonho quando era da vossa idade.

Clara desviou o olhar da mãe e centrou-se em Madalena.

Clara: Desculpe a pergunta, Madalena. Mas alguma vez esteve apaixonada pela Joana?

Clara estava farta de ver Madalena a bedelhar intermitentemente sobre a vida dela com Joana, tentando agora falar de si própria para se vitimizar, condenado Teresa. Não lho permitiria. Não às suas custas e de Joana. De resto, Estava ali para saber coisas de Madalena. E não haveria de terminar o jantar sem colocar todas as suas questões. Clara fez assim estalejar definitivamente aquela camada de verniz já crepitado que mal as ia sustentando. Foram invadidas por uma pequena corrente de ar frio.

Joana: Não. Não esteve.

Madalena: Não é bem assim, Joana. Estive encantada. Ela é linda e ótima pessoa.

Disse estas últimas palavras num sorriso franco e a olhar para Clara.

Clara: Uma ótima pessoa é alguém que não dá chatices.

Madalena: Noto alguma animosidade em si, Clara.

Clara: Desculpe, Madalena. Não queria passar a ideia de que estou a embirrar consigo. Porque, honestamente, não estou. A questão é que tenho uma certa necessidade de a conhecer melhor. De saber coisas de si. O último mês nesta casa foi horrível. Todas sofremos muito. A mãe, a Joana e eu. Quanto a si, não sei como passou. Gostava que nós as quatro aproveitássemos este jantar para falar com abertura. Acha que pode falar-me com abertura?

Madalena: Claro que posso. Pergunte-me o que quiser.

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