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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL - Cap LXXIX


Cat2007

31.10.16

Despiram-se com rapidez apenas aparentemente apartadas. Em seguida mergulharam nuas na cama. No ato, os corpos foram um de encontro ao outro. Abraçaram-se com força. Madalena falou-lhe ao ouvido.

Madalena: Meu amor. Quero-te para sempre, meu amor.

Teresa não disse nada. Apenas a apertou mais. Madalena alisou-lhe os cabelos com a mão de fora, destapando-lhe o rosto. Beijou-lhe as faces muito devagar.

Madalena: És tão bonita. Meu Deus!

Teresa segurou-lhe a cabeça com as duas mãos e prendeu o olhar no dela. Madalena ficou entontecida com o fulgir daqueles olhos, no momento, cor de prata como o mar quando é coberto pelo sol. Aproximaram as bocas indolentemente. O beijo assim paliado queimava os lábios antes do encontro. E depois foi uma labareda que se acendeu. Em desespero, as línguas molhadas tentaram sem esperança mas com vicejo apagar aquele fogo que se reacendia a cada suspiro. As bocas colaram-se porque derreteram sob aquele calor insuportável. Pararam por desazo. Não conseguiram aguentar tamanho fervor. A temperatura desceu um pouco. Com cuidados, separaram os lábios vagarosamente. Teresa pôde então falar.

Teresa: Não acredito que estás aqui assim. Minha. Toda e só minha. Finalmente.

Madalena: Há muito tempo que só sou tua. Desde sempre. Mas também não acredito que estás aqui. Habituei-me a amar-te na tua ausência. Nem sei se sei fazer melhor contigo do que o amor que faço contigo.

Teresa: Não há mais nem melhor a fazer. Faz amor comigo todos os dias. Cola-te a mim assim para sempre. Vamos buscar esses vinte anos de amor ausente e vivê-los hoje com raiva e ternura.

Madalena: Com paixão e loucura.

Teresa: Com fome e com sede.

Madalena: Nem há vinte anos isto foi assim, minha querida.

Teresa: Há vinte anos ainda tínhamos vergonhas.

Madalena: Hoje o mundo é nosso. E o mundo está dentro desta cama aqui e agora. E amanhã estará no meio da rua para onde formos passear de mãos dadas. Vens passear amanhã comigo de mãos dadas?

Teresa: Com certeza. Eu sou uma exibicionista. Gosto de te exibir, boa. Porque tu és boa. Toda a gente vai ter inveja de mim. Olha, já sei. Vamos para o Chiado. Almoçamos lá. Dás-me comida à boca com o teu garfo e beijas-me na boca de cada vez que eu engolir.

Madalena: E tu seguras a minha mão e agarras-me com força para eu não cair por causa das tonturas.

Teresa: Depois vamos andar a pé a comer gelados. Tu comes da minha boca e eu como da tua.

Madalena: É perfeito porque gostamos as duas de chocolate. Vamos comprar dois gelados de chocolate. Quero ser assim. Pouco imaginativa. Livre para ser pobre de espírito e poder elevar o meu espírito bem alto com o teu.

Teresa: Podemos ver montras e experimentar fatos-de-banho. Escolhemos logo uma meia dúzia para provar. No fim, não provamos nada. Só uma à outra dentro do provador.

Madalena: E não compramos nada?

Teresa: Compramos todos, se quiseres, meu amor.

Madalena: Toma um chocolate.

Teresa: Toma um beijo.

Madalena: Dá-me vinho.

Teresa: Bebe vinho.

Madalena: Amanhã estaremos no Chiado a refluir.

Teresa: Pois sim. Estaremos zonzas mas é de amor. E agoniadas de paixão.

Madalena: Bebe vinho, Teresa.

Teresa: Posso deitando umas gotas de vinho nas tuas mamas e chupar? Gostava de ir bebendo assim.

Falou-lhe ao ouvido em voz baixa.

Madalena: Teresa, tu és a mulher mais ordinária que eu alguma vez conheci.

Teresa: Tu nunca conheceste outra mulher.

Madalena: Que me amasse assim, não.

Teresa: Que te amasse. Ponto.

Teresa ia bebendo. A pele de Madalena ir arrepiando por partes. Abriu as pernas e enlaçou Teresa pela cintura.

Teresa: Tens umas belas pernas. E umas mamas deliciosas. Sabem a vinho de boa qualidade.

Madalena: Toma outro chocolate. Vem tirar-mo da boca.

Teresa pousou o vinho e atirou-se a ela, mordendo-lhe levemente a boca para lhe arrancar o chocolate pela metade. As mãos delas andavam perdidas pelos vários ângulos, dobras e linhas dos corpos confundidos. Até que se reorientaram. Madalena entrou nela. Teresa encaixou o golpe e respondeu com superioridade, arqueando o tronco para cima. Depois Madalena saiu rapidamente e voltou a entrar. Teresa deixou cair o corpo e voltou a subir. Estiveram neste movimento sincopado pelo tempo de uma eternidade. Dos cantos dos olhos de Teresa escorriam lágrimas que pingavam salgadas sobre o rosto de Madalena. Sobretudo, sentiam aquele sal nos beijos bravios que trocavam.

Teresa: És tão puta!

Madalena: Tu é que és. Tu é que estás a ser fodida.

Teresa: Machona. Machista.

Madalena: Sim. Só para te agradar. Mas não podemos contar a ninguém.

Teresa: Tu não és uma mulher respeitável.

Madalena: E tu és uma mulher que não se dá ao respeito.

Teresa: Deixa-me comer-te.

Madalena: Só se eu puder fazer ao mesmo tempo.

Teresa: Vem

O quarto ficou em silêncio. Apenas se ouviam os rumorejos típicos.

O CORPO É QUE SABE


Cat2007

31.10.16

 

Os fenómenos físicos são o nosso barómetro mais fiável. Ou seja,  o corpo é que sabe. Toda a gente sabe. Portanto, desconfio de afirmações como "o meu peito encheu-se de alegria". Não. Porque o peito está mais leve. Se está mais leve, não pode estar cheio, mas vazio ou a caminhar para isso.

 

A importância das coisas importantes da vida quanto vale no seu todo? Em que estado ficarão as nossas coisas importantes face à realidade espelhada no Orçamento do Estado? O que é importante? São as aquisições, as procissões, as exibições, as representações e as apresentações? O que me importa pode ser medido em função do PIB?

 

O que é importante para mim? faço esta pergunta a partir de um ponto em que me encontro descentrada de mim mesma. Pouco interessada nos meus interesses de consumo imediato. E lembro que dentro deste conceito de consumo imediato cabe o sexo, ou o amor, ou outro tipo de afecto ou lá o que se queira chamar aos fenómenos.

 

O que é importante para mim? Faço a pergunta a pensar exclusivamente em mim. É assim que funciona. Embora pareça estranho. O que é importante para mim é uma questão universal que para o ser efectivamente deve ser colocada por cada um de nós. Por todos nós. E assim se atinge a universalidade. Cada pessoa a perguntar: "o que é importante para mim?".

 

Está errado por princípio questionar sobre o que é importante para os outros. E também está errado pelos princípios. Quando queremos saber dos outros antes de saber de nós raramente estamos de boa fé. Sustento esta afirmação com o instinto de sobrevivência. Uma pulsão natural que nos leva sempre a fazer as coisas mais correctas à luz dos princípios. E parece até que moral e instinto nada têm a ver. Mas têm. Com efeito, existe uma Lei Natural que rege todas estas coisas. De forma que tudo se encaixa. Nenhum ser humano mal preservado tem capacidade ou qualidade para partilhar positivo. Só negativo. Por vezes, meio negativo e meio positivo. Mas o meio negativo e o meio positivo não existem. Só a dúvida. A dúvida sobre a bondade de alguma coisa faz dela automaticamente uma coisa má. O bom não é meio nem mais ou menos. É bom. Se não é bom é mau.

 

Por exemplo, uma casa mal construída será sempre uma má casa. Não é aceitável que se diga "é uma casa com um bom quintal, mas tem um mau telhado e uns péssimos esgotos. Embora, as paredes sejam muito sólidas. Assim, é uma casa mais ou menos boa". Ninguém quer uma casa mais ou menos boa. Mesmo que tenha uma grande área. O bom e o mau estão relacionados com a utilidade e a expectativa que as coisas podem dar às pessoas.

 

Quem quer dar o que não tem só pode estar a querer enganar os seus visados. As boas intenções são suportadas por capacidades sólidas. As boas intenções irritam qualquer um porque são mais um modo de tentar obter satisfações pessoais. Dar não pode ser um acto pensado nem com especificas motivações. Dar é uma pulsão natural do ser vivo que está bem. Dar a voz. Dar o olhar. Dar a pele. Dar o suor. Dar o ombro. Dar a mão. Dar o tempo. Dar por instinto. Não há outra forma efectiva e util de dar.

 

O que é importante para mim? O que me lava a angustia? O que me faz sorrir porque respiro na plena capacidade dos meus pulmões soltos? Sorrir a sério talvez seja a maior das dádivas. Pela boa energia que instala. O Orçamento do Estado tira-me a capacidade de sorrir? Em caso afirmativo, o caminho que tenho a percorrer ainda é longo. Se falo do Orçamento do Estado é porque nem por sombras é para aqui chamado mas está na ordem do dia. Procuro ser actual, portanto.

 

O consumo. O consumo engorda. Ponto final. As pessoas querem dar e receber coisas de consumo. Por aqui medem o nível da generosidade do mundo. E depois admiram-se que se vejam envolvidas numa teia de relações de interesses que em nada satisfaz as suas necessidades ou, quando satisfaz, cria outras piores. Coisas que ninguém estava à espera. O antidepressivos, por exemplo, são coisas que os seus actuais consumidores não estavam à espera de ter de consumir. O médico deu a receita. O doente pagou a consulta. O doente nunca pensou que um dia ficaria assim doente.

 

Na verdade, o nivel de consumo necessário também se mede pelos indicadores fornecidos pelo instinto de sobrevivência. Tudo o mais que precisamos são valores. Quem não percebe isto, não vive, inventa fantasias tão letais como as SCUTS.  O instinto de sobrevivência manda essencialmente adquirir valores. A justiça, a lealdade, a verdade, a honestidade, o esforço, o trabalho. Os valores encaminham-nos para a paz pessoal. A paz pessoal liberta-nos os pulmões para nos abrir o sorriso. De sorriso aberto podemos dar tudo o que temos. Porque tudo o que temos pode ser dado sempre e a todos sem nunca se gastar.

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