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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL - Cap XLVI


Cat2007

04.10.16

Clara esperou um pouco antes de Teresa ter saído e depois foi para a rua. Alienar-se, alheando-se dos carros, das montras e das pessoas.Desceu rapidamente até à Praça de Londres. Encontrou um banco vazio no jardim por trás da igreja. Sentou-se com um pé em cima e os braços para trás a apoiar o tronco. Assim estava já suficientemente isolada da situação que acabara de vivenciar para poder refletir sobre ela. Não compreendia a reação da mãe. Teresa ficara horrorizada com a relação com Joana. “Sempre soube que ela era um bocadinho homofóbica. Mas homofobia histérica? A que propósito? Nunca pensei”. Esboçou um sorriso amargo de incredulidade que dirigia a ninguém. As coisas que a mãe dissera não combinavam com ela. Teresa falou com se fosse uma católica funda, dolorosamente castrada pelo sentido do dever e agoniada pela ideia do pecado amplo e abrangente. Imaginou que Teresa encarnara o espírito da avó Amélia. Que Clara não conheceu de facto. Mas sabia que ela se apresentou assim ao mundo. Foi Teresa quem lhe disse isto cheia de sorridentes condescendências. “Ela tinha uma postura muito conservadora.”. Evidentemente, esqueceu-se de mencionar os contornos do espírito da avó. Uma mulher de coração puro e de alma clara. Para a Amélia o que realmente importava era o amor. Clara ignorava, pois, este facto fundamental e pensava que “a mãe é uma mulher inteligente e com um espírito liberal. De coração liberto. E cheia de apurado sentido crítico”. Por isto não lhe era concebível ver a mãe escapar assim à razão. Mas afinal quem era Teresa? Não era totalmente a pessoa que durante a sua vida foi representando. Seria talvez menos reta. Mais mesquinha e infantilmente humana. Menos admirável. E ainda mais inacessível porque mais difícil de compreender. Clara sabia que Teresa não gostava de invadir o espírito de ninguém. Perguntava-se agora se a mãe alguma vez mergulhara dentro da sua própria aventura e se viu despida.

Levantou-se e pegou no telemóvel.

Clara: Estou Joana?

Joana: Olá, minha querida. Já estava preocupada. Como correu?

Clara: Quase o pior possível.

Joana: Então?

Clara: Ela não nos aceita. Mas, pelo menos, não me rejeitou. Olha, estou fraca. Não comi nada. E preciso de ser abraçada.

Joana: Vou já buscar-te. Estás em casa?

Clara: Estou na Praça de Londres ao pé da Igreja.

Joana: Eu vim às Amoreiras. Chego aí num instante.

Joana demorou cerca de quinze minutos. Clara estava na porta da frente da igreja. Quando a viu, dirigiu-se para o carro e entrou.

Joana: Como estás, amor?

Clara: Com fome e com desejo de ti.

Joana: Mas estás bem?

Clara: Ao pé de ti estou ótima. Conduz e não digas nada. Leva-me contigo.

Joana fez o silêncio requerido. Conduzia, olhando a estrada com muita atenção. Esforçava-se para se mostrar muito concentrada. Muito séria. Clara surpreendia-se, por vezes, com o olhar dela. Sempre inesperado. De facto, de vez em quando, Joana desviava o olhar da estrada e sacudia a alma de Clara com os seus profundos olhos azuis. Não dizia nada. Olhava apenas e voltava de novo a cara para a rua. Para o trânsito que não sentia. Era preciso concentrar-se na estrada. Nos sinais. Agarrava com força o volante. O coração batia-lhe no peito de uma forma inusitada. Não batia forte nem fraco mas doloroso. O sangue assim bombeado espalhava-se pelo corpo de uma forma intermitente. Inundava-a uma sensação de dormência que terminava com choques elétricos na ponta dos dedos. As mãos tremiam. Joana agarrava o volante ainda com mais força. Olhava para o trânsito que não via. O rosto endurecia-lhe a partir dos maxilares.

AZUL - Cap XLV


Cat2007

04.10.16

Mantinham-se no chão com os corpos ligeiramente afastados. As mãos de Madalena tapavam a própria cara. Por entre os dedos, escorria-lhe o líquido salgado. Até aos pulsos. Teresa falou baixinho.

Teresa: Desculpa.

Madalena: Desculpo o quê?

Parou um segundo para levantar a voz enquanto se erguia. Ficou sentada. As lágrimas agora percorriam livremente a face, o pescoço e o peito. Encarou Teresa.

Madalena: Deves estar a falar da foda que me deste. Mas disso não tens que pedir desculpa. Eu gostei. Como viste. Não sabia que um dia seria violada e que poderia gostar.

Teresa: Não sejas hipócrita. Eu não te violei.

Madalena: Então estás a pedir desculpa de quê?

Teresa: De ter sido um bocadinho bruta. De te ter esbofeteado…

Madalena: E do resto não? Nada mais te perturba.

Teresa: Escuta-me, Madalena. Eu estou muito confusa e desgostosa.

Madalena: Teresa, levanta-te do chão, veste-te e sai, se faz favor.

Teresa: Porquê, meu amor. Eu amo-te. Não me faças isto.

Madalena: Olha, eu vou tomar um duche. Quando sair não te quero ver cá em casa.

Teresa saiu imediatamente. Veio para a rua pensar que não queria voltar a casa e enfrentar a filha. “Não neste estado humilhado”. Era hora do lanche. Foi à Mexicana. Pediu um café e, ironicamente, uma madalena. Comeu e bebeu depressa. Tinha intenção de caminhar a Avenida de Roma toda até ao cruzamento com a Avenida do Brasil. E voltar pelo mesmo caminho até à Alameda.

Era necessário desentorpecer os músculos. Distrair-se da tragédia que lhe acabara de suceder e respirar. Até porque havia Clara. Com Clara não poderia existir um corte na relação. Como acabara de suceder com Madalena. E que já lhe estava a arder tanto. Mas talvez fosse melhor assim. Era preciso lutar pela filha. Como poderia fazer isso, se estivesse envolvida com Madalena? Aliás, com que moral falaria à filha se lhe tivesse que contar que amava Madalena e que queria partilhar a vida com ela? O essencial era que Clara fosse feliz. “Desde que tudo começou com Joana que a minha filha está outa. Quantas vezes terão dormido juntas? Mais do que as vezes que Clara não dormiu em casa. E que foram mais vezes do que aquelas que Teresa sabia. Deixou-me sem qualquer possibilidade de agir”. Clara, pela omissão, impedira-a de assumir o controlo da situação. Sentia-se de novo furiosa. O que falhara? Afinal chegava à conclusão que a filha não confiava nela. Se Clara lhe tivesse dito alguma coisa antes, podiam ter conversado. “Era possível evitar tanta coisa. Mas não. Hoje atira-me para cima o facto consumado. Isto não é honestidade.”. A raiva levava-a consumir o oxigénio mais rapidamente. A casa passo que dava, sentia-se ofegante. “Agora é tão mais complicado protege-la do sofrimento que ai vem. Porque razão a minha filha há-de passar por uma coisa horrível destas? A culpa é da Joana. Ela veio dos braços da Madalena para alterar as regras do jogo. Que nojo! Num passo de sedução aprendida, a Joana modificou a Clara. Raios! Pensava que a Clara fosse mais forte. Ensinei-a a pensar pela cabeça dela. Como pôde falhar assim?”. Era este o pensamento contorcido de Teresa. E assim virou a Avenida de Roma para trás. Até à Alameda.

AZUL - CAP XLIV


Cat2007

03.10.16

Teresa saiu de casa. Tinha urgência em falar com Madalena.

Madalena: Querida, então? Contaste-lhe?

Teresa: Não. Tive antes uma surpresa. Ela anda com a Joana, como eu temia. Confessou-me tudo.

Madalena: Ela contou-te isso? A que propósito?

Teresa: A que propósito? Com o mesmo propósito que eu lhe ia contar. Para se assumir. Só que eu não lhe contei nada. Não pude.

Madalena: Não pudeste? Mas que melhor oportunidade tu podias ter?

Teresa ignorou o que Madalena disse.

Teresa: Diz-me, Madalena, o que sabes tu desta história? A Joana não te contou nada?

Madalena: Teresa, o que importa isso?

Teresa: Importa tudo. Importa que tu não me tenhas mentido.

Madalena: Lésbica, Teresa. A tua filha é lésbica como tu és. É o que sei, Teresa.

Teresa não se conteve. Levantou a mão e deu-lhe uma estrondosa bofetada na cara. Depois gritou-lhe.

Teresa: Estás proibida de me provocar mais. Quero que te cales já com essas merdas. Traidora!

Madalena: Quero lá saber o que tu queres. Mulher estúpida.

Madalena tinha uma mão na face que ardia.

Madalena: Tu não te assumiste perante a tua filha porque não quiseste. E agora que ela te contou estás cada vez mais transtornada. Sua homofóbica ridícula! Tu não amas ninguém. De mim o que tu queres é sexo. É tudo o que tu queres.

Teresa agarrou-a pelos dois braços e encostou-a à parede, metendo-lhe as pernas entre as pernas. Ficaram com as bocas muito próximas. Madalena virou a cara para o lado.

Madalena: Deixa-me, idiota.

Teresa empurrou-a mais contra a parede pela zona do ventre.

Teresa: Não deixo. Porque é disto que tu gostas. É só disto que tu gostas. Tu também não amas ninguém. Basta ver a tua história de vida. Até a desgraçada daquela miúda Joana tu andaste a comer.

Madalena: Larga-me!

Teresa encostou o corpo todo. E forçou o beijo. Madalena não cedeu. Teresa mordeu-lhe o pescoço. Madalena gemeu. Teresa voltou a morder. E a pressionar-lhe o ventre. Madalena virou a cara desfeita para ela e ofereceu-lhe a boca trémula. Teresa largou-lhe os braços e agarrou-lhe a cara com as duas mãos. As línguas misturaram-se. Ali de pé, foram-se livrando das roupas inoportunas. Teresa entrou dentro dela com pressa. Tomou-a com fúria. E insistiu vezes infindas. Até ela se partir. Teresa sentiu-a desfalecer. A cair. Segurou-a e foi caindo com ela muito devagar. Ficaram no chão deitadas juntas. Em silêncio.

AZUL - Cap XLIII


Cat2007

03.10.16

Teresa indignou-se ainda mais.

Teresa: Tu não tens noção. Uma relação perfeita. Já agora para a vida. Não? Isso não existe nem com um homem.

Clara: Não se trata do género. Trata-se de uma mulher porque aconteceu assim e…

Teresa não ouvia.

Teresa: Pensas então que podes escolher ter uma namorada e que tudo vai correr muito bem. Já viste como é o mundo. Achas realmente que te vão deixar viver assim? Que serás respeitada no emprego (quando tiveres um), nas relações sociais… Ou vais andar escondida como os ratos?

Clara: Mãe, eu amo a Joana. E não deixarei de ser coerente com este sentimento perante a vida. As coisas hão-de resolver-se à medida que forem surgindo.

Teresa: Amor. Que amor? Tens a lata de falar de amor quando te referes a um espécie de sentimento que põe em cheque a tua felicidade? Tu és uma criança, Clara. Não sabes o que é o amor.

Fez uma pausa e depois prossegui em tom calmo e sério.

Teresa: Olha, filha, tens que arranjar coragem para fazer o que é devido. E eu estou aqui para te ajudar.

Clara: E o que é devido, mãe?

Teresa: Esquecer tudo. Pôr a Joana para trás das costas. E viver daqui para a frente com normalidade.

Clara riu-se contidamente.

Clara: A normalidade. Mão, o que é normal é o que me faz sentir bem. Mas deixe-me que lhe diga que no princípio pensei exatamente assim. E até acreditei brevemente nessas coisas. O problema está no sentido que as coisas não fazem. Se a questão fosse apenas a de pôr a cabeça a pensar, quase tudo se resolveria. Mas o facto é que me bastou apenas vê-la para tudo mudar. Para, do confronto de umas realidades com outras, os meus raciocínios ficassem esmagados pela sua vacuidade imanente.

Teresa continuava a tentar não ouvir o que a filha dizia. Porque sobretudo não queria ver Clara como outra filha. Aquela que certamente não desejava e liminarmente rejeitava. Porque aquela filha punha-a em causa. A si própria e lhe exaltava a maldita culpa. Da culpa Teresa pensou que conseguiria livrar-se sempre. Sacrificara toda a sua vida para se livrar da culpa.

Teresa: vens falar-me de amor. Do amor entre duas meninas.

Teresa falava com raiva.

Clara: Mãe, há aqui qualquer coisa que me escapa. Afinal o que é que eu lhe fiz?

Teresa: Olha, Clara, não vale a pena continuarmos a argumentar uma com a outra.

Teresa não tinha recursos emocionais para dar suporte à posição fundamental que defendia. E isto sucedia pela primeira vez na vida das duas.

Teresa: Eu não consigo patrocinar esta estória lamentável.

Clara: Quer dizer que…

Teresa: Quer dizer que não vale a pena. Não quero que me voltes a falar dessa Joana. Daqui para a frente é com se ela não existisse. Tu fazes o que quiseres. Mas não tens o meu apoio nem solidariedade. E vais poupar-me a conversas.

Foi desta forma que Teresa rematou a conversa. Logo em seguida, mexeu os pés. Ia retirar-se. Porém, parou porque lhe ocorreu algo. Clara olhou para ela com alguma expetativa. Mas Teresa não disse nada, afinal. Saiu da sala decidida. Levava a cabeça bem levantada em conformidade com o seu habitual desenho de altivez. Tudo completamente desadequado à situação.

Clara segui-a com o olhar. “Mas rejeitar, não me rejeitou”.

AZUL - Cap XLII


Cat2007

02.10.16

Teresa: Penso que é tudo muito mau.

Teresa calou-se por uns segundos para acrescentar em seguida:

Teresa: Devias ter-me dito o que sentias antes de acontecer. Assim, o que tu fizeste foi uma traição.

Clara: Como queria que eu lhe contasse coisas que eu própria não compreendia? Depois, quando as percebi, não queria falar sobre elas porque sofria. Esperei que passasse. Eu não queria que nada acontecesse. Tomei decisões. Achei que nada aconteceria. O que havia eu de lhe contar? Queria que fosse falar-lhe de fantasmas?

Teresa rodou os calcanhares, virando-lhe as costas, Numa atitude que denotava zanga e desapontamento. Na verdade, porém, o artifício que afastara Madalena já se dissipara. E agora Teresa atuava com uma espécie de convicção forjada. Tentava concentrar-se no seu papel de mãe, procurando esquecer-se das “debilidades” da sua própria personalidade. Aquelas que já não aceitava de novo e que só compreendia pela força dos sentimentos. Portanto, no confronto com idênticas “debilidades” da filha, Teresa estava preparada para compreender somente a sua pessoa.

Teresa: Fantasmas. Clara? Como fantasmas se tudo aconteceu? Ela meteu-se contigo. Claro que se meteu. Eu bem disse que ela tinha um ar demasiado maduro. Como é evidente, ela teve outros casos antes de ti. Quando ela se meteu contigo, devias ter-me contado tudo.

Para Teresa o silêncio “ignorante e ingénuo” onde Clara se ficara a movimentar impedira-a de evitar a realização das coisas. No momento presente, já não conseguia pensar mais nada para além de que a filha lhe “devia ter dito”. Para que a oportunidade de abortar os planos de Joana não lhe escapasse.

Clara: Engana-se, mãe. Ela não se atirou a mim. Eu descobri que gostava dela sem que tivéssemos dito nada uma à outra sobre o assunto. E depois, quando a vi ali tão baralhada quanto eu… Aconteceu, mãe. Aconteceu.

Clara parecia atordoada.

Clara: Eu adoro a Joana. E a mãe é a pessoa mais importante da minha vida.

Teresa pensava que a vida a feria cruel e vingativamente. E não compreendia porquê. Só se fosse pelo facto de ter feito sempre tudo bem e de acordo com as regras. Sim. Fizera tudo bem. Não fora certamente a sua conduta impecável que levara Clara áquilo. Teresa abdicara de Madalena durante vinte anos.

Clara: Mãe, não me passa pela cabeça deixar de estar com a Joana. A nossa relação é perfeita.

AZUL - Cap XLI


Cat2007

02.10.16

Teresa fez ecoar um riso que deitou pela garganta fora como se fosse um grito.

Teresa: A tua relação com a Joana? Eu estou completamente incrédula!

Clara: Com o quê, mãe? Para que está a criar esta situação, mãe? A mãe já sabia.

Teresa já não ria. Mas raciocinava mal.

Teresa: Olha Clara, há uma enorme confusão aqui. Muito maior do que imaginas. Seja como for, garanto-te que temia mas não sabia de nada.

Clara sentiu a cabeça a rodopiar.

Teresa: Não te imaginava atreita a semelhantes caprichos.

Teresa sentia-se ultrapassada pela própria vida. Sentia a alma inerte e o espírito cego.

Clara: Caprichos?

“Sexo. Meu Deus! A mãe está a pensar em sexo. Em mim e na Joana a fazer amor.”. Foi tomada imediatamente por recordações do seu próprio corpo nu sobre a cama cheia de odores no quarto de Joana onde, por todos os cantos, tinham sido decalcados ainda há poucas horas os mais prodigiosos prazeres. Prazeres que se viam agora tatuados sobre a sua pele. Escondeu as mãos. Invadia-a um nervosismo profundo. A partir do ventre, começou a formar-se uma emoção crescente que subiu até à garganta na direção da sua boca. Deixou-se cair no sofá, quedando-se horrorizada com o que lhe estava a acontecer. Sentiu urgência em controlar-se, Mas as gargalhadas começaram a sair-lhe pelos olhos em forma de lágrimas. Tinha o rosto desfigurado pelo esforço. Ria e chorava ao mesmo tempo. “Não pode estar a acontecer-me isto”. Tinha cada vez mais vontade de rir. Pregou os olhos no chão e ficou ali. Naquele sofrimento absurdo.

Por seu lado, Teresa segurava no seu rosto empedernido um olhar aparentemente muito sério.

Porém, para Clara, a imobilidade da mãe era um estímulo acrescido para o riso. Que não afrouxava. Ria porque a mãe tinha deixado de ser mãe de uma criança. Clara era agora uma mulher cujo coração estava cheio de espantosas novidades e o corpo vivia no seio de um amor arrebatado onde todo o prazer é possível e concretizado. A sua imagem da filha de Teresa estava desfeita. Porque a mãe tinha os dados e já podia imaginar tudo.

Clara: Desculpe estar a rir-me, mãe. Desculpe.

Entretanto, Teresa ia recuperando. Apesar da tragédia que transportava, o destino apagara Madalena momentaneamente da sua vida. Assim, Teresa sentia que não tinha nada a revelar à filha. Sem confissões a fazer, Teresa mudara-se para um cenário de silêncio totalmente fechado. Deixou de ser possível ver-lhe o rosto. De fora ainda se ouviam os risos e os soluços da filha. Mas foi assim que Teresa pôde fazer com que Clara se sentisse muito só. Presa no fundo de uma gruta escura, vendo-se a rir de coisa nenhuma.

Teresa: Agora que estás mais calma gostava que me contasses o que realmente se passa.

Clara: Já lhe disse, mãe.

Teresa: Tu estás a dar-me factos. Coisas decididas. Não me perguntas o que eu penso?

Clara: Diga-me o que pensa, mãe.

LOUCAMENTE


Cat2007

01.10.16

Ontem à noite fui ao cinema ver "Loucamente" (La Pazza Gioia).

 

 

Um filme italiano extraordinário. Trata-se de uma comédia dramática. Conta sobre duas mulheres que se encontram num casa muito especial. Porque nela habitam e são tratadas pessoas com problemas emocionais graves e doentes mentais. Uma delas é bipolar de elevado grau. E anda eufórica. A outra tem uma depressão gravíssima desde infância. Está completamente destruída

 

Das coisas que me tocaram neste filme, gostava de salientar duas. A primeira é a amizade. Duas pessoas perfeitamente fora do mundo real (e a quem todas as pessoas do lado de cá abandonaram) conseguem estabelecer uma relação de afeto muito mais efetiva que a maioria das amizades que vivem por aí. Tinha tudo. Diálogo, solidariedade, lealdade, sacrifício pelo outro. Nesta relação elas crescem ao ponto de admitirem que não pertencem ao mundo de toda a gente. Pelo menos, para já, não.

 

A segunda coisa que me tocou foi um filho. A extremamente deprimida tinha um filho que foi dado para adoção. E este era mais um dado que a empurrava para baixo. Porque amava a sua criança fervorosamente. Era, aliás, o filho que a ligava a este mundo.  

 

Vale a pena ir ao cinema ver como se apresenta o amor e a amizade.

 

Não vou dizer mais nada. Só aconselhar a ver quem não viu. Está no El Corte Inglés.

AZUL - Cap XL


Cat2007

01.10.16

Quando ouviu a chave na porta, Teresa levantou-se muito depressa pela força de um impulso. Imaginou antes que Clara estava em casa. E surpreendeu-se por ela ter também passado a noite fora. Porquê? E onde teria ficado? “Agora não importa”. Clara apareceu. Viu a figura da filha completar-se diante dos seus olhos e teve a impressão que os fenómenos se verificavam com extrema lentidão. Não sabia bem por onde começar. Foi longo o tempo em que foi usada pelo seu próprio espírito torturado. Não se via pronta para contar à filha sobre uma parte da sua vida que ela não conhecia. A parte não resolvida da sua existência. O que ia comunicar a Clara era um dado inalterável. Porque fundamental. Um elemento da estrutura da sua personalidade que, na sua ainda torpe perspetiva, a pintava por completo, conferindo-lhe uma tonalidade doentia. Teresa, sem, porém, o aceitar plenamente, assumira finalmente que era “Lésbica”. No entanto, Teresa não aceitava que gostava de mulheres. Porque isso não era verdade. Teresa amava uma mulher. Nunca sentira nada por outra que não fosse aquela. Madalena. Com quem praticava todos os atos inerentes ao amor. O que lhe dava um prazer extasiado. Não poderia renunciar mais a tal prática. E por isso também não podia esconder-se mais. Sobretudo da filha. Tudo isto tinha a ver com a verdade. Dizer sempre a verdade, como a mãe Amélia lhe ensina. Lembrava-se que foi porque não disse a verdade à mãe que a sua vida mudara tanto. Nunca chegou a conversar com ela sobre a verdade de quem era. Embora a mãe lhe tivesse dito um dia mais tarde, quando Teresa já estava casada, que a verdade mais importante é aquela que devemos a nós próprios. Só aí Teresa compreendeu que Amélia a reconhecia e amava como era. Que tinha pena que a filha se tivesse casado. Com exceção da criança maravilhosa que nascera. Mas aí já era demasiado tarde para ela e para Madalena. E sendo verdadeira consigo própria, Teresa reconhecia finalmente que a sua homofobia era sua. Nada tinha a ver com a mãe Amélia. Tinha-a adquirido pela adaptação da sua personalidade ao mundo. Porque Teresa, que foi criada como se fosse um ser especial e mágico, andou a imaginar que era perfeita. Aqui Amélia tinha culpas. Muitas culpas. Ainda agora, no momento em que ali estava diante da filha para lhe contar tudo, Teresa sentia que ser lésbica era entrar no espírito de uma pessoa que se opunha à sua ainda atual imagem de si própria. Por isto também, se via pouco segura e por isso um tanto incerta sobre as suas decisões e atos subsequentes. Era, porém, certo que Teresa imaginava a verdade. Não a vendo, acreditava nela com um fulgor religioso, Tinha fé na verdade, deixando-se guiar por ela em submissão plena. A verdade conferia-lhe a força e a convicção com que enfrentava a vida. A verdade não era a verdade. Era a verdade de Teresa. Absolutamente subjetiva. E foi assim que, durante os vinte anos de vida de Clara, onde jamais se aproximou sequer de uma mulher, Teresa viveu na mais pura verdade. Agora os últimos dias de angústias misturadas com o mais profundo prazer e amor, empurravam-na para o plano intolerável da mentira. Daqui apenas poderia sair se contasse tudo à filha.

Começou, por falta de uma boa ideia, a caminhar num lento, firme e pesado vai e vem. Mesmo em frente dela. Como se estivesse a prepara-se para dizer algo muito bem elaborado, Enquanto as ideias necessárias lhe fugiam velozmente do espírito. Clara, em silêncio, olhava para o movimento grave da mãe com uma expetativa dolorosa. Perfeitamente convencida pela simulação.

A certa altura, Teresa deixou de poder suportar aquela situação. O espirito turvo manietava-lhe o cérebro já exausto. Por isso começou a falar com as primeiras palavras que lhe saíram da boca.

Teresa: Passaste a noite fora e não me avisaste. Posso saber onde?

Clara: Bom dia, mãe. Não quis ficar aqui sem si. E a mãe anda tão embrenhada no seu novo romance, que achei que não valia a pena avisar.

Teresa: Tens sempre que avisar. Como eu faço contigo, aliás. Esta casa tem regras, menina. Além de que, nenhum romance que exista vai alterar a nossa relação e as regras que a regem. Onde dormiste?

Clara: Em casa da Joana.

Teresa sentiu o peito comprimir-se um pouco.

Teresa: Como assim em casa da Joana?

Clara: Porque não em casa da Joana?

Teresa tinha um propósito para aquela conversa. Não era oportuno estar a querer agora apurar junto da filha a razão pela qual dormira em casa da amiga lésbica. “Se bem que isto é muito estranho”. Mas deixaria essa conversa para outra ocasião. Agora importava o que importava. Assim, em vez de a inquirir, aproveitou a deixa.

Teresa: Sabes, eu não me esqueci de como ficaste incomodada das vezes que te questionei em relação à Joana. Chegaste a chorar. Creio que imagino porquê.

Baixou a cabeça, franzindo a testa.

Teresa: Penso que sei também as razões que te têm levado a evitar tocar mais nesse assunto.

Clara apertou as mãos com força.

Teresa: Não sei como chegaste lá. Mas parece-me que chegaste. Enfim, eu odeio a mentira, Clara, tu sabes.

Teresa sentia a tensão na garganta quando falava. Doía-lhe. Como lhe doía o peito todo até às costas.

Clara ficou aflita. "Eu bem dizia que ela sabia. Era tudo uma questão de tempo. E agora. Como vai ser?"

Clara: Eu sei mãe. Mas saiba que a verdade nem sempre pode ser pronta. A mãe sabe. Quem tem de a proferir quantas vezes não a domina. Quer dizer, se quem tem que dizer a verdade não a conhece toda, como a pode revelar? Percebe onde tento chegar, mãe?

Teresa sobressaltou-se. O que Clara acabava de dizer revelava um inesperado conhecimento dos factos. “A Joana contou à Clara que eu ando com a Madalena. Eu já devia estar à espera disto. E agora?”.

A réstia de autodomínio com que começara a falar dissipava-se agora. Estava trémula. Era necessário abrir rapidamente aquela conversa.

Teresa: É um pouco assim é. De qualquer modo, neste caso, não é só isso. Neste caso, a verdade não foi dita em função do cometimento de um erro grave. É sobre este erro que eu quero falar-te.

Clara: Que erro, mãe?

Teresa: O erro de uma má escolha. A opção por um determinado tipo de vida.

Clara: A Joana não é nenhum erro na minha vida, mãe.

Teresa: Desculpa… a Joana?

Teresa não a alcançara de imediato.

Teresa: Eu não estou a dizer que a Joana está enganada. Antes pelo contrário.

Clara: Enganada em quê, mãe? A Joana não é responsável por nada.

Teresa: Responsável?

Ficaram em silêncio. Porque Clara já tinha dito o bastante. Teresa vislumbrou, assim, um clarão de luz ao longe que se aproximava rapidamente dela. Em brave tudo se iria tornar tão claro que a iria cegar. Antes do impacto inevitável com semelhante luz, Teresa teve oportunidade de ver um pequeníssimo filme entre Clara e Joana onde se viam numa fração de segundo todos os sons e imagens das duas que já tinha visto.

Teresa: Não é um erro? Queres dizer…

Clara: Não é um erro porque existe um sentimento fortíssimo entre nós, mãe. Não imagina que eu me envolveria com uma mulher de um modo leviano. E…

AZUL - CAP XXXIX


Cat2007

01.10.16

Clara aproveitou a ausência da mãe naquela noite para ficar com Joana.

Clara: Amanhã tenho que sair cedo daqui. Quero chegar a casa entes dela. Já decidi. É amanhã que lhe vou contar de nós.

Joana: Tem mesmo que ser?

Clara: Tem, amor. Já falámos sobre isso.

Joana: Sim.

Joana sentiu medo. “E se eu lhe contasse que é a mãe dela que anda com a Madalena, não seria melhor? Tirava-lhe este peso todo de cima. E ela já poderia ir ter com a mãe mais tranquila”.

Clara: Onde estás?

Joana: O quê?

Clara: Parece que está ausente. O que se passa? Já não gostas de mim?

Joana: Que parvinha.

Clara: É só para te ouvir dizer que gostas.

Joana: Gosto, não. Amo-te. Amo-te tanto que estou muito preocupada contigo. Não sei o que vai suceder-te amanhã.

Clara: O que vai suceder? A minha mãe vai entrar em choque. Eu sei que ela é homofóbica. Fui reparando nisso ao longo da vida. Mas depois há-de passar-lhe. O que eu não posso é deixar de lhe contar a verdade, já te disse.

Joana: Olha que não sei, amor.

Clara: Querida, chamaste-me aqui para falar muito?

Joana: Não, anjo.

Clara: Então, vem.

Clara acabara de acordar do sonho daquele corpo nu. Que se estendia ali mesmo atrás de si. Não precisava de olhar para o ver. Tinha-o totalmente colado à pele. Entre as pernas tinha pedaços enrolados de lençol branco. Exibia as costas nuas. Estava sentada assim naquela cama cheia de humidades e odores. Ao ritmo acelerado com que o tempo lhes escorregava das mãos, em breve estariam cercadas pela madrugada escura. Clara projetou o pensamento na madrugada para se entristecer. É fácil fazer subir a angústia no meio da madrugada. Por ser nela que correm as horas mais silenciosas e mais obscuras. O espírito como que se afunda entre elas. Mas, na verdade, Clara criava um frágil artifício. Tinha a alma demasiado iluminada para se afligir com a escuridão profunda daquelas horas da noite. O que realmente não queria era pensar que depois da madrugada seria manhã. Sempre que se via junto ao corpo exausto de Joana sobre a cama, perturbava-se muitíssimo com a chegada da manhã. Com o sol de inverno. Não desejava que a manhã chegasse. Não queria sair do corpo dela.

Clara: Eu não quero a manhã.

Joana: Eu procuro não pensar nisso. Quando faço amor contigo, finjo que a seguir à madrugada é noite clara.

Clara: Eu sinto que tu também não queres ver o sol amanhã.

Joana: Não. Mas também não quero falar nisso. As coisas dolorosas ferem mais quando se fala delas. Parece que se materializam com as palavras.

Logo de manhã, o sol já cegava. O céu do dia apresentava-se luminoso em tons de amarelo. Assim cheio de energia fundamental. Clara não se lembrava já que ontem quisera que o sol não acordasse. Agora pensava que, antes pelo contrário, em como aquela luz era vital. E inspirava profundamente a luz solar. E expirava todo o brilho da manhã pelos olhos. Estes impulsos de vida reanimavam-lhe os músculos e suavizavam-lhe a face. A boca entreabria-se num leve sorriso que parecia inalterável. Olhou para ela. Joana. Loura. “Linda!”. O sol. Sentiu-se encandear quando ela lhe raiou de surpresa com aquele olhar azul do céu. Teve que fechar os olhos. Milhões de pontos luminosos romperam aqui e ali na sua momentânea escuridão. Estavam à porta de casa de Clara.

Joana: Adoro-te.

Clara: E eu a ti.

Joana: Boa sorte, anjo.

Clara saiu do carro. Joana esperou que ela entrasse no prédio. Depois arrancou.

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