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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

POBREZA


Cat2007

02.11.16

Resultado de imagem para ham on rye

O instinto de sobrevivência nas crianças está sempre a postos. Porque são demasiado frágeis. Precisam de quem as proteja. Há uma consciência do significado do “estar por baixo” em cada criança. Nestas condições, aproximam-se dos que lhes parecem fortes e desprezam os que lhes soam a fracos.

 

Henry é um miúdo imigrante para os EUA (naturalmente) pobre de um bairro (obviamente) pobre. Frequenta pois uma escola de miúdos como ele. Pobres. Muitos também produtos do vómito de países europeus caídos em desgraça na altura (da Primeira e Segunda Gerras Mundiais). As outras crianças são americanos da gema igualmente pobres. Na verdade, estes por seu lado são como crostas caídas das feridas saradas da Europa colonialista. Pobres americanos não emigrantes da época. Tão pobres como milhões de americanos são hoje em dia. E serão. Na maior potência económica, tecnológica e militar do mundo. Um mundo onde os pobres existem por todo lado. E são em número assombroso.

 

Pois. A Terra é um planeta de pobres. Não obstante, parece que todos os pobres se recusam a aceitar este facto. E nenhum rico o reconhece.

 

 Henry e o resto das crianças referidas eram espancados quase diariamente nas suas próprias casas pelos seus próprios pais. Adultos frustrados que, por designadamente lhes terem roubado algures na vida os sonhos de criança, esmagavam sem razão e sem desígnio aparentes o corpo e a alma dos seus próprios filhos pequenos. 

 

Henry não levava guarda-chuva para a escola. “Havia quase sempre porrada. Os professores pareciam não saber de nada. E havia sempre problemas quando chovia. Qualquer rapaz que trouxesse um guarda-chuva para a escola ou usasse uma gabardine era logo posto de parte. A maior parte dos pais era demasiado pobre para comprar essas coisas. E quando o faziam, nós escondíamo-las nos arbustos. Se alguém era visto com um guarda-chuva ou com uma gabardine era logo considerado um mariquinhas pé-de-salsa. Levavam porrada depois das aulas”.

 

Pois. A pobreza é difícil de engolir e não é bonita de se ver. A consciência do ser pobre é pessoal e envergonhada. O esforço vai todo no sentido da inconsciência. Se fosse possível não comparar, se não existissem ricos, esta espécie de inveja sem esperança talvez nem chegasse a doer. Os pobres têm nojo dos pobres. E, quando ainda não chegaram ao ponto em que já estão passados da cabeça e desatam a fazer (inevitáveis?) disparates, têm muita consideração pelos ricos. Subserviente e invejosa, como é natural.

 

Charles Bukowsky. O escritor americano filho de imigrantes alemães nascido no tempo de uma Alemanha desfeita que vomitava sem opção gente para o “Novo Mundo”. É a vida. “Ham on Rye”, o livro de onde venho de citar. É de ler. Apanha-se pelo menos uma náusea no mínimo enriquecedora. Um outro modo de ficar menos pobre.

 

AZUL - Cap LXXX


Cat2007

02.11.16

A noite rolou sobre a manhã. Teresa ainda adormentada ouviu como se fosse ao longe os toques na porta. Ainda um tanto confusa, ponderou que teria de levantar-se para ir à sala saber o que Clara desejava. No entanto, não teve tempo para se mexer sequer. Escutou o tom jovial da filha do lado de fora.

Clara: Mãe, posso abrir?

Teresa: Calma.

Teresa respondeu ainda soporosa. Foi por isso que não pôde refletir apropriadamente sobre aquela novidade nas rotinas da Alameda. Levantou-se devagar. Vestiu o roupão e recolheu a garrafa de vinho e os copos. Tapou Madalena. E foi à porta.

Teresa: Filha, estás a quebrar as regras.

Clara: Sim. Mas não entrei no quarto, mãe. Apenas queria poupá-la a ter que ir lá dento. Creio que estava a dormir.

Teresa: Sim, filha, estava.

Clara: De qualquer maneira, não queria sair sem a avisar. Eu e a Joana vamos à praia. Voltamos no fim do dia. Importa-se que ela volte comigo, mãe?

Teresa: Oh, querida! Não me importo nada. Faço questão nisso, aliás. Prefiro que estejas aqui em nossa casa.

Clara: E a mãe e a Madalena, vão ficar em casa?

Teresa: Não. Vamos passear ao Chiado. Almoçar, fazer compras. Essas coisas.

Clara: E ela vai estar cá logo?

Teresa: Claro que sim.

Clara: Que bom mãe.

Sorriu abertamente e beijou Teresa nas faces.

Clara: Até logo, mãe.

Teresa: Até logo, filha.

Teresa voltou para dentro do quarto. Madalena ainda dormia. Aproximou-se dela e sentou-se ao seu lado na cama. Afagou-lhe os cabelos castanhos sedosos. Depois passou-lhe devagar com as pontas dos dedos pelas faces. Pelos olhos. E pela boca. Ela mexeu-se um pouco. E foi acordando lentamente. Abriu os olhos e beijou os dedos de Teresa.

Madalena: Bom dia, meu amor.

Sorriu-lhe.

Madalena: o que estás a fazer já levantada e vestida? Não estás cansada? Sou uma incompetente.

Teresa: Não estou vestida, querida. Estou nua. Pus apenas o roupão para ir à porta falara com a Clara.

Madalena estava já totalmente acordada. Espraiou-se na cama. Esticou os braços e as belas pernas que apareciam por partes por entre os pedaços de lençol enrodilhados.

Madalena: Foste à porta falar com a Clara? Mas não era suposto falares-lhe na sala?

Teresa: Sim. Mas ela quebrou a regra de propósito. E eu alinhei nisso. Porque concordo com ela. Essa regra é absurda. Parece que só existe para ser quebrada. Por duas vezes fomos apanhadas nesta casa a fazer amor. Porque dessas duas vezes a norma não foi respeitada.

Madalena: Talvez porque nunca fosse bem entendida. Quando as pessoas não compreendem as regras, dificilmente as interiorizam. Se as respeitam é porque automatizaram as condutas. Ora, isto é meio caminho andado para a violação das mesmas regras. Mas afinal por que razão a tua mãe instituiu uma coisa destas?

Teresa: Ela quis ensinar-me que as pessoas são mundos individuais e que, por isso, devem ter um espaço que é só seu. Foi um processo para me ajudar a alcançar a minha individualidade. E eu usei o mesmo método com a Clara. O que falhou aqui foi o tempo. Depois de eu ser crescida, não se justificava manter a norma. Assim, como eu já a devia ter abolido há muito tempo com a minha filha. Quando fomos surpreendidas pela minha mãe, eu já tinha vinte anos, como sabes. Se a regra tivesse caducado, ela teria batido à porta e perguntado se podia entrar, como a Clara fez há pouco. O mesmo sucederia com a minha filha quando nos apanhou.

Madalena: Graças a Deus, que essa regra foi para o lixo, querida linda. Não sei porquê mas isto parecia ter aqui um bocadinho ambiente de quartel. E tu parecias um sargento.

Teresa: Madalena, meu amor, tu vê lá as coisas que me chamas. Não comeces a provocar logo assim ao acordar. Porque eu posso fazer de sargento para ti.

Madalena: E isso seria má ideia?

Teresa: Eu sei que gostavas, querida. Mas agora vou buscar-nos o pequeno-almoço.

Teresa voltou com sumo de laranja, café e biscoitos de chocolate.

Teresa: Desculpa a pobreza, amor mas foi o mais rápido que consegui arranjar.

Madalena: Biscoitos de chocolate, Teresa? E o sacrifício que eu ando a fazer no ginásio?

Teresa: Também eu.

Meteu um biscoito na boca e aproximou-se da boca dela. Madalena trincou.

Madalena: Adoro chocolate.

Teresa: Bebe café para acordares, querida. Antes do Chiado. Preciso de ti mais um bocadinho.

Madalena: Então mete-te na cama. O que estás ai a fazer de roupão, sargento?

Teresa despiu-se e deitou-se ao lado dela.

Teresa: Trouxe cigarros.

Madalena: Que bom!

Teresa: Já sabia que ias gostar. Mulher derribada.

Madalena: Tu é que és decadente. Tens vícios.

Teresa: Tenho. Sou viciada nos químicos da tua pele.

Teresa cheirou-lhe o pescoço profusamente. Madalena expulsou um gemido. Teresa colocou-lhe um biscoito em cima do peito e arrancou-lho da pele com uma dentada. Madalena apertou-lhe o rosto com as duas mãos e beijou-a na boca.

Madalena: Tu és uma selvagem, mulher.

Teresa: Sou o que tu me fazes. Só sei fazer amor contigo. Nunca soube com mais ninguém.

Madalena: Nunca tiveste mais ninguém. Os homens não contam.

Teresa: Nem tu tiveste. Tu só andaste a desperdiçar-te.

Madalena: Fiz pela vida.

Teresa: Tarada.

Madalena: Por ti.

Teresa: Destapa as pernas. Quero ver essas belas pernas.

Madalena obedeceu. Teresa apalpou-a. Da ponta dos pés às virilhas. Depois ficou a olhar extasiada para o sexo dela. Madalena meteu-lhe uma mão no queixo e ergueu-lhe a cabeça.

Madalena: Quero olhar para esses belos olhos azuis que me cegam e para essa boca perfeita que me escandaliza.

Depois Madalena empurrou a cabeça dela para baixo. Teresa deixou-se levar. Entrou com a língua dentro dela. Depois saiu de dentro dela e tragou-a inteira com a boca toda. Como se quisesse aspirar-lhe a alma por ali. Tirar-lhe a vida. Numa atitude suicida, Madalena deixava-se ir, empurrando-se sempre mais contra ela. Teresa apertou-lhe as coxas com os dedos. Madalena agarrou-lhe os cabelos com as mãos. E foi aqui que se deu a explosão que desmanchou o corpo de Madalena. Quando Teresa subiu para a beijar, ela chorava copiosamente.

Teresa: Isso é tudo amor?

Madalena: Sim. Isto é tudo amor. Não te quero perder nunca mais. Sou tua.

Teresa: E eu sou tua, meu amor.

Madalena: Depois de eu parar de chorar e de tu me beijares e abraçares mil vezes, quero ir para o Chiado contigo.

Teresa abraçou-a, colando-se a ela de corpo inteiro. Beijou-a também. Tudo como ela desejava e Teresa queria.

Teresa: Sim. Vamos para o Chiado, meu amor.

 

                                                                         FIM

 

 

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