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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

NÓS E OS OUTROS


Cat2007

05.11.16

 

Somos todos muito bons. Mas tão estúpidos que costumamos secretamente “comparar o nosso interior com o exterior dos outros”. As aspas aqui indicam obviamente que não estou a dizer coisas originais. Foi um amigo que falou nisto no outro dia. Trocávamos ideias sobre autoestima. “Pois, eu visito aqueles sites porno. E às vezes fico lá horas”, dizia ele. E eu: “ o que tem isso?”. E ele: “Sinto-me mal. O vício, sabes?” E eu: “Não vejo onde está o problema. Qualquer um se vicia numa coisa dessas. Por definição é assim”. E ele: “Mas há tipos, amigos meus, que lá vão e não ficam tão obcecados.” E eu: “Quem te disse?”. E ele ficou calado. Acrescentei então: “Esses gajos não te contam o que tu me estás a contar agora. Talvez se sintam tão mal ou pior do que tu. Mas como se riem quando falam do caso, imaginas que estão cool. Tu também lhes deves parecer cool. Porque não lhes dizes como te sentes. Também te ris para eles, claro”. E foi aqui que ele soltou a frase. “Pois. Comparamos sempre o nosso interior com o exterior dos outros”. Ora nem mais. Somos tão bons que mostramos o nosso exterior no nosso melhor. Que é para ver se os outros se sentem menos do que nós quando secretamente o comparam com o interior deles. Assim, podemos fingir todos que somos todos muito bons.

 

O processo descrito cansa-me. Estou farta de pessoas impecáveis e bem sucedidas. Como eu. Eu significa toda a gente. Gente que sabe sempre o que diz e faz, dizendo e fazendo sempre as coisas mais acertadas. Cansa-me o brilhantismo e a pertinência. Estou saturada de feitos cheios de qualidade e bom senso.

 

Por outro lado, fico impressionada com a crítica. Enquanto críticos, somos todos muito exigentes. Isto é porque fingimos que somos todos muito bons. A crítica finge que aspira à excelência. Como se fosse um motor para a melhoria das coisas. Porém, no que se repara é que a critica só serve para contrariar. As pessoas e os factos que nos contrariam.

 

Todos somos pessoas banais. E isto é muito bom. Só é má a parte em que não se aceita este facto. Por vezes fazemos coisas boas, mais ou menos ou excelentes. Por vezes temos mérito, pouco mérito, muito mérito ou mérito nenhum. Por vezes estamos cansados e só queremos ir para casa. A genialidade anda sempre acompanhada da estupidez pura. Por outro lado, a estupidez pura às vezes tem rasgos de génio. E isto  serve para qualquer um de nós, que temos mais probabilidades de fazer coisas estúpidas do que brilhantes e que, em geral, somos apenas produtores banais. Acredito na excelência dentro de cada um de nós. Se não andarmos a fugir da nossa autenticidade, ela acabará por surgir aqui e ali. Nem sempre estúpidos. Nem sempre excelentes. Nem sempre banais. Mas nunca melhores do que os outros em termos globais. Por muito que uma verdade destas doa a alguns, muitos, de nós.

 

Acresce que estamos sempre a qualificar e a agrupar as coisas e os factos em conjuntos e grupos. Quem não cabe num é metido ou mete-se noutro. Quem não encaixa em nenhum é metido no grupo que está contra ou é desqualificado por não ser suficientemente mau e vai para este grupo.

 

Há pessoas desonestas que por vezes não o são. Há pessoas honestas que roubam no supermercado. Fico contente com as duas coisas. Nem todas as piadas saiem bem. Nem todos os discursos são perfeitos. Há textos vazios. Cometem-se erros graves com influência nos destinos nacionais. Há muitas coisas boas e más produzidas por todos nós. Mas sobretudo, não há ideologia nenhuma. Se as pessoas tiverem valores e fizerem o melhor que podem, já não é nada mau. E o cansaço afecta toda a gente. Porque é que não podemos simplesmente fazer merda e pronto? É que fazemos. Todos.

 

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