PARECER DIFERENTE
Tita
02.06.17
Quando era uma liceal era, para além disso (para além de ser uma adolescente a frequentar o liceu), muito sensível à diferença. Não queria nada ser diferente. Como nenhum adolescente quer. Nisso eu não era diferente de ninguém. Os adolescentes querem ser iguais entre si. Ou uns iguais aos outros. E querem ser diferentes dos pais. Portanto, os adolescentes querem integrar-se, tendo verdadeiro horror à diferença.
Lembro-me de alguns liceais diferentes lá no meu liceu (gosto de dizer liceu, e não escola secundária. Senão eu era uma secundarial , e não uma liceal). Uns porque eram obesos. Outros porque tinham óculos. Uns porque eram amaricados. Outros porque eram demasiado feios. Uns porque fumavam charros. Outros porque ficavam grávidas. Uns porque tinham um aspecto freak-pobre. Outros porque eram maria-rapaz. Uns porque eram "marrões". Outros porque não jogavam nada. Uns porque... Outros porque... Os demais, que eram a maioria, não tinham destes porque. Eu era assim. Igual a todos para não ser diferente porque. Porque se eu tivesse algum porque que se notasse, os demais se afastariam de mim porque.
Os adolescentes não suportam que se afastem deles. Os seus pares. Os outros adolescentes. Porque os outros são todo o seu mundo de invenções. Na adolescência todos imaginam que cortaram com os pais. A sua família é o mundo. O mundo dos adolescentes. Ninguém quer ser expelido desta atmosfera. O mundo dos adolescentes é o único mundo que existe para os adolescentes. É, portanto, um milagre sobreviver à fase da adolescência.
Em boa verdade, a diferença existe para todos. Cada pessoa é diferente. Malgrado o esforço de integração. Somos todos diferentes uns dos outros. E isto não tem que ser uma coisa boa ou uma coisa má. É um facto. Um facto que não significa nada para além do significado que tem.
As pessoas tendem a confundir diferença com especialidade. Especialidade para bom. Não especialidade para mau. No entanto, as maiores especialidades são, talvez, de índole culinária. A especialidade está muito mais nos resultados dos actos do que na essência das pessoas. A especialidade só pode ser identificada numa produção ou, então, ser uma ideia relativa. Uma ideia relativa ou a ideia que alguém faz de alguém. O meu vulgar pai é muito especial para mim, por exemplo. E não há forma de eu ver nele uma pessoa vulgar. Ele é especial. E, talvez, só eu é que veja a coisa assim. A especialidade não infecta, pois, toda a personalidade de uma pessoa, por um lado, e pode não existir para além dos olhos amáveis de alguém, por outro. Ou seja, objectivamente, não existem pessoas especiais. Só produtos ou sentimentos.