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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

O TRAUMA DA ESPERA


Cat2007

27.04.20

 

Desenhos de Kafka | Leitura de Autores Modernos

 

Na maior parte dos casos, a solidão fundamenta-se na ausência de liberdade.

Lembro-me de, quando andava na escola secundária, se chegava mais cedo, começava a angustiar um bocadinho. Depois, logo que aparecia o primeiro colega, passava o malestar e ficava tomada por aquela espécie de energia que anima imenso as pessoas aliviadas. Naturalmente, não gostava deste processo. E enquanto esperava, inevitavelmente pensava nele. No processo. “Mas porque raio me sinto sempre assim tão mal quando estou à espera”? Na altura, não era propriamente uma pessoa introspetiva. O que, dada a idade, seria, por razões óbvias, bom sinal. Bem, mas como ia dizendo, não era muito introspetiva na altura, pelo que nunca chegava a qualquer conclusão sobre a angústia de estar à espera. Julgava-me muito impaciente. E era só.

Mas, na verdade, tudo tinha a ver com a carrinha do senhor Henrique, o motorista que nos levava para o infantário. Havia várias crianças e diferentes infantários. Calhou-me não estar no meu com qualquer criança da minha carrinha. E o senhor Henrique fazia a volta. Eu era a última a ser depositada de manhã. Assim como era a última a ser recolhida ao fim da tarde. Se era desagradável ser depositada, era um alívio ser recolhida. Mas o senhor Henrique demorava-se. E enquanto ele não chegava, eu via as outras crianças saírem. Até não restar outra senão eu. Talvez me tenham dito qualquer coisa na brincadeira. As funcionárias. “Se calhar hoje ficas cá a dormir”. Terá sido o bastante. Porque, crente em tudo o que os adultos diziam, passei a angustiar na espera. Todos os dias. E o senhor Henrique nunca vinha mais cedo. Enfim, eu tinha três ou quatro anos e, naqueles momentos em que a minha vida se suspendia, eu sentia-me muito só.

 

A ESTUPIDEZ QUE MAGOA


Cat2007

24.04.20

O padrão normal (e principal) que nos guia na identificação de idosos é a idade. A idade é achada através de uma operação matemática que envolve o ano do nascimento e o ano atual. Porém, na verdade, a idade de cada pessoa é o que a maior parte das outras entende que é. De maneira que, ao que consta, e independentemente do aspeto que possa ter e das “habilidades” que faça, depois de ultrapassar os 70, um individuo torna-se idoso.

Ora, em meu entender, a palavra idoso é absolutamente detestável, apesar das boas (?) intenções supostas. Um dia, se tudo correr dentro da normalidade, vamos ter mais de 70 anos. Haveremos de ser idosos. E como vamos odiar saber isso! Um idoso é um individuo de muita idade. Muita idade! Não com muitos anos de vida, como se canta nos "parabéns a você", note-se. Idade demais, pois. Demais. Porquê? Para quê? Talvez para estar vivo. Artroses demais. Comprimidos demais. Despesa social demais. Demasiada tristeza. Porque ser idoso é ser doente. Então, todos os doentes são idosos. Todos os inúteis são idosos. Porque todos os idosos são inúteis.

Realmente as generalizações sociais são decisões mentais, na generalidade, estúpidas. De um género de estupidez que magoa, faz mal. Esquecem sempre os ângulos concretos da vida. Tenho a certeza de que a grande maioria das pessoas incluídas no escalão etário dos idosos, não o são. Doentes, inúteis ou pobres de espírito. E, ainda que sejam tudo isto, ainda que vivam estas situações, não são idosos. São apenas doentes, inúteis ou pobres de espírito. Embora eu não acredite em pessoas assim. Só, talvez, em doentes. Nunca em pessoas a mais. Com que direito nós declaramos que certas pessoas têm idade demais?

ADOLESCÊNCIA FELIZ


Cat2007

22.04.20

Sapatilhas mulher - grande variedade de Sapatilhas - Entrega ...

 

Como é sabido, por razões essencialmente fundadas em questões hormonais, os adolescentes estão sempre apaixonados. Além disso, como odeiam, rejeitando globalmente os pais, os “teen” têm uma necessidade exacerbada de aceitação. No seio do grupo. Assim, quem não se enquadre, tem de fingir que está enquadrado. Ou seja, quem não se apaixona, inventa. Era o meu caso. Para alem do que fazia nas aulas de educação física, ainda praticava 14 horas de desporto por semana. De maneira que me apresentava sempre mais ou menos equilibrada (do ponto de vista hormonal). Portanto, como ia dizendo, eu inventava. Então, no início de cada ano letivo, escolhia o rapaz de quem haveria de gostar, preferindo o que, por esta ou aquela razão, me parecesse menos acessível. Depois, era só contar discretamente a uma ou outra colega - digo discretamente porque não queria que parecesse mentira ou estranho. Claro que nunca concretizava nada, passando por mal-amada. Mas isso era o que se passava com a maioria das outras colegas. Enfim, foi tudo excelente. Estes procedimentos permitiam-me parecer parvinha, como de certo modo era pretendido, e, ao mesmo tempo, dedicar-me por inteiro às coisas que queria e gostava de mesmo fazer: jogar, estar com os amigos, ler e aprender. É por isso que toda a minha adolescência foi muito feliz.

A QUESTÃO DO FEITIO


Cat2007

16.04.20

Pattern: Tom Ford Blazer | Jacket Idea | Padrões de pano, Padrão ...

 

A alma é a energia, a vida. O espírito é a personalidade em potência. A personalidade é o modo de agir sustentado num certo conjunto de princípios que condicionam uma série de regras de conduta, as quais são também determinadas por audácias e temores, podendo existir uma personalidade vincadamente boa ou, por outro lado, o que se costuma designar por mau caráter, em virtude da ausência de alguns daqueles (bons) princípios. Dito isto, resta-me saber o que é o feitio. Nos blazers o feitio é a forma essencial. Nas pessoas não. Isso é o espírito, como disse. Não. Não sei mesmo o que é o feitio. Só sei que ouço falar dele. Do bom e do mau. E tem bom feitio todo o ser que, por exemplo, é permissivo e “deixa que lhe passem por cima” e tem mau feitio aquele que em bom português das telenovelas brasileiras “não leva desaforo para casa”, por exemplo também. De facto, não sei. Não sei onde começaria o feitio e acabaria o caráter, a personalidade. O bom caráter não se identificaria necessariamente com o bom feitio. Assim como o mau feitio não representaria um mau caráter. E digo isto reafirmando que não sei muito bem o que é o feitio. Porque, veja-se que, dependendo dos nervos e do nível de stress, os comportamentos alteram-se em situações perfeitamente idênticas. Já para não falar de comportamentos diferenciados em função da pessoa-recetor. De maneira que talvez isso do feitio não seja mais do que uma perfeita invenção.

 

FALTA DE "CABEDAL"


Cat2007

14.04.20

 

Não era seu hábito procurar-me para saber de mim ou, ao menos, simplesmente estar um bocadinho comigo. Sugeriu-me um encontro de amigos de longa data. Mas, na verdade, era apenas porque precisava. Mais uma vez, queria que eu, do alto de uma sabedoria por si imaginada, lhe dissesse o que desejava ouvir sobre uma nova relação amorosa. Como se as coisas que vinha contar-me pudessem ter algum grau de profundidade para serem complexas. Assim cansou-me logo que começou a ler as infinitas mensagens de telemóvel que trocou com ele. Todas sem significado. Ou seja, com o significado único de que ali havia um nada amoroso. Porém, incompreensivelmente ou não, de cada vez que lia, via-se-lhe nos olhos a esperança. Quando finalmente me foi possível falar, disse que não. “Não. Não gosta de ti”. Viu-se a agitação e talvez também uma certa raiva. “Não? Porque é que dizes isso? Tu nem sequer o conheces”. Ignorei o golpe essencialmente por pena. “Não preciso conhecer. Basta-me o teor das mensagens e as coisas que me contas. Afinal, ele nem sequer quer ir para a cama contigo. Dois meses de namoro… “. Fiz mais uma ou duas observações. A questão era demasiado simples. Como sempre, só mudavam os nomes. Dito isto até parece que falo de uma pessoa na fase da adolescência, o que não sucede.

É verdade que sempre me confundiu aquela incapacidade de detetar afetos e de não querer contornar não-afetos. Porém, agora já não. Percebo perfeitamente que tudo tem a ver com escolhas e com a falta de “cabedal” para suportar a falta que lhe faz tudo aquilo que rejeitou ao escolher como escolheu.

O ESCUDO DA INFÂNCIA


Cat2007

12.04.20

O Desenho DO Criança Mulher Terrível Stock Vector - FreeImages.com

 

Estava tão deliciada a recordar as incidências da vida de Agnes, que cai das nuvens quando, após a declaração da própria para si própria de que, na verdade, não amava Paul, o seu marido, o livro, a “Imortalidade” de Kundera, passou para o romance absurdo de Goethe com a jovem estupida Bettina. Já não me lembrava disto. Enfim, é toda uma segunda parte que, desta vez, vou ter que suportar. É que, antes, não a li, tendo passado diretamente para as deprimentes peripécias de vida de Laura, irmã de Agnes, que tinha uma gata com uma imaginada personalidade igual à sua. Mas agora vou ler. Porque o autor também, neste passo do livro, diz coisas preciosas, dada a simplicidade com que observa os fenómenos e depois conclui com acuidade. Vejamos a seguinte observação: “Refugiar-se atrás do escudo da infância era a astúcia toda da sua [de Bettina] vida. Era a sua astucia, mas também a sua natureza, pois já na infância ela se fazia de criança”. Ainda não atingi o nível de egocentrismo e falsidade desta heroína de Kundera, por estar a ler devagar, mas não consigo deixar de recordar certas pessoas e das coisas que elas fazem para ver se nos saltam para o colo, pesando, e para (perigosamente) nos envolverem o pescoço.

 

DE JOELHOS


Cat2007

11.04.20

30 Desenhos Dia Internacional da Mulher para Colorir - Online ...

 

A minha mãe preocupava-se com a aparência. No entanto, nem tanto assim, a partir de certa altura - que não era a da velhice porque a minha mãe não chegou a tanto. Por isso não era incomum que se apresentasse com as camisas mal abotoadas ou as sandálias com as presilhas fora dos furos certos, por exemplo. Então, lá estava eu arrumar tudo. E ela, dócil, permitia. Pelo meio, eu fazia as minhas observações sobre o assunto, alertando, por um lado, e dando conselhos, por outro. Ela, por seu lado, sorria candidamente e punha-se muito distraída, como era seu hábito quando as questões não eram fundamentais. Ambas percebíamos que aquilo haveria de se repetir para sempre. Não. A minha mãe não tinha problemas. De saúde mental, quero dizer - faço esta advertência porque, não querendo trair a sua memória, temo que o que acabei de descrever possa induzir em erro para quem leia isto.

Uma vez achei que ela andava um bocado triste. Por isso, e ao invés de reconhecer que havia razões conjunturais para tanto, que havia, convenci-a a ir comigo ao meu terapeuta da altura. Pedi para ficar no gabinete ao lado dela. Eles permitiram. E foi só aí que eu reparei que ambas as presilhas das sandálias estavam soltas. Repreendi-a com a propósito. E depois ajoelhei-me para lhe apertar os sapatos. De resto, a consulta correu bem. Saiu de lá com a receita de um antidepressivo levezinho que jamais tomou. O certo é que na sessão seguinte o terapeuta me falou da impressão com que ficara. Nunca vira tanta ternura que expressava em mim aquele tipo de amor profundo. Como é que se tinha percebido isso tudo? Na verdade, eu só me ajoelhei diante dela.

 

O MEU GANHA-PÃO


Cat2007

08.04.20

 

oásis-no-meio-do-deserto-do-Saara (4) | Natureza incrível ...

 

Levantei-me relativamente cedo. Era para começar a fazer um trabalho aparentemente mais ou menos difícil com prazo para hoje. Por isso estava a sentir as minhas habituais resistências. Sempre que surge alguma tarefa que, do ponto de vista da realidade das coisas, possa parecer intelectualmente mais exigente, quero logo fugir. É que tenho de me concentrar. E isso para mim, para a minha cabeça indisciplinada, dá muito trabalho. E eu não gosto. Por outro lado, gosto muito, tenho o vício, aliás, de andar com os pensamentos como vento a soprar de certo modo enérgico sobre a areia leve no deserto. Importa-me o molde das dunas. As subidas, as descidas e as curvas. E depois o modo como tudo se altera. É por isso que não tenho muita paciência para estar devotamente concentrada em contextos (e textos) que, dada a respetiva natureza, são tendencialmente tão imutáveis como o andar das tartarugas. Não obstante, comecei fazendo planar (à força) o pensamento.  É disto que eu vivo. De ver andar as tartarugas. Segui, então, pacientemente o caminho em linha reta de uma de tamanho médio. Apesar de tudo, no fim da manhã a reptília cruzou a meta.

 

A SENHORA BAIXINHA


Cat2007

06.04.20

 

 

 

 

Minnie Mouse , Minnie Mouse Mickey Mouse Computer mouse , minnie ...

 

Veio à minha cabeça a ideia sobre uma senhora que se aposentou há muito pouco tempo. Pouco antes do vírus surgir. Já não sei se foi ela que disse ou eu imaginei, mas fiquei crente de que a senhora pretendia fazer uma série de coisas, aproveitando o tempo que passaria a ter disponível.  Não sei… fiquei com a ideia de que não iria querer estar muito por casa. Talvez ela não tenha dito nada. Talvez eu tenha achado o que achei por saber do seu temperamento alegre e extrovertido a que acresce uma grande facilidade de relacionamento e de comunicação. Esta senhora é muito baixa de altura. E eu tenho o hábito de pensar que as pessoas de estatura baixa ou muito baixa são mais alegres e comunicativas do que as demais. Porque, certo ou errado, foi isto que eu fui observando ao longo da vida. Agora não sei o que fará esta senhora e também aquelas pessoas que eu conheço que são baixas e alegres. A ideia que tenho, correta ou incorreta, é que estas pessoas não param um segundo. Talvez agora seja infernal estar com elas dentro de casa neste período de confinamento obrigatório. Não sei… a verdade e que é difícil para todos. Por mim, não é que goste muito de conviver, para além de adorar estar com quem gosto muito, mas agrada-me mudar de cenário. Além de que, não convivendo diretamente, tenho uma certa predileção por estar sentada numa esplanada cheia com bom tempo e vista de mar ou de um monumento bonito. Igualmente, sinto falta do cheiro do oxigénio de certos lugares para onde costumo ir. Podia fazer isto aos fins-de-semana e feriados e depois, mais tarde, ir normalmente de férias. Continuo a pensar no que poderá agora estar a sentir a senhora baixinha que se reformou mesmo antes do vírus chegar.

 

A TELEVISÃO DO QUARTO AVARIOU


Cat2007

01.04.20

 

A televisão do quarto avariou, pelo que recomecei a ler à noite na cama: O Jogador, de Dostoievski. Não vou falar aqui do livro e, tão pouco, farei citações do mesmo. Apenas informo que estou a divertir-me muito. Até que adormeço

No outro dia também passei um bom bocado a ouvir música clássica brasileira: a bossa nova. Desta vez com o João Gilberto. Fiz isto enquanto arrumava umas coisas que há muito esperavam. E foi aquela sensação de cheiro a sol e a mar em odores misturados. E, de repente, senti-me desobrigada de estar em casa, passando a estar por vontade de ficar a ouvir esta música de que falo.

 

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