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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

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PERDÃO


Cat2007

09.08.09

 

 

 

 

Perdoar deve ser dos actos, atitudes ou factos que mais leveza podem trazer ao espírito de um ser humano qualquer. Porque perdoar erradica a dor. Não causa amnésia. Quer dizer, não faz esquecer o sucedido. Porém, isso não tem importância nenhuma. Porque o peito começa imediatamente a  flutuar e a cabeça a viajar por onde quer, depois de uma estadia numa espécie de cadeia de pensamentos solitários, escuros e mal alimentados. Enquanto não perdoamos, fazemos riscos nas paredes para sabermos em que dia estamos. 

 

Perdoar é o resultado de uma atitude perfeita e puramente cristã. Cristo perdoou os seus juízes e os seus carrascos. E Judas! Como é que ele conseguiu? Conseguiu naturalmente, claro. Era Cristo. Melhor e mais inteligente do que qualquer um de nós. Nados e criados antes e depois dele. É por isso que o calendário ocidental  não tem uma nova contagem desde o dia do meu nascimento.

 

De qualquer modo, pergunto-me se Cristo conseguiria sentar-se de novo à mesa com Judas. E confidenciar com ele. E incumbir-lhe missões. E sorrir-lhe com um brilho nos olhos. E abraçá-lo ternamente. Creio que sim. Cristo conseguiria isto tudo. Porque era filho de Deus. Um santo. Um protegido. Um homem que sabia que tudo acabaria bem. Para Ele tudo acabou bem. Morreu. Cristo sabia o que era a morte. Estava perfeitamente seguro de que a morte é uma coisa excelente. Especialmente para pessoas da sua excelência.

 

Nós não sabemos nada sobre a morte. Só uma fé tremenda nos pode fazer acreditar na maravilha que há-de ser. Assim, poderíamos, até, suicidar-nos á conta de tamanha fé. Mas não. Não temos direito a tirar a nossa própria vida. Ela não é nossa. Pertence a Deus que no-la concedeu. Deus vai tirar-nos a vida quando entender que é assim. Que a missão que nos destinou está cumprida. Por isso, designadamente meteu dentro de nós aquilo a que chamamos o instinto de sobrevivência. Estes são mais ou menos alguns princípios da fé, creio eu.

 

O perdão só tem caminho dentro do nosso peito quando aceitamos que é perfeitamente natural que o perdoado nos volte a fazer o mesmo mal que já nos fez. Ou coisa parecida. Perdoar é ficar em campo com um ar tranquilo e contemplativo. Com um leve sorriso nos lábios, que nos vem de uma tranquilidade profunda. Perdoar é também compreender e aceitar que, tarde ou cedo, teremos que perdoar de novo. É que há erros que por serem só isso não têm estatuto para requer perdão. Já as outras atitudes, as que são pessoais, efectivas, estruturais e constituem um padrão de comportamento. Essas... enfim, os seus autores gostariam de ser perdoados. Ou, talvez não. Depende do carácter, ou da falta de carácter, de cada um. Na verdade, perdoar é uma questão própria daquele a quem compete dar o perdão. Porque a dor maior é sua. Simplesmente.

 

Todos os demais actos de absolvição servem sobretudo para erradicar a raiva, a dor e o ressentimento que se alojou no peito. Tudo isto a seguir a seguir para longe. Do perdoado. Bem se vê não se trata aqui do perdão cristão. Chama-se a tal natural atitude meramente humana de sobrevivência humana governada pelo instinto vital. Cristo não precisava de nada de ninguém. Cristo só tinha uma missão: dar. Pelo contrário, nós precisamos de tantas coisas. Precisamos de receber. Dava-me imenso jeito ser uma santa agora. O que não sucede. Assim sendo, em primeiro lugar viro as costas e espero que o tempo atenue a dor. Quando esta dor passar a ser um sentimento menor na minha vida, vou ser compreensiva e perdoarei tudo. Apenas tal perdão não terá qualquer sentido útil no que diz respeito à situação actual. Portanto, não é, nunca será, perdão, volto a referir.

 

Eis o retrato de uma espécie de "Ground Zero". Mas alguém acredita que as novas torres do novo "World Trade Center" serão as mesmas? E as pessoas que morreram vão ressuscitar e voltar aos seus afazeres do inicialmente rotineiro dia 11 de Setembro? E as respectivas famílias? Ao que pude apurar, o novo WTC vai ser fantástico. Completamente diferente e muito mais seguro. Vai ter o esperado Memorial. As vitimas serão recordadas para sempre porque estão mortas. As torres gémeas já não existem.  São lembradas para serem esquecidas. Vão nascer umas gémeas novas, que nem clones são. O Memorial, atenua a dor. A reconstrução serve para fugir do "Ground Zero". Nova Iorque, que ficou alterada, será outra ainda mais uma vez. Nada voltará ao que era dantes. E, que eu saiba, ainda ninguém veio manifestar o seu perdão a Bin Laden. 

 

Do que fica dito a lição a retirar é: lutar para sobreviver, atenuar os danos e reconstruir para seguir em frente. Para a frente. De outra maneira. Só um lunático acredita naquilo que já não existe. Agora, também é verdade que, antes de mais, é preciso sair debaixo dos destroços, se o caso é ter ficado soterrado. o primeiro esforço tem que ir todo nesse sentido. É uma luta entre a vida e a morte, portanto.

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