Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

UM DESPREZO SUPERIOR


Cat2007

11.11.09

 

 

 

Atirar a toalha ao chão é qualquer coisa que muito raramente me ocorre. Carregamos a toalha ao ombro para ir limpando o suor que nos vai escorrendo do rosto e do corpo por força dos trabalhos que vamos tendo. Quanto mais força temos que empregar, mais suamos , por consequência, usamos a toalha. Normalmente, esqueço-me das toalha em casa. Não como alguém que se esquece do guarda-chuva em casa quando, mesmo antes de sair de casa, já verificou que está a chover, e que vai durar para o dia. Não. Comigo e com a toalha não é assim. Não é este o espírito que nos une. Ou melhor, desune.

 

Estou mal habituada. desde miúda que os trabalhos não são trabalhos. São meras tarefas que não dão trabalho por aí além. Desconcentro-me assim. Não ando sempre a trabalhar. Não preciso da toalha. Desconcentro-me assim sobre a possibilidade de poder ter que enfrentar uma carga de trabalhos. Quando tudo nos é muito fácil de realizar, parece-nos que tudo será sempre fácil. A falta de hábitos de esforço desprotege-nos.

 

Passei o secundário a ditar aos colegas de grupo os conteúdos dos trabalhos que eram para ser feitos pelo grupo. Os professores definiam os temas e mandavam reunir os grupos. Nunca me importei em escolher os parceiros. Mal soava a ordem para começar, eu simplificava tudo. Escreve, dizia eu para quem me parecia ter a letra mais bonita. Pois este era o meu grande handicap. Uma letra feia, torta e quase incompreensível. Certa vez, uma professora qualquer disse-me que deixava sempre o meu teste para avaliar no fim. Era uma trabalheira corrigir coisas escritas com aquela letra. Não me importava. Pagavam-lhe para isso. Eu cá queria era a nota. Que era sempre alta. Tirada sem suor meu. Nunca fiz um teste de toalha ao ombro. Mas voltando ao trabalho de grupo que estava a explicar, eu ditava. De onde? Da minha cabeça. E começava: Os Maias...ponto. Posteriormente ... virgula. Agora fazes parágrafo porque vamos mudar de assunto e passamos para os Gregos. Então escreve. Normalmente estava tudo pronto muito antes do fim. É que não havia a discussão nem a dúvida. Num grupo de cinco eu ditava, alguém escrevia e três sossegavam. Agora, ao lembrar isto, olho para trás e reflicto um pouco para dizer que não notava que nem todos os colegas de grupo gostavam muito disso. Talvez se sentissem imbecis. Reparo que não era justo. Mas era tão natural em mim. E eu sou tão prática! Peço agora desculpa com efeitos retroactivos.

 

Um dia faltei a uma aula de História. A professora desabafou para a turma. Estava aliviada de eu não lá estar. Assim podia dar a aula em paz. É que eu não a deixava concluir os raciocínios. Concluía sempre antes dela. Todos. O melhor disto foi a minha admiração. Nunca imaginei que a professora me achasse uma chata de galochas. Antes pelo contrário. Imaginava-me adorada. Foi qualquer coisa semelhante a um desgosto de amor de um narcisista. De facto. Gostava daquela professora sem toques de especialidade. Gostava dela como dos outros professores, com excepção de um ou dois de quem gostava a sério. Portanto, fiquei magoada por ela não me adorar. Trata-se aqui de uma questão de justiça elementar. Se uma aluna tem uma professora mediana em função da média ponderada de todos os parâmetros adequados utilizáveis para a classificar, é natural que goste medianamente dela. Por outro lado, se uma professora tem uma aluna com capacidades de aprendizagem e de expressão acima da média, tem que gostar dela acima dos outros alunos. Esqueci-me, claro está, que me tinha de ser aplicado o critério que mede o  o nível de individualismo e também daquele que serve para avaliar o não me lembro que há mais pessoas dentro desta sala para além de mim. Esqueci-me por alguns momentos, talvez. Mas percebi logo depois. Era por isto que a minha avaliação era abaixo da média para aquela mulher. Eu simplesmente esfrangalhava-lhe os nervos. Ela já tinha um certa idade. Não aguentava aquilo. E, note-se, quem tinha de lidar com a situação era ela não eu.

 

Já os meus colegas gostavam quase todos de mim. Os raros que não gostavam eram mulheres. Havia sempre uma ou duas histéricas que não me suportavam. O pior disto é que eu deixava sempre que a coisa me infectasse. E quando dava por mim, também já não as podia ver à frente. Embora fingisse sempre e em qualquer circunstância um desprezo superior.

 

No meio de tantos hábitos, habilidades e charme, criei o hábito do deixa andar que isto é tudo muito fácil. Hábito que vesti até hoje. Hoje, que sou adulta, noto que a grande diferença para os adolescentes é a obrigatoriedade de ter um sentido de responsabilidade. Responsabilidade que, note-se, quase é o antónimo de facilidade. Não lido bem com esta exigência. Eu sou do clube do fácil. O senso de responsabilidade condiciona a conduta porque imprime no espírito a ideia de consequência. Eu sou do fácil. No mundo fácil não há consequências. Porque tudo é muito bem feito. O mundo fácil é habitado por pessoas muito mais capazes do que as outras. Nunca sofrem consequências de nada. Porque, repito, fazem tudo bem. Sucede que as pessoas do fácil têm de interagir com as pessoas da responsabilidade, que vêm tudo com um ar muito mais difícil e são em número infinitamente superior. É aqui que os cenários montados pelos difíceis começam a meter medo aos fáceis. Os fáceis adquirem o senso da responsabilidade através do medo. Porque não sabiam lidar com a coisa. Aparece a toalha.

 

Eu já me ando a habituar à toalha. De repente, sem eu dar por isso, juntou-se uma montanha de coisas difíceis, que eram fáceis. Agora, os trabalhos fazem-me suar tanto, que a toalha está ensopada. Por causa do peso, ponderei muito seriamente deitar a toalha ao chão. Mas foi aí que algo aconteceu. Voltei à consciência de mim. Eu sou um ser do fácil. Não tenho nada mais a perder que importe muito. O senso de responsabilidade foi erradicado. Estou eu comigo fácil. Olho para as coisas que parecem monumentais para toda a gente. E eu não acho. É fácil. Está no papo.

 

2 comentários

Comentar post

stats

What I Am

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.