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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

LOUCURA E AMOR


Cat2007

20.01.10

 

 

 

 

Muitas coisas me têm afectado ao longo da minha vida numa base diária. Coisas importantes e coisas sem importância nenhuma, numa perspectiva relativa das coisas. Por exemplo, tudo o que se passa durante uma semana da minha vida é como se fosse um trabalho de casa que eu tenho de fazer semanalmente. E que tudo o que se passa durante uma semana da minha vida, é tudo aquilo que eu vejo, ouço, sinto e penso durante essa mesma semana. O que, obviamente, dá muito mais do que o produto de sete dias comuns. Assim como quem vai só para o trabalho e descansa ao fim de semana.

 

Há uns tempos  vi o filme "As Horas" de Mrs. Dalloway (Virginia Woolf). Do nascimento à morte na vida de uma mulher em um só dia. Impressionou-me. Porém, fiquei segura que, embora percebendo o essencial, não compreendi muitas coisas. Coisas que eu não sei dizer quais são porque não li Mrs Dalloway. Tudo por causa do "The Lady in the Looking-Glass" . Não gostei e não voltei a tocar na Virgínia Woolf. Também era uma adolescente! Talvez deva voltar às duas, e à terceira: à Mrs, à Lady e à Virginia.

 

Antes de ver o filme, e passe a ignorância, não tinha ideia que Virginia Woolf era esquizofrénica. E continuo sem certezas. Mesmo tendo visto "Quem tem medo de Virgínia Woolf " no teatro. É claro que a própria nada tem a ver com esta peça. Só aparece na cantilena (sim, realmente, sintomática de padecimento esquizofrénico de uns e do medo do padecimento, por parte de outros): "Quem tem medo de Viginia Woolf? Virginia Woolf , Virginia Woolf ...".  Talvez a Elizabeth Taylor hoje. Ela que fez de Martha no cinema.

 

Em geral, as pessoas têm medo dos loucos. Eu não. Praticamente nasci e cresci num sítio onde os loucos eram amados. Onde não havia só loucos. Onde os loucos não eram diferentes dos paraplégicos, dos cegos, dos negligenciados e dos normais desproblematizados, segundo os parâmetros do senso comum. Nada mais semelhante a um circo alegre, ou aquele que não existe. Diferente do clássico que deprime toda a gente.

 

A propósito, não sei porque se concebe que o circo é para as crianças. Nem, aliás, porque se pensa que o circo é para alguém. Por mim, o circo não existia. Ponto.

 

Bom, mas os loucos de onde eu cresci eram teoricamente menos perigosos para si próprios do que os do Hospital Júlio de Matos, ali na Avenida do Brasil. E esta frase sobre o perigo da loucura não tem sentido nenhum neste contexto. Ponto. Só para ligar com o parágrafo seguinte, na verdade.

 

Um dia fui ao Júlio de Matos. Embrenhei-me lá pelos jardins que cortam os diversos pavilhões. O Paul Newman, ainda em novo, pediu-me um cigarro. Olhou-me bem nos olhos com os olhos azuis. Eu não tenho medo de loucos. Estávamos completa e irremediavelmente sós. Eu e ele. Ele colou os olhos nos meus. Eu preguei os meus nos dele. Senti o sangue muito frio por uma fracção de segundo. Medo, pois. Depois, ele franziu a testa. Passou o medo, que eu não tenho, pois. Dei-lhe o cigarro e acendi-lho. Ele deixou os ombros relaxarem. Disse-me: "você é uma boa pessoa. Não é como eu. Eu sou muito mau. Por isso estou aqui". Respondi-lhe que não com a cabeça. Sorri-lhe e fui arrependida por não lhe ter dito que ele era lindo, apesar de tristemente morto de vez em quando. Era lindo. E inesquecível. Nunca lhe diria que percebi que ele estava morto de vez em quando. Mas fiz bem porque isso também não era verdade. Ambos sabíamos bem que o que se passava era, precisamente, o contrário:  com efeito, transbordâncias de vida mental, era o que se passava. Em conclusão, pelo que pude observar, o Paul Newman estava muito mais lixado do que a Virginia Woolf .

 

Não compreendi porque razão, em "As Horas", as mulheres passavam a vida a beijar a boca uma das outras. Igualmente não li o "Orlando". Por causa de "The Lady in..." , já o disse. Também deixei passar o filme ("Orlando"). De qualquer modo, li o "Retrato de um casamento", publicado por Nigel Nicholson, e baseado no diário da mãe, Lady Vita Sackville-West. Que só aparentemente nada tem a ver com o assunto. Pois, ao que consta, um dado está ligado ao outro. Vita e Orlando são a mesma pessoa.

 

Por outro lado Victória Sackville-West, ou mais propriamente, o filho,  revela ter tido um caso de amor com Virginia Woolf. O que o pai de Nigel andava, não andava e permitia fazer, também está esclarecido no referido livro. Mas o que se passava com o senhor Woolf é que passou a ser, para mim, desde "As Horas", um perfeito mistério. E o que esperava este homem daquele casamento?

 

Claro que Viginia Woolf não se suicidou.  O que não é verdade. Embora esteja pouco ou nada morta. No entanto, não tem nenhum filho que lhe publique o diário. Creio eu. Sobre o filho e sobre o diário, não sei se efectivamente existem. Embora tenha quase a certeza que não.

 

Se eu pertencesse à nobreza inglesa, talvez pudesse entender porque razão vai um filho expor os afectos arrebatadores e as intimidades homossexuais da mãe Vita com Violet Kiepel. Quero dizer, não entendo porque não se bastou ele, o Nigel, com as explicações que deu no livro. Para quê publicar extractos do próprio diário da mãe, que, ainda por cima, contrariam quase tudo aquilo em que ele nos quer fazer acreditar? Talvez não lhe publicassem o livro de outro modo. Mas para quê publicá-lo? Talvez a Rainha Isabel II saiba tudo.

 

Porém, ainda, sobre "As Horas," os beijos femininos sobre os beijos femininos foram ali colocados para dizer que Virginia Woolf se sensualizava por mulheres? A isto a Rainha Isabel II não saberá responder. Estou quase certa.

 

Pensava que para amar e ser correspondido era necessário ser tomado a sério pelo correspondente. Talvez os Correios percebam isto melhor do que eu, já que se fala aqui de correspondências. Porém, nem eu, que não tenho medo de loucos, acreditaria num amor desses. Gosto de ser levada a sério. Para começar. De resto, não poria obstáculos ao amor de um louco por mim. Se tal amor tivesse aspectos carnais estimulados pelo ciúme e por aquele género de pulsão que nos leva a fazer as maiores loucuras. Também, o amor necessita de uma sólida base de confiança mútua.

 

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