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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

O QUE É O AZUL?


Cat2007

30.06.10

 

 

De certo modo, "Azul" é como eu. Um argumento inacabado. Sei como acaba a história. Sei como começa. Sei o que acontece pelo meio. Mas falta organizar a densidade das personalidades dos personagens. São complexos. É uma coisa sobre mulheres. É por isso. Claro. Mães e filhas e amantes. Não é uma história de lésbicas, mas os romances ali vividos tinham de o ser. Porque constatei que há algo de incontornavelmente incestuoso na relação mãe/filha. E nada o faria supor. Com efeito, até hoje nunca observei grande proximidade entre as mulheres. Entre as que geram e as que são geradas. Pode ser um equívoco meu, mas parece-me que as mães estão sempre mais próximas física e emocionalmente dos filhos do sexo masculino. Existe um não sei o quê de falta de à vontade, um distanciamento, uma espécie de fronteira que separa as mães das filhas. Ao ponto de se pensar que os rapazes são os preferidos.

 

Resolvi confrontar a minha mãe com esta questão: "Mãe, é verdade que sempre gostou mais dos manos do que de mim?". Ela ficou estupefacta. "NÃO!". Acreditei imediatamente nela. Por isso ficou-me na mente a imagem daquela barreira sem nome e sem forma que sempre nos separou.

 

A sensação é que caminhámos sempre lado a lado cheias de cuidado para não tocar nesse muro imaginário. Um elemento que nunca esteve presente na relação com o meu pai. Não questionei os meus irmãos sobre isso, mas será que com o pai a coisa corria para eles do mesmo modo? Quando questionar, poderei escrever sobre os homens e da relação pai/filho. Agora escrevo sobre mulheres. Só porque sou mulher.

 

Nunca medi a separação de que falo pelo número de beijos, abraços ou quaisquer outras demonstrações de afecto. Igualmente a falta de orgulho em mim nunca foi queixa que tivesse contra a minha mãe. Não é por isso que há uma fronteira que não se pisa. Talvez a questão esteja um pouco no modelo. As mães serão, em princípio, o modelo que as filhas devem seguir. Existe a enorme responsabilidade de orientar. E bem. As mulheres que não têm este tipo de relação de sangue vão juntas à casa-de-banho. Parecem demasiado próximas para a verdade da proximidade que realmente não têm. Eventualmente, é difícil para uma mulher ser mãe de outra porque tendo que ser o seu modelo, também está convencida de que tem de rivalizar. Estar contra. Desfazer. A imagem do homem dentro de casa é crucial. Tudo isto tem a ver com os papeis sociais destinados aos homens e às mulheres. Naturalmente, as relações das mães com as filhas são confusas. Não duvido da profundidade do amor que lhes subaz. Mas é mesmo isto que confunde. Parece que as mulheres não foram feitas para se amarem profundamente.

 

No "Azul" faço experiências. Criei uma mãe demasiado madura, que não tem uma relação de origem biológica com a filha, e já não tem marido. Construi uma mãe biológica jovem, que fica viúva ao fim de dois anos de casamento. A primeira mãe é heterossexual. A segunda mãe é filha da primeira, e é homossexual não praticante por ser heterossexualista e, para além disso, homofóbica. A filha desta é a Maria, e é homossexual.

 

Sem homens, abri um espaço para romper a barreira invisível onde não se pode tocar. As fronteiras entre estas mães e filhas foram violadas. Resultaram daqui relações quase incestuosas, demasiado intensas e com contornos um tanto trágicos. Fica-se muito próximo do ridículo. É difícil para as mulheres viverem sem pontos de referência masculinos. Mesmo as lésbicas precisam de homens. Nem que seja para compreenderem melhor porque gostam de mulheres.

 

A vida emocional de todas as pessoas corre muito próximo do ridículo. Todas as relações de amor começam pelo incesto. Há que enfrentar estes factos. Porque são factos.

 

O "Azul" não está pronto. Meti coisas nas bocas das pessoas erradas. Acresce que, enquanto narrador, não assumi as minhas responsabilidades, deixando os personagens falar quando não deviam. É por isso que não está bom. Ainda. De qualquer modo, há excertos do "Azul" onde eu não vou tocar. Como este que publiquei aqui. Talvez possa fazer o mesmo com mais um ou dois.

 

Ah, Azul! Pois... são os olhos de Teresa, do céu e do mar. Também os de Joana. Na verdade, a Ana é Joana. Decidi mudar. Fiz mal. A Maria. Nunca foi Maria. É Clara. Vai ficar Clara mesmo. Este argumento foi escrito em 2004. Não tenho culpa de me ter cruzado com Joanas e Claras depois disso. Além de que ninguém me garante que esteja livre de alguma Maria ou de uma Ana. Nomes são nomes quando pertencem a pessoas da vida real. Mas na ficção já não pode ser assim. Os nomes que eu esolhi respondiam a uma necessidade de dizer mais qualquer coisa. Ajustam-se ao que eu quero fazer com os personagens. Não podem por isso ser mudados.

 

 

18 comentários

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    Cat2007 01.07.2010

    Não sei se interessa muito a familia de onde se provèm para aquilo que eu quero dizer. Isso é só um ponto de partida. Depois é preciso observar muito bem tudo o que for possível. Não é fácil chegar a uma conclusão. Mas a minha frase aqui é: falta solidariedade feminina.
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    Sara 01.07.2010

    Percebo o que dizes.
    A minha experiência de base (familiar) é outra, embora eu propria possa argumentar comprovando o que tu dizes, qdo falo em amizade.
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    Cat2007 01.07.2010

    Pois, a falta de solidariedade femenina é algo que parece que vem nos genes das mulheres. E é esse não sei quê invisivel que também separa as mães das filhas.
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    Sara 01.07.2010

    Eu sei a que te referes... embora não lhe chame solidariedade... no meu caso... é mais um não sei o quê indizivel.
    No que toca a mulheres amigas.... a mulher é simplesmente menos ´.... não encontro a palavra certa... nenmhuma me agrada... a mulher é mais voluvel (parece-me bem) a determinados estados e a determinados detalhes.
    O homem, não dá importancia ao detalhe, é de certa forma mais básico, mais simples o que também o torna mais confiavel como amigo. Dá mais valor ao todo, do que ao detalhe.
    Nesse aspecto eu sou muito gaja. Totalmente dada aos detalhes. Mas não suporto a competição.
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    Cat2007 01.07.2010

    Pois a mim a coisa parece-me muito mais profunda e mais estruturada do ponto de vista socio-cultural e até político. Daí que passou praticamente para o nível do inconsciente.
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    Sara 01.07.2010

    Tu hoje estás do contra:

    - "Pois, a falta de solidariedade femenina é algo que parece que vem nos genes das mulheres. "

    - "Pois a mim a coisa parece-me muito mais profunda e mais estruturada do ponto de vista socio-cultural e até político"

    Vou-te deixar sossegadinha. :)

    Beijocas
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    Cat2007 01.07.2010

    Viste alguma contradição entre as duas afirmações? Eu não. São duas formas diferentres de dizer excatamente a mesma coisa. Uma mais metafóriaca outra pelo uso de uma linguagem menos codificada. :).
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    Sara 01.07.2010

    :P
    Na realidade o conjunto de factores que leva a um determinado "acontecimento" é sempre multiplo, podendo ter origens socio-culturais, fisicas e/ou genéticas. Sendo muitas vezes impossivel dissocia-los.
    Em cima estava apenas a dar largas ao meu senso comum. O que gheralmente me dá muito gozo.
    bjocas
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    Cat2007 01.07.2010

    Sim, mas a genética que eu falava foi colocada em termos metafóricos, de facto. :)
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    Sara 01.07.2010

    não tinha percebido.
    A lutar, com cachets, SPAs, IGAC e coisas afins... o que é muito bom sinal! ;)
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    Cat2007 01.07.2010

    Podes crer! Olha, e essa luta é mt mais importante. Te gosto!
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    Sara 01.07.2010

    :D e acabei de ter uma reuniao relampago com Italia que me rendeu mais uns trabalhinhos, para apresentar em Novembro (com uma outra companhia) :D

    Vira a Camisola! lolololol :D
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    Cat2007 01.07.2010

    Pois, já sei, bella!
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    Sara 01.07.2010

    Grazie, Cara
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    Cat2007 02.07.2010

    Estou muito contente!!!!
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    Sara 02.07.2010

    Porquê?
    ´:)
    Por mim ou por ti (tens novidades?)
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    Cat2007 02.07.2010

    Por ti, mulher. As minhas novidades ainda não chegam para me sossegar. Socorro!
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