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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL II


Cat2007

01.07.10

 

  

Joana conduzia em silêncio. Olhando a estrada. Muito concentrada, muito séria. Por vezes, Clara surpreendia-se com o olhar dela. Sempre inesperado. Como se surgisse a total despropósito. Não condizia com a aquela postura distanciada. Sim, de vez em quando e, por breves instantes que se repetiam, sacudia a alma de Clara com o olhar. Cada vez mais azul. Joana olhava. Não dizia nada ao olhar. E no, entanto, dizia tantas coisas em cada olhar breve. Sorria de um modo inquieto e voltava de novo a cara para a rua. Para o trânsito que não sentia. Era preciso concentrar-se na estrada. Nos sinais. Agarrava com força o volante. Como quem quer segurar os pensamentos e prender-se à realidade. Para não cair. O coração batia no peito de uma forma inusitada. Não batia forte nem fraco, mas doloroso. O sangue, assim bombeado, espalhava-se pelo corpo velozmente. Inundava-a de uma sensação de dormência que invariavelmente terminava com choques eléctricos na ponta dos dedos. Por isso, as mãos tremiam. Agarrava o volante ainda com mais força. E olhava teimosamente para o trânsito que não via. O rosto endurecia pelos maxilares, sustentando uma expressão demasiado carregada.

 

Clara olhava para ela. Todo o caminho olhou para ela. Era simplesmente incapaz de não olhar. Na sua cabeça estava gravado o perfil do rosto de dela, as mãos sobre o volante e o peito. Os seios. Clara também não via à força de tanto olhar. Só tinha a imagem gravada no cérebro. Por isso não pensava. Não conseguia pensar. Tinha os olhos enormes, saturados. Subitamente, sentiu vontade de fugir dali. Foi violentamente invadida por uma sensação de ausência de vida. Queria falar. Mas não sabia o que dizer. Percebeu que não conseguia mexer-se. O barulho lá de fora zumbia-lhe nos ouvidos sem parar. Fora assim o percurso todo. E só agora se dava conta do facto. Era urgente gritar. Não gritou. Continuou ali. Imóvel. Muito calada. A olhar para ela. Ela continuava em silêncio. Agarrada ao volante.

 

Há um bom tempo que Joana deixara, sequer de a olhar. Estavam tão perto da casa. Um quarteirão. Encostou o carro em frente à porta do prédio. Desligou o motor. Não queria entrar na garagem. Porquê? Mais uma vez não a olhou.Tinha o rosto marcado pelos golpes do pensamento.Clara perdeu definitivamente qualquer contacto com a realidade. Deixou de sentir o corpo. E a  alma como que se lhe despegava.

 

Clara: Não entras na garagem?

 

Joana não respondeu. Porque não sabia o que responder. Levantou a cabeça e voltou a olhar em frente. Deu à chave e conduziu. O carro andou sozinho ao acaso dentro do espaço escuro e abafado. Até que ficou imóvel num sítio qualquer. Com a energia do grito contido que nunca chegou a soltar, Clara saiu fora do carro e foi encostar-se a uma parede fria. Já não olhava para Joana. Tinha os olhos pregados no chão. Os braços pendiam-lhe, rendidos, ao longo do corpo. Não sentia força nas mãos moles. Nem nas pernas. Joana olhava-a ali a um metro com aqueles olhos brilhantes pregados numa expressão de santa. Absolutamente demolidores!

 

Alguém deu um passo em frente. Alguém deu o primeiro passo. Agora estavam tão próximas. Clara colocou-lhe as mãos na barriga. Pensou em empurrá-la. Joana segurou-lhe as mãos com força. Caíram nos braços uma da outra. De uma forma abrupta. Apertaram-se muito. Joana relaxou os braços e procurou a boca. Clara recusou o beijo. Mas estreitou-a contra si. Agora com mais força ainda. Colaram as caras de perfil. Ficaram imóveis assim. Sem descolar o corpo, Clara meteu a mão direita por baixo da T-Shirt dela. E passou-lhe com a ponta dos dedos pela cintura num movimento horizontal. Suave.

 

Mantinham-se assim a alguns centímetros da fria e cinzenta parede de betão. No equilíbrio involuntário dos corpos esmagados um contra o outro. A lentidão de cada segundo que passa imperturbável num relógio de pulso marca o tempo de cada movimento facial. De acordo com as batidas do coração. Lentamente. Cadenciadamente. Os rostos  colados movem-se no ritmo definido pela pequena máquina. Vão em sentidos opostos que convergem no objectivo do beijo.

 

Respira-se toxicidade dentro da garagem pelos pulmões de quem lá vá. Entram e saem carros, de acordo com a cadência habitual. Os elevadores sobem e descem com gente dentro. Passam malas pendidas em ombros distraídos e outras presas nos dedos inchados das mãos. Os olhos absorvidos  que trespassam a realidade monotonamente densa não as vêm. Não as podem ver. Porque a vida delas corre num mundo paralelo absolutamente exclusivo das suas duas almas unificadas e libertas. Também não vêm ou ouvem ninguém.

 

O cheiro de Joana mistura-se no sangue de Clara e corre-lhe célere dentro das veias azuis. Os cantos das bocas tocam-se. Das bocas delas. O movimento fica parado ali. Naquele momento em que o relógio de pulso deixa de trabalhar. Porque o coração deixou momentaneamente de bater. A máquina recomeça no seu ritmo imperturbável. Logo que o coração retomou. As bocas recomeçam a mover-se. Os lábios encontram-se por fim numa compatibilidade absoluta. As bocas trémulas são retidas. O relógio volta a parar. E de novo o peito parou. O mundo parou.

 

Aquele mundo paralelo feito por alguém à medida das suas almas. Está parado. Mais uma vez. A possibilidade de um beijo queimar sem dor é impossível. Os ponteiros do relógio de pulso recomeçam a andar. É um relógio suiço. Daí tamanha precisão. A cruz branca marcada no fundo vermelho sobressai no pequeno mostrador. Joana não encontra os seus lábios perdidos na cruz que agora é vermelha. O coração perde-se do ritmo dos ponteiros do relógio. Acelera descompassado. Joana molha a boca de Clara com a língua.

 

Os ponteiros do relógio de pulso apagam-se. O mostrador da pequena máquina já não tem números. A cruz é vermelha. Não há mais nada para além da cruz vermelha. As línguas delas estão inundadas de sangue transparente que se mistura. O relógio desapareceu. Agora é a velocidade do sangue bombeado pelo coração desenfreado que comanda os gestos e os sentidos. Clara solta-se num grito de dor. Os corpos giram porque sim. As costas de Joana dão conta da existência de parede fria. O corpo quente de Clara pesa  contra o seu, apertando-lhe a alma. Joana está subitamente mais pequena. As pernas enormes de Clara abrem as suas. Os jeans apertam-lhe as coxas e a barriga. As mãos de Clara têm o comprimento de todo o seu corpo. Fugir é uma impossibilidade não ponderada. Joana deixa que a morte venha. E o seu corpo desfaz-se. O sangue transparente escorre-lhe para fora da boca e pelo interior das pernas para a mão dela. A mão ensanguentada de Clara ampara-a por ali. Sangue branco viscoso escorre e encharca-lhe o pulso. A mão principia a mexer-se para estancar a hemorragia. O que não é verdade. Os seus longos dedos percorrem agora planos interiores escorregadios. Empurra as coxas contra as dela. Quer derreter-se sobre ela. Penetrar-lhe, feita em líquidos, os poros dilatados da pele. Quer viver por um momento único dentro dela. Abre-lhe as pernas com os joelhos e pressiona-a ainda mais contra a parede. Aproxima o seu rosto selvagem e prende-lhe eternamente o olhar. Os dedos trémulos de ansiedade penetram. De novo. O corpo de Joana volta a abrir-se para Clara entrar. Por entre os lagos e caminhos desta viagem sem destino marcado o silêncio sacode as palavras pouco ditas.

 

Clara: Diz-me, já estiveste com alguém assim... desta maneira?

 

A voz saia-lhe entrecortada. Ofegante.

 

Joana: Eu nuca estive com ninguém antes.

 

O corpo de Joana estremeceu violentamente. Clara empurrara os dedos com mais força. Mordeu-lhe a boca.

 

Clara: Porque me mentes assim?
Joana:Eu não estou a mentir.

 

Sorria e olhava-a com os olhos húmidos.

 

Clara:Eu não queria ninguém na tua vida antes.
Joana:Eu olho para ti, e acho que nunca houve ninguém na minha vida antes.

 

A voz quase não saía do peito.

 

Clara: Mas houve. E eu não queria. Não queria...
Joana: Amo-te tanto, querida. Tanto!

 

Os braços de Joana envolviam a cabeça de Clara. Clara saiu de dentro dela. Abraçaram-se num desespero incompreendido. Com força. Olharam-se como se o mundo não existisse para além da extensão total do espaço que os seus pés ocupavam. As lágrimas rolaram pelas face de Clara. Molharam-lhe a boca inchada. Pingavam-lhe dos lábios em grossas gotas que caiam sobre o ombro  de Joana. Estavam tão agoniantemente felizes. Era uma felicidade que lhes doía, mas que também lhes sossegava a alma. Como se a morte as envolvesse sem lhes tocar. Estiveram assim muito tempo. Num silêncio cheio de significados. Repleto de mensagens. Nem todas descodificadas.

 

Joana: Eu queria morrer agora.
Clara: O quê?
Joana: Eu queria que morressemos as duas agora.

 

Clara fitou-a muito séria. Afastou ligeiramente o corpo e deixou cair os braços. Depois, levou as duas mãos ao rosto dela e segurou-o com cuidado. Beijou-a. Cerrou os olhos. Joana fechou os dela. Esperaram assim que a morte chegasse.

  

 

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