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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

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"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

O QUE É SER BISSEXUAL / ENTREVISTA A TERESA


Cat2007

15.12.10

 

 

Olá. Sou Teresa Médica Trintona Bissexual. Não, não é o meu nome completo. Para já trata-se de uma forma péssima de apresentação.

 

Creio que as pessoas não deviam começar assim quando chegam ao pé das outras. Mas é mesmo isto que todos fazem. Não como eu estou a fazer, claro. É, antes pelo contrário, sem dar nas vistas. Portanto, não dizem. Nunca dizem assim. Procuram dar a entender. Ridículo! Todas as exibições, porque o são, têm de ser assumidas. De outro modo, é um contra-senso. Pois. As pessoas adoram viver na contradição, desde que não sintam que é assim que vivem.

 

Portanto, digo que sou médica. Desejo afrontar a hipocrisia e revelar toda a falta de vergonha na cara. A minha. Mas faço uma declaração não hipócrita. Declaro que vivo como os outros. No desejo de alcançar integração social perfeita através do estatuto. Já consegui. Sim. Há muito que alcancei a integração social perfeita através do estatuto. Valha-me aqui a minha declaração não hipócrita.

 

Por quem sou? Bem, eu sou por mim e por aqueles que amo. Para além dos que amo, também sou humanitária. Daí que sou por toda a gente. Mesmo por quem não está de boa fé. Sou Teresa. O problema é que, no meio de tudo isto, Teresa perde-se. Qual é a importância de um nome quando se tem um estatuto? O nome só completa o estatuto e tem a importância que tem somente para os efeitos práticos das questões práticas evidentes. Isto soa a um leve tiro no pé. Não soa?

 

Olá. Sou Teresa Médica Trintona Bissexual. Trintona. Porque informo? Para dizer que sou bonita, ora! Tenho de o dizer porque aqui ninguém vê. É importante dar o quadro completo para aqui. Toda a gente sabe que uma mulher não pode ser bonita antes dos trinta. Bom, nem uma médica a sério, claro.

 

Uma sub-30 com potencial de interesse ainda aproveita mal a vivência dos orgasmos e sofre insuficientemente de amor. É por isso que não percebe uma série de coisas fundamentais. Aquelas que se notam no olhar incontornavelmente interessante das trintonas interessantes. A real beleza feminina só aparece depois dos trinta. Sublinho. Como acontece às flores que amadurecem e deixam de ser ternos botões. É quando fazem os trinta anos contados em anos de vida das flores.

 

Neste ponto estou a pensar em rosas. Por serem óbvias em matérias sexuais. Mas as rosas não me entusiasmam. Assim como as demais flores. Acho-as decorativas. Pode ser em casa, no jardim ou no campo. São decorativas. E entediantes quando oferecidas. Vale então a pena dizer em síntese que as flores são decorativas e entediantes. Agradeço que não me ofereçam flores.

 

Olá. Sou Teresa Médica Trintona Bissexual. “Bissexual? Como? Oh, diabo! E isso é sério? Não quer dizer lésbica? Ah, não, claro que não. Boazona como é, não pode ser lésbica. As lésbicas são deprimentes. E principalmente muito feias. Disse que era uma trintona interessante, não disse? É a mesma coisa que boazona e não se fala mais nisso. Bissexual. Pois. É, quando muito, uma devassa muito cool”.

 

Parece-me que decadência dos costumes é facilmente confundida com o chamado espírito aberto. Melhor, com o ser moderno e prá frentex. Já que tenho de falar com alguma verdade sobre a minha orientação sexual, declaro que sou bissexual. Para não cair radicalmente da aceitação abaixo. Mesmo assim arrisco. A perder um pouco da minha respeitabilidade profissional. Ninguém quer ser operado ao estômago por um médico cool. Teme que, entre outras coisas, o tipo beba demais. É muita festa, muita orgia e por aí. Imagino.

 

Do que fica dito vale a pena dizer que não vale a pena dizer o que significa Teresa. Ninguém se importa. Para aqui interessa a minha bissexualidade. Porque sou médica, bissexual e o título é esse. O que é ser bissexual?

 

Devo explicar. Ser bissexual é como apanhar um barco que flutua num rio situado no meio de duas estradas paralelas. Parece poesia, isto. Mas não é. Começo por assinalar que os barcos só se apanham quando não há alternativas melhores. As estradas de que falei têm nomes. Heterossexualidade (HT) e homossexualidade (HM). Assim como o rio que, evidentemente, se chama bissexualidade (BI).

 

Até aos 16 anos a minha vida correu sempre por HT. Desconhecia por completo o caminho HM. E nem sequer jamais reparara que passava um rio ao lado do meu caminho. Do de todos nós, para ser mais exacta. É que a estrada HT é enorme, larguíssima. Tão larga e extensa que ocupa todo o horizonte da vida que a vista pode alcançar.

 

Nestes termos, deve ter havido uma cheia monumental naquele dia em que uma miúda da minha idade me olhou pelos olhos dentro com os seus lindos olhos azuis, fazendo-me um apelo muito concreto. Só sei que senti a água a chegar-me aos tornozelos. E não estava a chover.

 

Que confusão! A necessidade de perceber de onde vinha tanta água fez-me entrar num processo de busca. Sem alternativa caminhei em direcção ao rio. E foi assim que dei pela sua existência. Espanta-me como tudo continua a parecer tão poético. Assim da forma como vou escrevendo. Paciência.

 

Verifiquei que o rio era estreito. O nome soube-o logo ali. BI. Estava escrito numa espécie de placa. Bem sinalizado, portanto. Mas era tão estreito que se via a outra margem. A outra estrada marginal. A HM. Soube depois. Não ali. Naquele momento voltei para trás. Não gostei da quantidade de barcos de passageiros que por ali circulavam. Pareciam cacilheiros. Nunca tive a ambição de viver em Cacilhas. Hum… de costas voltadas. Pois. Por um tempo.

 

Pronto. Mas os olhos azuis da miúda atrevida hipnotizaram-me. Tornei-me irresponsável pelos meus actos. Um dia apanhei o barco. Não para fazer uma travessia de uma margem para a outra. Aquela viagem era para subir e descer o rio. Tipo aquele passeio que se faz no Douro.

 

Durante dois anos, fartei-me de embarcar. Primeiro foi a menina de olhos azuis. Depois foi uma colega de turma de olhos castanhos. Por fim, uma desconhecida de olhos verdes. Apanhava o barco até elas. Depois, voltava a terra firme em HT. Porque era onde a minha cabeça me mandava estar. Clarifico que, durante este tempo não fiz sexo com ninguém. Só aproximações físicas intensas sem nunca lá chegar. Tinha medo. De enjoar talvez.

 

Até que um dia… um dia, enganei-me no bilhete. Era para atravessar. Não reparei bem. Devia estar distraída com certeza. Vai daí o barco foi mais ou menos a direito e aportou do lado de lá. Num porto de HM. Chamava-se Trump’s. Azar. Apaixonei-me pela mulher mais bonita do mundo. Que ficou presa na beleza dos meus 18 anos de primeiro ano da faculdade de medicina. As probabilidades de sucesso para nós eram ínfimas. Confirmou-se.

 

Foi uma paixão que nos tomou. A nossa vida resumia-se a fazer amor sempre que possível. Ou seja, sempre. Vida dura, pois. Que endureceu mais um bocado quando ela começou a exagerar com a porra da cocaína. Deixou-me. Não. Deixei-a. Como é evidente. Era isso ou nunca vir a ser médica. Portanto, era isso ou andar metida nos médicos para sempre.

 

Dei por mim a sofrer tanto, que comprei resolutamente um bilhete. Estava interessada em apanhar o barco BI muito depressa.  Para fazer rapidamente a travessia para HT. Logo que aportei procurei a cama do primeiro homem civilizado que me apareceu. Adormeci a meio do sexo porque estava cansada. Foram apenas uns segundos, espero. Ainda hoje não estou bem certa. Quando abri os olhos, o tipo estava a chorar. Pensei que não me faltava mais nada. Um homem a chorar! Eu a querer pirar-me das tipas e vem um gajo chorar só porque eu adormeci durante a penetração. Fiquei indignada com a vida.

 

Mas creio que, de certa forma, namorámos. Ele oferecia-me túlipas. E dizia coisas engraçadas. Resolvi ficar menos de meia dúzia de meses. Muito menos. Para aí um par foi o que fiquei. Cama só mais uma vez. E só porque tinha de o compensar. Não queria traumas da masculinidade. Por causa da disfunção sexual. Coitado. Podia vir a sofrer disso mais tarde.

 

Retornei depois a um amor adolescente. Fui para a cama com o meu primeiro namorado. O João. Um homem lindo. Masculino. Que entretanto já estava casado. Mas tinha de ser. Primeiro porque os homens sensíveis e amaricados são insuportáveis. Piores do que as mulheres. Muito piores. Dão túlipas às pessoas. Depois porque nunca tínhamos feito aquilo a sério.

 

Foi tão bom como com uma mulher. Jamais esquecerei essa noite inesperada. Aconteceu no meio de um passeio junto ao rio. Não era inédito passearmos junto ao rio e conversarmos imenso. Uma ironia que não posso deixar de assinalar. Ficámos cúmplices para sempre desde o nosso passado e gostávamos um do outro como de ninguém. Ainda hoje é assim. Sem sexo, obviamente.

 

Porém, naquela noite, foi a noite toda no meio da rua. Em vários sítios. Dentro de um contentor inclusive. Não me cansei. Não adormeci. Amei-o. No dia seguinte, estava esgotada. Não tinha mais emoções para ele a esse nível. Não me apeteceu repetir. Dei por mim vazia. Não sei porquê. Ser tão bom como com uma mulher talvez tenha sido também o problema. Sem querer, ele ofereceu-me o bilhete para mais um passeio pelo rio. Faz sentido.

 

Durante algum tempo, a minha vida foi o rio BI. Com mulheres tinha casos de namoro. Com homens sexo apenas. Observe-se que, a partir de então, os regressos eram sempre a HM e nunca mais a HT. Com todos os homens tinha que sair a meio da noite. A coisa acabava, e lá vinha a minha frase clássica. Tenho de ir. Era muito curioso. Ficavam invariavelmente com aquela cara de mulher usada. Paciência. Não me apetecia acordar para um pequeno-almoço cheio de intimidades. Nunca repeti com o mesmo.

 

Com mulheres não é possível fazer sexo sem um envolvimento. Mete nojo. Com homens, tudo é possível. Sobretudo sexo sem complicações. Quero dizer, é muito melhor fazer com um homem de quem não se gosta do que com uma mulher nas mesmas circunstâncias. Mas quando a paixão me toma, sou sempre tomada por mulheres. E, neste caso, o bom que é não tem comparação. A verdade é que, depois do João, nunca mais foi tão bom com um homem como com uma mulher.

 

Aqui chegada, verifiquei que afinal já tinha vivido com três mulheres seguidas e não ia com um homem para a cama há mais de uma década. Nem me apetecia. Ora, ora. HM. Pois então. Era o plano onde se situava a minha vida afectiva. Logo, a minha orientação sexual.

 

Tratei de resolver isto com um terapeuta. Conseguir aceitar. Era fundamental para a minha estabilidade. Ainda acreditei que chegássemos a um resultado diferente. Porém, não. Era HM. Ponto final. Acabei por ficar tão segura disto que me é possível agora olhar calmamente para o rio e ver os barcos a passar.

 

Na minha opinião as mulheres são chatas. Sou homossexual. Nada a fazer. Mas as mulheres são chatas. Nada a fazer igualmente. Não me entendo dentro daqueles planos de emotividade falseada. Ciúmes, cenas, perguntas, subvalorização do intelecto, incapacidade de teorizar. As mulheres que eu tive a sério gostam da ideia dos mineiros chilenos presos a 700m da superfície. Socorro!

 

Admito a culpa. Talvez tenha escolhido pessimamente. Não sei. Estou para ver. A questão é que, agora que conquistei a calma de saber quem sou, gosto de olhar para os homens. Admiro-os. Pela simplicidade de processos no estar na vida. A honestidade. Também sei que há muitos tão sexy como o João. Não me importava nada de dar mais um passeio de barco. Porque as mulheres não me impressionam nada neste momento. Ir a BI para voltar a HM. Penso que é assim que as coisas se passam.

 

Em conclusão, não existe a bissexualidade. A terra firme da orientação sexual é a heterossexualidade ou a homossexualidade. A bissexualidade é um passeio de barco que nos faz bem para arejar ou para nos recompormos. Podemos fazer a viagem sempre que quisermos. Normalmente, ela acontece quando precisamos. Mas, como disse, não tem consistência. Porque as coisas não se passam em terra firme. Não é possível passar a vida toda a bordo de um barco que flutua. Nem para um marinheiro experiente.

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