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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CEGA


Cat2007

07.02.11

 

 

Vim para um concerto. Mas ainda faltam alguns minutos para começar. Os espectáculos raramente começam a horas. Sou totalmente contra isto. Não vejo nada. Entrei aqui nesta sala para esperar. Está cheia. Para mim, muito menos cheia do que para quem vê. Não tenho a impressão das imagens nos olhos. As pessoas têm o tamanho do que dizem. Por isso são muito mais pequenas. Ocupam muito menos espaço. Esta é uma das grandes vantagens de ser cega. O espaço vital. O meu. Raramente o sinto ameaçado. Sei que as pessoas que vêm se sentem ameaçadas. Com falta de espaço. Sei porque estou sempre a ouvir o que dizem. Não vendo, concentro-me apenas nos sons e nos cheiros. É este o meu modo de sociabilizar. Normalmente as pessoas não falam muito comigo. A deficiência. Sou apenas cega. Mas, por alguma razão, parece que também sou deficiente mental. Acredita-se que não percebo bem os assuntos. Mas isso é um ponto. O ponto injusto. O outro é justo. Não posso falar daquilo que não vi. Sei que os assuntos dominantes se referem ao que se vê. Não, não vi o jogo. Não, não vi o filme. Não, não sei como é a Soraya Chaves. Não, não posso dizer se o Renato Seabra tinha condições para “vencer no mundo da moda”. Não. Comigo não se pode falar daquilo que é só visto. Percebo que não se queira conversar com alguém limitado naquilo que pode saber. Finalmente, evita-se falar comigo por causa do trabalho que pode dar. É o medo de ficar com os movimentos limitados porque se tem que ajudar uma pessoa com limitações. A subir a escada. A descer a escada. A ir. A vir. A respirar. A perceber. Na verdade, não preciso de ninguém para viver sem perigos ou enganos. Tenho o meu cão que me orienta. Viver não é assim tão perigoso. Tenho o privilégio de poder entrar com o meu cão em todo o lado. E ficar a ouvir as respirações impacientes. Já contabilizei. Cerca de 80% dos sons que as pessoas emitem são respirações impacientes. É por causa da pressa ou das concessões de simpatia que têm de fazer. Resta-lhes 20% do tempo. Queixam-se um bocadinho da vida, dizem mal dos outros ou tentam seduzir alguém. Não se importam de fazer isto ao pé de um cego porque acham que também é surdo. Noto que os motivos de maledicência nascem todos de impressões visuais. A apresentação. O modo de olhar. A expressão facial. A imagem das pessoas aumenta o espaço que ocupam. Normalmente há atropelos. No fundo, é disto que as pessoas se queixam. De coisas a que não tenho acesso. O concerto vai começar. 

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