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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

SEI DE PUTAS E DE GATAS


Cat2007

14.03.11

 

 

No outro dia perguntaram-me como sabia dizer tanto sobre putas. E clientes, já agora. Bem, leio. Quando se quer saber o que os homens pensam das mulheres, é pegar em alguns autores. Dos melhores aos piores. Do BuKovski ao Henry Miller. O que importa é que sejam misógenos. É só. É só, e a observação. Também se aprende um bocado fazendo as perguntas certas às pessoas. De uma vez que fui ao "Trombinhas" fartei-me de fazer perguntas a uma funcionária muito simpática que se prestou ao desabafo.

 

Agora o Kundera. Já nem sei há quanto tempo li este livro. "A Imortalidade". Inesquecível. E certas passagens dele não se apagam mesmo da minha memória. A que trancrevo já em seguida vem a propóstito.  Porque me contaram há dias que uma certa lésbica tinha uma gata. Nada de novo. Quase todas as lésbicas de um certo tipo têm gatas. E não gatos. Claro. O ar felpudo e aveludado que tudo isto tem, é inenarrável. Não passível de descrição, portanto. Paciência. Mas pior é que há pior. Esta lésbica dona de uma gata afirmava que a sua gata, que até tinha nome de bailarina das "Folie Bergere", era lésbica. 

 

Bem, ouve-se uma coisa destas e é preciso parar para respirar. Uma boa dose de oxigénio no cérebro é uma grande ajuda para arrumar as ideias. De ideias arrumadas respondi: "Não há gatas lésbicas. Há gatas de lésbicas". E, já agora, as gatas não têm culpa nenhuma dos nomes que lhes dão.

 

E posto isto vamos lá às gatas do Kundera:

 

"No nosso mundo em que todos os dias aparecem cada vez mais caras cada vez mais parecidas umas com as outras,não é fácil para o homem a tarefa de querer confirmar a originalidade do seu eu e convencer-se da sua inimitável unicidade... O método de Laura... para o seu eu mais visível, mais fácil de captar, para lhe dar mais espessura, acrescenta-lhe sem parar novos atributos,com os quais tenta identificar-se (correndo o risco de perder a essência do eu, sob a camada desses atributos adicionados).

 

Tomemos o exemplo da gata. Depois do divórcio, Laura ficou sozinha num grande apartamento e sentiu-se triste. Quis partilhar a sua solidão,que mais não fosse com um pequeno animal. A sua primeira ideia foi arranjar um cão, mas rapidamente compreendeu que um cão exigia cuidados que ela não estava em condições de lhe prodigalizar. Por isso arranjou uma gata. Era uma grande siamesa, bela e má. À força de viver com ela e de falar dela aos amigos, acabou por conceder a essa gata,escolhida quase ao acaso e sem grande convicção (porque afinal de contas, ela começara por querer um cão!), uma importância sempre crescente: gabou por todo o lado os méritos dela, obrigando toda a gente a admirá-la. Viu na gata a bela independência, o orgulho, a liberdade de atitude e a permanência de um encanto (muito diferente do encanto humano, que alterna sempre com momentos de falta de jeito e de desgraça); viu um modelo na sua gata reviu-se nela.

 

Não importa saber se, pelo seu carácter, Laura se parece ou não com a gata,o importante é que ela a desenhou no seu brasão e a gata se tornou um dos atributos do seu eu. Tendo vários dos seus amantes mostrado à partida a sua irritação perante aquele animal egocêntrico e malevolente que, por tudo e por nada, se punha a soprar e a arranhar, a siamesa transformou-se no teste do poder de Laura,que parecia dizer a cada um deles: ter-me-ás,mas tal como sou na realidade, quer dizer com a minha gata. A gata era a imagem da alma dela, e o amante devia começar por aceitar essa alma se queria depois possuir o seu corpo".

 

Creio que agora se compreende o raciocínio lésbico daquela lésbica quanto à sua gata que,  tanto quanto sei, também era má. Coitadas das gatas, ainda que más. É o que me resta dizer.

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