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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

“BRASIL MOSTRA A TUA CARA” Parte I


Cat2007

10.04.11

 

Os terráqueos ricos são uma espécie rara no planeta. Embora não em vias de extinção. Porque têm ao seu dispor todos os meios necessários para assegurar a sua própria continuidade. Ao contrário do lince ibérico, por exemplo, que precisa que alguém de fora se encarregue do assunto. É a diferença entre as espécies raras ameaçadas e as que não o são. Portanto, a raridade pode ser uma desgraça ou um privilégio. E por tudo isto e mais alguma coisa, os ricos pertencem a uma elite. Coisa que os pobres admiram e respeitam muito. Digam lá o que disserem.

 

O instinto de sobrevivência nas crianças está sempre a postos. Não admira. São demasiado frágeis. Precisam de quem as proteja. Há uma consciência do significado do “estar por baixo” em cada criança. Nestas condições, aproximam-se dos que lhes parecem fortes e desprezam os que lhes soam a fracos.

 

Mais uma vez e sempre (que me seja preciso) o Charles Bukowsky. O escritor americano filho de imigrantes alemães nascido no tempo de uma Alemanha desfeita que vomitava sem opção gente para o “Novo Mundo”. É a vida. “Ham on Rye”, o livro a que me refiro. É de ler. Apanha-se pelo menos uma náusea no mínimo enriquecedora. Um outro modo de ficar menos pobre. Lá está.

 

Henry é um puto imigrante pobre de um bairro pobre. Frequenta uma escola de putos como ele. Pobres. Muitos também produtos do vómito de países europeus caídos em desgraça na altura. Os outros são americanos da gema igualmente pobres. Na verdade, crostas caídas das feridas da Europa colonialista. Pobres americanos da época. Tão pobres como milhões de americanos são hoje em dia. E serão. Na maior potência económica, tecnológica e militar do mundo. Um mundo onde os pobres existem por todo lado. E são em número assombroso. A Terra é um planeta de pobres. Pois. Foi o que comecei por dizer. No entanto, parece que todos os pobres se recusam a aceitar este facto e nenhum rico o reconhece.

 

Henry e o resto dos putos referidos eram espancados quase diariamente nas suas próprias casas pelos seus próprios pais. Adultos frustrados por lhes terem roubado algures na vida os sonhos de criança esmagavam o corpo e a alma dos seus próprios filhos pequenos dentro das suas próprias casas. Sem razão e sem desígnio aparentes.

 

Henry não levava guarda-chuva para a escola. “Havia quase sempre porrada. Os professores pareciam não saber de nada. E havia sempre problemas quando chovia. Qualquer rapaz que trouxesse um guarda-chuva para a escola ou usasse uma gabardine era logo posto de parte. A maior parte dos pais era demasiado pobre para comprar essas coisas. E quando o faziam, nós escondíamo-las nos arbustos. Se alguém era visto com um guarda-chuva ou com uma gabardine era logo considerado um mariquinhas pé-de-salsa. Levavam porrada depois das aulas”. Pois. A pobreza é difícil de engolir e não é bonita de se ver. A consciência do ser pobre é pessoal e envergonhada. O esforço vai todo no sentido da inconsciência. Se fosse possível não comparar, se não existissem ricos, esta espécie de inveja sem esperança talvez nem chegasse a doer. Os pobres têm nojo dos pobres e, quando ainda não chegaram ao ponto em que já estão passados da cabeça e desatam a fazer merda, têm muita consideração invejosa mas subserviente pelos ricos. Os putos mais fortes da escola de Henry espancavam os mais fracos na mesma medida e ritmo que apanhavam em casa. A riqueza aqui era a força e a destreza desportiva. Era o que se podia arranjar.

 

Bom, posto isto, vamos ao Brasil. "Portugal? País simples, de gente simples, não muito esperta, não muito coisa nenhuma". Pode ler-se na Pluma da Clara Ferreira Alves, citando um Augusto paulista que afirma com toda a seriedade que consegue arranjar (ou seja, toda a que tem) que "Dilma é uma intelectual". Clara, por seu lado, escreve a crónica e ri-se. Vê-se claramente o riso no texto. Lá para o meio refere um facto. "os portugueses gostam de dizer mal dos portugueses mas irritam-se quando os outros dizem mal deles (os judeus) também".

 

Para já deixo a letra da música que a "máiorrr cantôra do bráziuuu" debita enquanto se desnuda e muito bem, digo eu. Porém, os seios podiam ser mais bonitos. Já cá volto.

 

"Não me convidaram/Pra esta festa pobre/Que os homens armaram/Pra me convencer
A pagar sem ver/Toda essa droga/Que já vem malhada Antes de eu nascer...

Não me ofereceram/Nem um cigarro/

Fiquei na porta/Estacionando os carros
Não me elegeram/Chefe de nada/O meu cartão de crédito/É uma navalha...

Brasil! Mostra tua cara/ Quero ver quem paga/Pra gente ficar assim
Brasil! Qual é o teu negócio?/O nome do teu sócio?/Confia em mim...

Não me convidaram/Pra essa festa pobre/Que os homens armaram/Pra me convencer
A pagar sem ver/Toda essa droga/Que já vem malhada/Antes de eu nascer...

Não me sortearam/A garota do Fantástico/Não me subornaram/Será que é o meu fim?
Ver TV a cores/ Na taba de um índio/Programada/Prá só dizer "sim, sim"

Brasil! Mostra a tua cara/Quero ver quem paga/Pra gente ficar assim
Brasil! Qual é o teu negócio?/O nome do teu sócio? Confia em mim...

Grande pátria/Desimportante/Em nenhum instante
Eu vou te trair/Não, não vou te trair...

Brasil! Mostra a tua cara/ Quero ver quem paga/Pra gente ficar assim
Brasil! Qual é o teu negócio?/O nome do teu sócio?/Confia em mim..."

 

Com a devida vénia aos excelentes Cazuza, autor, e Gal Costa, grande cantora. Sem grandes mas com as devidas  irritações, despeço-me com um até já.

 

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