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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

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"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

O QUE É SER MULHER, Teresa Pinto?


Cat2007

02.06.11

 

 

 

Esta pergunta faz-me todo o sentido. Porque não sei o que é. E também nunca vi explicado em nenhum lado. Sou mulher. Mas não devia saber. O que é. Preocupa-me a necessidade de dizer que gosto de ser mulher sem saber aquilo que gosto. Gosto de fundamentos e justificações. Preciso deles, aliás. De outro modo, formam-se-me nós no cérebro que me fazem perder o pé.

 

É fundamental gostar de ser mulher quando se é. Uma mulher tem que gostar de ser mulher. Senão vai viver consumida pela obrigatoriedade do agir em conformidade com o desprazer. Assumir e ser o que não se gosta.

 

Houve tempos em que não gostava de ser mulher. Tinha razão. Tudo é mais difícil para nós. Digo nós. Reparo que escrevo por prazer e sobretudo para mulheres. Deve ser porque sou mulher e as coisas saem assim instintivamente.

 

O que é ser mulher? O que é ser homem? A pergunta é a mesma. Com a diferença que cada um se preocupa com o género a que pertence. Não me interessa neste momento saber o que é ser homem. Nem para muleta. Uma ajuda para dizer que ser mulher é o contrário de ser homem. Um artifício que nem lógico é. Não creio que descubra o que é ser mulher por aqui. Portanto, não vou por aqui. Quando olho para uma mulher nem preciso de ver um homem para dizer que é uma mulher. Por isso é que não digo que uma mulher não é um homem. Embora seja absolutamente verdade.

 

Lembro o soneto do Camões, “Amor ”. Vou transcrever. “Amor é fogo que arde sem se ver/É ferida que dói e não se sente/É um contentamento descontente/É dor que desatina sem doer/É um não querer mais que bem querer/É solitário andar por entre a gente/É nunca contentar-se de contente/É cuidar que se ganha em se perder/É querer estar preso por vontade/É servir a quem vence, o vencedor/É ter com quem nos mata lealdade./Mas como causar pode seu favor/Nos corações humanos amizade, /Se tão contrário a si é o mesmo Amor?”. Andava no 10.º ano e era tão ingénua que quis acreditar que Camões teve o génio de definir o amor. O que é o amor. Afinal, vendo bem, alertada pela professora, o que o homem diz é que não sabe o que é. Relata apenas o que sente quando se apaixona. E no fim declara uma rejeição ao sentimento. Porque o considera contrário à humanidade de cada um de nós.

 

Creio que dar o conceito de mulher tem mais ou menos a mesma dificuldade. Pelo menos a meu ver. Sucede que preciso de tentar. E tento com a esperança que a minha estupidez agita. Não chegarei a lado nenhum. Mas vou na mesma. Não importa. Também já compreendi que a vida é feita de inutilidades, vazios e tédios. Que ocorrem apenas para nos distrair das pequenas coisas importantíssimas. A ver se a gente passa ao lado delas.

 

Mas as mulheres são tão diferentes umas das outras. Apetece começar a construir o conceito pela abordagem física. Porque é mais fácil. É um processo de raciocínio tipicamente infantil. Tem aquela simplicidade dos não baralhados com a maturidade e os “problemas da vida”.

 

As mulheres não têm. As mulheres não têm barba nem pêlos no peito. As mulheres não têm músculos. As mulheres não têm pénis. As mulheres não têm altura nem largura. As mulheres não têm a voz grossa nem coragem física. As mulheres têm. As mulheres têm a pele macia e depilam-se nos poucos pêlos que têm. As mulheres têm tecido adiposo. As mulheres têm mamas e um sexo com um nome detestável para quem é assim da sensibilidade. As mulheres têm o corpo pequeno e delgado. As mulheres têm uma voz suave e atitudes delicadas. As mulheres sentem-se atraídas pelos homens e têm muito jeito para as tarefas domésticas e para educar os filhos na parte em que é preciso mudar as fraldas e dar-lhes de comer. As mulheres não são devidamente consideradas no mercado de emprego e para os cargos políticos.

 

As mulheres têm e não têm algumas das coisas que acabei de dizer. E de tudo o quanto fica dito apenas é certo que todas as mulheres têm em comum uma vagina. Como todos os homens têm um pénis que os une.

 

Então ser mulher é ter uma vagina? E uma pessoa gosta de ser mulher por causa disso? Sim. Ser mulher é uma biologia e uma química. O físico e as hormonas. Nasce-se com um determinado tipo de físico e carregam-se as consequências boas e más da acção de um complexo hormonal típico. Depois vive-se com isso. No processo de interconexão entre a vida que corre e a biologia surge um produto novo. Uma mulher. Uma mulher não gosta de ser mulher porque é mulher. Uma mulher gosta de si e por isso gosta de ser a mulher que lhe aconteceu. Mas basicamente é uma pessoa que gosta de si. Um ser humano. Como um homem.

 

Bom, e agora faz-me sentido declarar para quem interesse que a Teresa Pinto é a minha imagem e sou eu quem a escreveu. A mim interessa. Uma pessoa que gosta de si não gosta de ser hipócrita.

 

Nº 358 10 Mar  a 16 Mar 2011

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