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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

EU NA BASE DA INCONSTÂNCIA


Cat2007

30.01.11

Pois já estou cansada de abrir isto e ver aqui os meus amigos mais os seus "interessantes" episódios gastronómicos. Sou assim obrigada a meter aqui qualquer coisa.  Para mandar o post dedicado para baixo.

 

É assim a inconstância. Só sou constante naquilo que verdadeiramente importa na vida. Pelo contrário, altero a disposição e os apetites quase ao mesmo tempo que mudam as marés. Se calhar é porque sou do signo Caranguejo. Mas acho que não porque não acredito nessas coisas. Astrologia. Não me convence. Já o disse. Sei isto porque nunca me lembro das predições dos oráculos e pronto.

 

Bom, posto o que antecede, acho que será compensador meter por aqui uma fotografia minha e dizer: EU!!! Epah! Andava a passear pelos ficheiros do meu computador e encontro esta pateta distraída com uma cicatriz enorme no joelho.

 

  

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Agora vou introduzir uma musiquinha de que me andei a lembrar o dia todo. Apetece-me.

 

 

 

 

DITADURA


Cat2007

21.01.11

 

Sou contra a regra. Nunca contra-regra. Só vale a minha regra aqui. Na minha via. Portanto, sou contra a regra dos outros. Só acredito nas regras dos outros em que eu acredito. Essas são boas para mim. Sei muito bem que não se pode viver sem regras. Aceito. Mas tenho uma postura minimalista. E sempre que descubro um espaço desregrado, lá estou eu a colocar as minhas regras.

 

O meu desejo deve ser o poder. Só pode ser isso. O desejo de decidir. Deve ser o desejo do poder para evitar a subjugação. Como se o jogo fosse assim. Uns mandam e os outros obedecem. E isto não é verdade. Onde está o equilíbrio concedido pela filosofia democrática de vida? A democracia stinks.  Porque temos todos que andar na linha.

 

A ditadura é bem melhor. Mas só para quem dita. Se se dita alguma coisa, é muito bom. Discutir posicionamentos dá enormes dores de cabeça. Toda a gente quer afirmar aquilo que não lhe interessa verdadeiramente. Todos andam a ver se se integram em alguma coisa pequena e no contexto global. Como se apontassem armas ao chão e dessem sucessivos tiros nos pés. Admira-me como ainda se vendem sapatos.

 

Ditar é que é bom. Os professores da primária ditam imensos ditados. Lembro-me de desejar ditar os ditados que me ditavam. Sempre compreendi que era mais fácil. Até porque eu sou canhota. É mais difícil escrever depressa e bem quando se faz com a mão esquerda. É sufocante ser ditado. Principalmente na escola primária. Escrever depressa, bem e sem erros. Conseguia. Eu conseguia. Mas não gostava. O que eu queria era corrigir os ditados. Depois de os ditar. Está claro.

POR AMOR DE UMA MULHER


Cat2007

23.10.10

 

 Não sei se toda a gente precisa de referências na vida. Assim para se guiar. Coisas de que se vá lembrando de vez em quando. Quando de quando em vez dá por si parado. A reflectir. Eu preciso de guias de reflexão. Actualmente, e desde há uns anos, que tenho duas referências fundamentais. Duas pessoas que não são pessoas, são um conjunto precioso de valores morais e éticos, de inteligência e de capacidade de sobreviver, de conhecer a dor e de perceber o que significa a felicidade. Duas pessoas que são pessoas. Pois são. Dois seres humanos muito diferentes um do outro. Porém unidos dentro de mim por uma caracterisitca comum. Uma invulgar capacidade de ser humanitário.

 

Falo do António Victorino d'Almeida. De um amigo. De quem não vou falar agora. Ficará para depois.  É um sobredotado. Não é fácil falar duma complexidade destas, tendo em conta a simplicidade com que aparece. Igualmente, o tema que agora me motiva não está directamente relacionado com as referências que este homem personifica.

 

A outra é uma mulher. Chama-se Lúcia Esaguy Simões. Uma senhora! Não é uma amiga no sentido comum do termo. Mas há um laço de apreço profundo que me liga a ela. Talvez para sempre. Foi uma sorte termo-nos cruzado um dia na vida. E ainda no outro dia nos encontrámos. Sempre que isto acontece, acontece algo dentro de mim que me deixa comovida. Creio que é a admiração. Podemos comover-nos até às lágrimas quando admiramos uma pessoa. Porque há um nível de admiração que roça o amor.

 

 Na primeira vez que a vi recebi um impacto que silenciou tudo dentro de mim. E me obrigou a olhar para ela. Só para ela. Bastou entrar. Ia falar. E mal começou, emergiu  o puro poder. Aquele que não é solicitado. Aquele que não é concedido por terceiros. O poder que existe dentro do ser que foi capaz de o inventar e de o exercer sem pedir ou perguntar nada a ninguém. É um poder muito poderoso porque é interior, como disse. Porque vem do ser. Um poder assim está coberto de humanidade e por isso é bom. Perante ela foi possível desmascarar imediatamente um enorme conjunto de gente mesquinha. Creio que é fácil perceber porquê. Os que são apenas fracos também não conseguem conviver com ela. Com a Esaguy. Todos têm medo. Os mesquinhos e os fracos. E nem sabem bem de quê.

 

Certo dia, em conversa demorada confessou-me várias coisas e fez duas declarações em português abrasileirado. Foram muitos anos a viver lá. "Você muda, sim. Quando você precisa" e "Sempre encarei as dificuldades como oportunidades".

 

"Mas uma pessoa não muda aquilo que dentro de si é estrutural". Debatia-me eu. E ela: "Mas é disso mesmo que eu estou a falar. Da mudança interior. Na alteração da sua estrutura. Se Você precisa, você muda". O meu cérebro ficou vazio de todas as ideias. Tinha que ouvir a história. Compreendi que ilustrava a experiência que a obrigou a mudar estruturalmente num aspecto da sua estrutura. Algo que não estava bem integrado em face das circunstâncias com que a vida a confrontou. "Se você não muda, você morre.". Ela mudou. Pediu ajuda especializada. Fez um esforço alucinante. E mudou. Com esta mudança, primeiro, sobreviveu e, por fim, venceu.

 

"Mas existem determinadas dificuldades que podem ser insuperáveis". Continuava eu. Já não me debatia. Estava só a dar o mote. "Nenhuma dificuldade da vida, e não da morte, é insuperável. O que está à sua frente é um desafio à sua capacidade de superação. Você tem que vencer esse desafio porque, no final, você se transforma numa pessoa muito mais capaz". Abri muito os olhos para ver com detalhe um capítulo de vida que me ia ser apresentado. O filme rodou.

 

No fim, relaxei o meu peso sobre a cadeira. Estava contraditoriamente esmagada e viva. Quase tão morta, que pude ver uma luz incomum. Que me apelava em direcção a um estado de tranquilidade de que eu jamais ouvira falar. Deixei-a com as minhas mãos carregadas de instrumentos de trabalho para a vida. Que não pesavam. Sem querer, aquela senhora obrigou-me a rever muita matéria dada, mas mal apreendida. Conscencializei-me logo ali.

 

Porém, nada na minha vida tem efeitos imediatos. Não sei se é por estupidez pura. Pode ser apenas porque sou lenta a agir. Antes de mais nada, tenho que pensar, pensar, pensar... Trouxe nas mãos  um segredo. Não o usei até chegar à beira do abismo. E foi neste lugar que ouvi de novo. "Você muda porque precisa". Toquei os meus olhos encharcados. Apertei as minhas mãos feridas e sujas. Meti os dedos dentro dos buracos das calças nos joelhos. Senti o ardor da carne dilacerada pelos dentes que imaginei que a solidão tinha. Mudei! Na estrutura. Mudei! Agarrei-me à camisa branca da dor para a sujar e ser levada no seu embalo. Para me dar a oportunidade de ser, primeiro, uma pessoa mais capaz e, depois, um ser humano capaz.

 

 

Ando até hoje a tentar adaptar a minha capacidade de sofrimento. Quando sinto que estou a perder-me de mim, olho. "Estou a precisar de mudar alguma coisa séria?", pergunto-me. "Isto é alguma oportunidade, dada a dimensão das dificuldades", questiono o silêncio exterior a mim. E faço sempre alguma coisa. Mas ainda não estou boa nisto, confesso. Embora me encontre muito melhor, admito.

 

Sei muito bem porque a reconheci imediatamente. Àquela senhora. Eu entendo bem porque entendi todos os detalhes das histórias que me contou. Na verdade, contou-me a história da sua vida. Não me escapou a nuance mais densa. Sem arrogância digo que também tenho o poder de inventar o poder. Porém, o meu poder ainda me consome. Parece que não gosto dele. Obriga-me a lutar. E eu que tantas vezes só quero fechar os olhos e dormir. Na cama. Como se estivesse no útero.

 

É esta armadilha chamada carência afectiva que me afasta do senso de mim desde que me conheço. A grande diferença, é que esta espécie de alucinação já não caminha nas minhas costas. Eu virava-lhe sempre as costas para fingir que ela não existia. Hoje procuro olhá-la permanentemente nos olhos. Para a repelir. Na maior parte das vezes, consigo. Mas há momentos em que não. A carência volta a acertar o passo nas minhas costas.

 

Ainda muito recentemente vivi um desses momentos. Horas de inventar personalidades maravilhosas em corpos atraentes. Quando nem sequer sei ao certo um nome. Quando nem reparo bem num corpo. Mas eu mudei! Já há algum tempo que mudei, como disse. Peguei na carência pelo colarinhos e arrastei-a para a minha frente. Olhei-a bem de frente. Nos olhos. E empurrei-a para o chão. Virei-lhe as costas já indignada. Ficou lá estendida sem se atrever a seguir-me.

 

Na verdade, não importa o que os outros querem, dizem, fazem ou são. Na verdade, o que importa é a nossa própria integridade. A prática constante daquilo que verdadeiramente somos. Se somos. O discurso-referência da Lúcia Esaguy Simões é, em síntese, de integridade. Através do fenómeno do reflexo do espelho, verifico que sou uma mulher integra. Tenho orgulho nisto.

 

Muito obrigada.

 

SÓ PENSO EM MIM


Cat2007

10.10.10

 

Não há dúvida que escrever é preciso. Muda sempre alguma coisa. Por vezes o peito enche-se. Não sei se é de de mágoa. Não sei se é de raiva. Não sei se é de confusão. Não sei se é de angustia. Não sei se a angústia é tudo isto. Quando o peito não se enche estamos bem. Isto é só uma constatação de um fenómeno físico que nos acontece. E os fenómenos físicos são o nosso barómetro mais fiável. Ou seja,  o corpo é que sabe. Toda a gente sabe. Portanto, desconfio de afirmações como "o meu peito encheu-se de alegria". Não. Porque o peito está mais leve. Se está mais leve, não pode estar cheio, mas vazio ou a caminhar para isso.

 

A importância das coisas importantes da vida quanto vale no seu todo? Em que estado ficarão as nossas coisas importantes face à realidade espelhada no Orçamento do Estado ou na intervenção do FMI ou por causa de ambas as coisas? O que é importante? São as aquisições, as procissões, as exibições, as representações e as apresentações? O que me importa pode ser medido em função do PIB?

 

O que é importante para mim? faço esta pergunta a partir de um ponto em que me encontro descentrada de mim mesma. Pouco interessada nos meus interesses de consumo imediato. E lembro que dentro deste conceito de consumo imediato cabe o sexo, ou o amor, ou outro tipo de afecto ou lá o que se queira chamar aos fenómenos. O que é importante para mim? Faço a pergunta a pensar exclusivamente em mim. É assim que funciona. Embora pareça estranho. O que é importante para mim é uma questão universal que para o ser efectivamente deve ser colocada por cada um de nós. Por todos nós. E assim se atinge a universalidade. Cada pessoa a perguntar: "o que é importante para mim?".

 

Está errado por princípio questionar sobre o que é importante para os outros. E também está errado pelos princípios. Quando queremos saber dos outros antes de saber de nós raramente estamos de boa fé. Sustento esta afirmação com o instinto de sobrevivência. Uma pulsão natural que nos leva sempre a fazer as coisas mais correctas à luz dos princípios. E parece até que moral e instinto nada têm a ver. Mas têm. Com efeito, existe uma Lei Natural que rege todas estas coisas. De forma que tudo se encaixa. Nenhum ser humano mal preservado tem capacidade ou qualidade para partilhar positivo. Só negativo. Por vezes, meio negativo e meio positivo. Mas o meio negativo e o meio positivo não existem. Só a dúvida. A dúvida sobre a bondade de alguma coisa faz dela automaticamente uma coisa má. O bom não é meio nem mais ou menos. É bom. Se não é bom é mau. Por exemplo, uma casa mal construída será sempre uma má casa. Não é aceitável que se diga "é uma casa com um bom quintal, mas tem um mau telhado e uns péssimos esgotos. Embora, as paredes sejam muito sólidas. Assim, é uma casa mais ou menos boa". Ninguém quer uma casa mais ou menos boa. Mesmo que tenha uma grande área. O bom e o mau estão relacionados com a utilidade e a expectativa que as coisas podem dar às pessoas.

 

Quem quer dar o que não tem só pode estar a querer enganar os seus visados. As boas intenções são suportadas por capacidades sólidas. As boas intenções irritam qualquer um porque são mais um modo de tentar obter satisfações pessoais. Dar não pode ser um acto pensado nem com especificas motivações. Dar é uma pulsão natural do ser vivo que está bem. Dar a voz. Dar o olhar. Dar a pele. Dar o suor. Dar o ombro. Dar a mão. Dar o tempo. Dar por instinto. Não há outra forma efectiva e util de dar.

 

O que é importante para mim? O que me lava a angustia? O que me faz sorrir porque respiro na plena capacidade dos meus pulmões soltos? Sorrir a sério talvez seja a maior das dádivas. Pela boa energia que instala. O Orçamento do Estado e o FMI tiram-me a capacidade de sorrir? Em caso afirmativo, o caminho que tenho a percorrer ainda é longo. Se falo do Orçamento do Estado e do FMI é porque nem por sombras são para aqui chamados mas estão na ordem do dia. Procuro ser actual, portanto.

 

O consumo. O consumo engorda. Ponto final. As pessoas querem dar e receber coisas de consumo. Por aqui medem o nível da generosidade do mundo. E depois admiram-se que se vejam envolvidas numa teia de relações de interesses que em nada satisfaz as suas necessidades ou, quando satisfaz, cria outras piores. Coisas que ninguém estava à espera. O antidepressivos, por exemplo, são coisas que os seus actuais consumidores não estavam à espera de ter de consumir. O médico deu a receita. O doente pagou a consulta. O doente nunca pensou que um dia ficaria assim doente.

 

Na verdade, o nivel d consumo necessário também se mede pelos indicadores fornecidos pelo instinto de sobrevivência. Tudo o mais que precisamos são valores. Quem não percebe isto, não vive, inventa fantasias tão letais como as SCUTS.  instinto de sobrevivência manda essencialmente adquirir valores. A justiça, a lealdade, a verdade, a honestidade, o esforço, o trabalho. Os valores encaminham-nos para a paz pessoal. A paz pessoal liberta-nos os pulmões para nos abrir o sorriso. De sorriso aberto podemos dar tudo o que temos. Porque tudo o que temos pode ser dado sempre e a todos sem nunca se gastar.

  

 

 

 

 

PROBLEMAS COM A IMAGEM?


Cat2007

25.08.10

 

 

 

Em nome das pessoas criativas cuja especial característica, a criatividade, deve ser preservada. Começo a pensar que os computadores deviam ser proibidos nos locais de trabalho uma vez atingidas as 3 horas  consecutivas de uso. Até ao fim do dia, as pessoas verdadeiramente criativas não estariam sequer autorizadas a olhar para o computador. O trabalho seria sempre suportado em papel. Para ler e analisar. Quanto à necessidade de escrever, todas as pessoas realmente criativas deviam ter uma secretária ou um secretário para o efeito. O efeito de escreverem no computador e olhar para o monitor com imensa atenção.

  

Para as pessoas mesmo criativas o computador deveria ser usado apenas em casa e sempre por motivos extra profissionais. Só para o exercício da criatividade. Isto para evitar riscos de desgaste. Nas pessoas criativas, evidentemente. Não digo que ser criativo é bom. Para o próprio ou para os outros. Não sei se é. Embora para mim seja. Mas a discussão também não é essa. Igualmente não sei se os produtos de algumas criatividades têm qualquer ponta de dignidade que valha a pena sublinhar. Apenas sei que me prejudica um bocado isto de estar sete hora por dia a admirar as coisas que correm pelo monitor do computador lá do trabalho. Prefiro este meu porque me  mostra coisas que são amigas da minha criatividade própria. O pior é que ao fim de um dia de trabalho quero olhar para tais coisas e custa-me. Portanto, proponho as reformas atrás indicadas.

  

Como as reformas que acabei de propor não têm qualquer chance de vir a ser adoptadas, algo tem que mudar. Ou seja, eu tenho que mudar. Na verdade, adaptar-me a estar mais horas em frente aos monitores. Fazer uma síntese entre este e o de lá. Não é fingir que é o mesmo. É apenas juntar 1 + 1 = a 10 horas de monitor por dia sem prejuízo da criatividade. Tenho então de arranjar mais recursos. Muito bem.

  

No trabalho sou do tipo quanto menos conversa melhor. Não gosto de ter coisas para fazer e levar um corte. Antes de qualquer acto vem um pensamento. Logo em seguida mais um. E mais outro. Entretanto, um conjunto certo de pensamentos, formando um sistema integrado, consolida-se. A partir daqui, podemos agir e fazer. Não quero ninguém a cortar o processo de formação dos meus sistemas mentais. Dá um trabalhão voltar atrás no meu processo intelectual. Que é fino e pormenorizado.

 

Actualmente não tenho pessoas ao meu lado, à minha frente ou atrás. No gabinete. Mas quando tenho, agradeço colegas de gabinete todo o dia calados em relação a mim. Agradeço também colegas de fora do gabinete que entram lá, dão os bons dias e não querem falar comigo. Só aceito com boa cara visitas de trabalho objectivas. Por exemplo, não quero saber dos problemas com as mulheres a dias, com os colégios das crianças e muito menos me interessa o que vai ser o jantar. Eu nunca sei qual vai ser o meu jantar. Talvez até  nem jante e prefira comer chocolate preto.

 

A propósito, no ano passado por esta altura, perdi cinco quilos numa semana. Não. Não estava doente. Só triste. Não estava com boa cara. Veja-se que a imagem é muito importante para nós. A imagem que de nós fazemos, claro. E a que os outros fazem, evidentemente. Tratam-se aqui de aspectos exteriores e interiores.  Será que a Cindy Crawford tem uma boa imagem de si mesma? Em princípio, todos (o resto das criaturas do mundo que sabem ler e não desconhecem que ela existe) temos muito boa imagem dela. O problema é que não dispomos dos dados todos. Também não queremos, com certeza.

 

A imagem exterior, aquela que só é fomentada positivamente por causa dos impactos a causar em terceiros, pode ficar reduzida a nada se toda a gente cegar. Sim, cegar à séria. Não quero dizer nada de especial com isto. Apenas que é verdade. No outro dia ouvi dizer que, num restaurante, serviram a um senhor uma salada feita com folhas de alface recuperadas do lixo da cozinha. O senhor comeu, tendo ficado bastante satisfeito. A imagem do seu prato agradou-lhe, o que teve influência no gosto sentido dos alimentos que ingeriu.

 

 

CORREIO SENTIMENTAL


Cat2007

13.08.09

 

 

Quando era miúda, apareciam lá em casa alguns exemplares da revista "Maria". Sei muito bem que era a mãe quem levava aquilo. Apenas não sei porquê. Não bate com o perfil dela. Simplesmente. Acresce que me descansa muito a certeza de quea mãe não era uma leitora assídua. Nem leitora, sequer. Nunca a vi a ler aquilo. O que também não deixa de ser estranho. De qualquer forma, quase posso jurar que a mãe nunca comprou nenhuma "Maria". Já eu, no turbilhão dos meus 10 anos de idade, poderia comprar todas, assim me dessem dinheiro para isso. Realmente, a mãe não lia, enquanto eu... eu devorava.

 

E fiz muito bem. Aprendi logo uma série de coisas que não queria na vida. Ganhei uma noção mais apurada do ridículo. Percebi que as coisas que não têm importância nenhuma são absolutamente cruciais para a vida da maior parte das pessoas. A "Maria" dirigia-se ao público feminino, todavia era uma revista sobre homens. Não há qualquer tipo de contra-senso nesta afirmação, pelo que me escuso de estar para aqui a justificar-me.

 

A minha secção favorita era "O Diário de Maria". Portanto, o consultório sentimental. Já ouvi dizer que não existem leitoras consulentes, que é tudo inventado nas redacções. Mas não vou acreditar nisso. Não quero perder as minhas ilusões de infância. E porque é que eu lia esta secção tão atentamente? Em primeiro lugar, por curiosidade infantil, claro. Afinal, directa ou indirectamente, sempre se falava ali de sexo. Mas o que mais me agradava era bisbilhotar os dramas das pessoas. Os amores e as paixões, as conquistas, as rejeições, enfim o sexo ou a auto-estima (estão intimamente ligados, como se sabe),  são os maiores dramas da vida das pessoas, se não andam a passar fome ou têm de dormir ao relento.

 

Com a idade que tinha nada disso me perturbava e, portanto, sentia-me imensamente superior. Por não ficar perturbada. Por ser imune. Podia ter desconfiado logo aí que tinha problemas no amor próprio. Mas não dei realmente por isso. Só mais tarde. Quando as paixões dramatizaram completamente a minha existência. Quanto mais baixa é a auto-estima, maior é a importância da paixão.

 

De qualquer modo, o que me fascinava era mesmo a falta de vergonha na cara das pessoas. O que poderia levar alguém a escrever para uma revista a fim de saber o que fazer no âmbito da sua relação amorosa. Algo que, por definição, é totalmente pessoal e privado. Como é possível imaginar que alguém de fora pode dizer umas palavrinhas mágicas e resolver os problemas que os de dentro não conseguem?

 

Da revista "Maria" para a vida, eu acho o fim do mundo aquela coisa de "discutir a relação". O fim do mundo. Desabafar com os amigos. Desabafar? Se as pessoas vão desabafar é porque estão abafadas. Se estão abafadas que peçam a quem abafa o favor de não continuar a abafar. E se o abafador tiver bom senso, desabafa. É simples.

 

Quando uma relação deixa de ser afectada pelo bom senso, pela boa fé, pelo bem querer e pelo crer deixa de existir. Poder até ressuscitar. Mas no momento em que tal acontece está simplesmente catatónica. E ponto. Não há amigo, técnico, consultor sentimental que resolva o problema. Ir falar para a rua é meter tudo na praça pública. É de uma falta de nível inacreditável. Pior, é mesmo falta de respeito pelo outro, ou sendo o caso, mútuo. Quando as pessoas fazem estas coisas já não querem nada. O que querem é que os conselheiros lhes façam companhia na desgraça que já está feita. Quem fala assim não quer resolver nada. Quer é arranjar aliados. Gente para dar o perdão, a compreensão e a companhia. Mutas vezes, também se consegue que esta gente dê também sexo.

 

Pois os conselheiros do sexo. São pessoas que querem fazer sexo com os aconselhados. ou porque querem aquela pessoa especificamente ou queriam outra que não podem comer. Se não é isto, então é pura bisbilhotice ou o gozo supremo de "ajudar" numa matéria onde têm tudo para aprender. Os maiores intrometidos, os ouvintes da boa vontade são os piores frustrados emocionais do mundo. Uma pessoa como deve ser não opina sobre o que não sabe, nem pode saber. Uma pessoa de bem não se mete no quarto de dormir dos outros. Se é procurada para essas fainas, dispensa-se com toda a delicadeza, mostrando a humildade de quem não sabe o que não pode saber. Ninguém normal da moral se deixa usar ou usa para justificar o fim de uma relação que não é a sua.

 

Um amigo atura-nos no fim das coisas. Dá o ombro para chorarmos e procura soluções para o caso. No fim. Depois do fim. Um amigo está para as aflições. Não anda cheio de boa vontade a aprofundar problemas impulsionando rupturas.

 

Para finalizar, falemos das pessoas de boa fé que são procuradas para dar a sua opinião. O seu apoio. Porque não podem elas fazer isso? Porque há coisas na vida de duas pessoas que só elas é que sabem. Questões tão intimas, que são intransmissíveis. Sem estes dados, não é possível ajudar. E estes dados são como disse, por definição intransmissíveis. Quem quiser ajudar uma relação a melhorar, deve abster-se de dar consultas e deve ainda, por uma questão de imperativo moral, sentir-se deprimido por ser procurado para opinar.Eu vejo bem estas coisas. Sempre vi. Graças ao "Diário de Maria". Quando alguém me aborda para desabafar sobre os problemas da relação, eu percebo que a dita está no fim ou perto disso. Sobretudo, compreendo que a pessoa que está à minha frente já não está com a fé toda. Que me quer usar. E fico triste. E digo. Vai para casa. Não posso fazer nada por ti. Toma lá as tuas decisões, boas ou más e aguenta ou goza as consequências. Consequências. Estas não vão nunca sobre os ditos aconselhadores. Só sobre os casais. E as paixões, os amores, os sentimentos, são fodidos.

 

 

AUTOESTIMA


Cat2007

11.08.08

 

 

 

Recordo os terrores da juventude de  Bertrand Russell. Ser adulto apenas não é mais terrível do que podia ser porque já nos falta menos tempo de vida do que outrora faltou (quer dizer, quando tinhamos 10 anos). Com certeza que não vou fazer seguidamente uma declaração suicida. Nem revelar uma depressão funda e incontornável. Vou só afirmar candidamente que viver é uma violência que impõe grande capacidade de adaptação a toda a gente. Embora, talvez, valha a pena. Com efeito, não me consigo imaginar morta. Portanto, isto não passa de uma reclamação. Estou como que a escrever numa espécie de "Livro de Reclamações" inexistente. O que me faz todo o sentido.

 

Estou para aqui a divagar, dizendo coisas vagas. Estou, portanto, a vaguear. Daí o título deste post. Sempre gostei de vaguear. O que é quase o mesmo que vadiar. Desde que me lembro de mim com ideias, sei que nunca desejei nada definitivamente. A minha praia é sempre a outra praia. Preciso das chamadas rotinas de sustentação, e no demais quero tudo sempre a mudar. Gosto de chegar, ficar por um tempo para conhecer a fundo, guardar o essencial e, depois, partir. Isto não é muito diferente daquilo que fazem os empresários modernos. Chegar, criar, especializar, desenvolver e inovar para crescer. Este é mais ou menos o percurso de vida das grandes transnacionais. Eu quero ser uma transnacional porque tenho espírito para isso. Trata-se de acumular património.

 

A auto-estima não pode ser uma realidade estanque. Ninguém está sempre cheio dela. Há quem tenha sempre muito pouca, por outro lado. Eu já fui mais ou menos assim. Já tive pouca auto-estima. Agora penso que isso já não é bem verdade. No fundo, gosto mesmo de mim  e acho que toda a gente devia gostar. Because i'm good.

 

 

OS MEUS PROBLEMINHAS


Cat2007

08.10.07

 

Mudei de casa. Terminei a mudança, quero dizer. Estou definitivamente instalada. Agora não quero mudar mais. Quero ficar ali muito tempo. Na nova casa. Ando a decorá-la cuidadosamente. E estou a gostar.

 

Quando mais decoro, mais gosto. Quanto mais gosto, mais quero lá estar. Quanto mais quero lá estar, menos me apetece sair de lá. Quanto menos me apetece sair de lá, menos quero ir para o trabalho.

 

Não gosto do meu trabalho. Sou jurista. Sou cinzenta. Sou travada. Sinto-me entrevada. A vontade de mudar de vida cresce célere dentro de mim. Vou mudar. Para mais e para melhor. Tenho pressa. E tenho de esperar. Paciência com planos. Calma e cálculo. Cama nas horas livres.

 

O mestrado começa dia 17. Já estou cansada só de pensar o que me vai cansar chegar até lá, sair de lá e fazer o caminho para casa. O durante não me incomoda. O que quero é terminar. Mas é este ano e o outro. Cansa-me ter de me dividir entre obrigações. estou mal habituada. A preguiça toma-me e eu deixo.

 

Sou jurista. Não sou matemática. Nem química. Se fosse encontrava as fórmulas que procuro para mudar para mais e melhor. Mesmo que não fosse mais depressa, que fosse com mais tranquilidade e outro espírito de esperar.

 

Esperar. Não deve haver muito de mais absurdo do que esperar enquanto se faz. Em princípio esperar é parar. Mas, afinal, não é. Esperar é fazer e prosseguir. Esperar é um túnel escuro por onde se caminha sempre a direito, apesar de nada se ver. Em qualquer hora, imagina-se, acredita-se, vai aparecer a luz.

 

AUTO-CRITICA


Cat2007

04.10.07

 

 

Sou uma pessoa impossível. Tenho, como característica mais marcante, um temperamento absolutamente insuportável. Num momento estou a sorrir e aparentemente tranquila como um anjo. No instante seguinte posso estar aos gritos em plenos pulmões. Tudo sobre a mesma questão.
 
O meu grande princípio de vida é ter por princípio não querer ser chateada e chatear as pessoas o mais possível para que evitem sempre chatear-me. Chateio também para me certificar disso.
 

Sou preguiçosa na medida em que só quero fazer aquilo que sei. Porque é mais fácil e sai mais rápido. Tenho permanentemente pressa de chegar ao fim.
 
Em princípio, só me visto bem para os outros verem. Por mim, andava de pijama o dia todo. Fico muito sensibilizada com as boas críticas, embora me incomodem elogios muito directos, do género olhos nos olhos.
 
Sou afectada pelo síndrome do super herói. Tenho a mania de me meter em tudo o que me pareça que é uma causa justa e, ainda, clamo por justiça. Neste aspecto, trata-se precisamente do que disse atrás. Chateio para não ser chateada. As injustiças e as maldades sérias chateiam-me imensamente.
 
Não gosto que me digam o que tenho de fazer. Porque, em princípio, eu não quero fazer nada que interesse muito aos outros. Só quero fazer as minhas coisas porque tenho uma excelente visão de conjunto sobre tudo, além de ser altamente criativa e humana. Sei sempre mais e melhor.
 
Sou arrogante e gosto de mandar no sentido de dirigir. Porque tenho os defeitos acabados de enunciar. Normalmente, os meus projectos são balões de oxigénio em termos da humanidade que entra pelos pulmões das pessoas com o ar.
 

Detesto a disciplina alheia porque desconfio dela solenemente. Na generalidade, as pessoas não falam por si, mas respondem a estímulos de um sistema que não foram elas que criaram. Não gosto disso. Gosto de questionar os sistemas inquestionáveis. Normalmente, é neles que se encontra a raiz dos problemas mais graves que afectam mais gravemente a vida de todos.

 
Sou desconfiada porque compreendo a força do instinto humano de preservação. E não existe animal mais perigoso do que o Homem à face da Terra. Porém, é necessário provocar um bocadinho os outros porque não existe outra forma de expelir a nossa própria agressividade. E temos de aceitar os riscos inerentes.
 

Já dei termo a mais ligações de amor e de amizade fundas do que os amores (no sentido lato do termo) que muita gente alguma vez conseguiu conhecer. E continuo a amar e a fazer-me amar. Continuo a gostar muito daqueles com quem não desejo voltar a estar. E o que me faz pena são os outros. Os que não vejo porque não os amei e, no entanto, estiveram na minha vida. Pena deles e irritação comigo mesma. Não devia ter lá andado. Se tivesse podido, era o que teria feito.

 
Não escolhi viver pelo lado mais difícil da vida. Simplesmente acontece-me.
 

URGÊNCIAS!


Cat2007

13.08.07

 

 

 

Comigo quase tudo é urgente. Quero saber como acaba. O livro. O Filme. A peça. A história. O caso. A casa em construção. Não gosto de fases ou de etapas. O livro só me faz sentido total quando o leio pela segunda vez. Por isso retive tão pouco das centenas que já li. Apenas repeti uns quantos. A ansiedade impede-me de olhar os detalhes. Só gosto de detalhes depois de saber onde me vão eles levar. Sobretudo, depois de saber que não me levarão a nenhum lugar desagradável. A isto se chama desconfiar de tudo. Ter um traço marcante na personalidade que faz doer.

 

Viver sem confiança na vida tem várias implicações, também elas, negativas. Dúvida. Receio. Pessimismo. Porém, espantosamente, diria, tudo isto se dilui no momento do acto mau que  acontece. Que acaba por acontecer porque é impossível não acontecerem coisas negativas. Aquelas que, precisamente, mantêm a referida insegurança, e que são temidas em abstracto. No momento em que elas se dão, a desconfiança esvai-se. Não há como desconfiar de um facto consumado. A dúvida desfaz-se. Não faz sentido desacreditar os cinco sentidos e a remanescente actividade cerebral. O receio autoliquida-se . Não pode manter-se sobre algo que está para vir porque isso é, então, um acontecimento presente. O pessimismo deixa de ter lugar. Não há mais expectativas. Em face da situação, o teste. Da força. Do carácter. Da coragem. Do optimismo. Em geral, verifica-se a passagem com distinção.

 

Ter urgência em saber o fim significa ter medo dele. É este medo que não permite a paz para viver cada pedaço pequeno, grande, médio ou mais ou menos das coisas que fazem parte da vida.

 

Por outro lado, que interesse terá olhar para as coisas como elas são? Para a casa como ela é. Para o carro como ele está. Para o emprego como ele se mostra. Para a namorada ou namorado como se revela. Para as limitações actuais próprias da relação amorosa. Qual é o interesse em olhar para estas coisas como se elas fossem apenas realidades sem dinâmica que preste? Para quem tem pressa em ver o fim, esta abordagem seria aproveitável. Estancar tudo, olhar e concluir. Que estável!

 

Porém, a ansiedade não reside apenas no medo do que virá. Ela monta um determinado tipo de desejo. O desejo de mudança. Mudança permanente. Mudança na evolução, de preferência. Ou mudança por destruição para começar outra coisa diferente, se assim tem de ser, mas esperando que não.

 

O que fazer quando não se gosta do quadro cuja moldura nos enquadra, para além da primeira opção, ou a hipótese fácil (estourar com a porcaria da madeira)? Esperar o momento certo para mudar. Enquanto isso, ir recolhendo todos os dados e objectos que serão necessários  quando esse momento chegar. E se o momento certo não chegar? O que fazemos aos dados e objectos recolhidos? Queimamos juntamente com a moldura? Ou esquecemo-los e penduramos a moldura bêbados de frustração? Pessoalmente, acredito na existência do momento certo. Porque a sua vinda também depende um pouco de nós que o esperamos.

 

Mas recolher dados e objectos não é coisa que ocupe o tempo de uma pessoa com a dignidade que sempre se impõe. Necessariamente, o individuo deve procurar outras fontes de desenvolvimento físico e emocional. E esta obrigatoriedade é que é o mais difícil de tudo. É que a falta de entusiasmo numa ou duas áreas da vida de um ser humano é infecto-contagiosa em relação à outras. Eis aqui um grande desafio. Pelo menos, para mim.

 

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