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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

OLHEM PARA MIM, GOSTEM DE MIM


Cat2007

03.04.15

Há uma senhora loura no facebook que somente  partilha as suas próprias fotografias em pose rodeada de sinais exteriores de riqueza. É só isto que ela vai fazer ao FB. Mais nada. E toda a gente vai lá dizer "linda", "fantástica", etc. Sucede que a senhora já não vai para nova. Aparenta ter boa figura. Mas nunca mostrou o corpo em fato de banho por isso não sei como está verdadeiramente. Seja como for, a cara não é bonita e está descaída. É de acrescentar que ela não costuma responder a ninguém. Pergunto-me porque razão vai tanta gente comentar as postagens dela. Aquele tipo de exercício que envergonha. Sim tenho vergonha alheia da mulher. E dos seus comentadores.  Olho para estas coisas e parece-me ver ali falta de amor. Incapacidade de amar. Solidão e vazio, portanto. E é uma vergonha para ela que eu, como os demais, consiga ver todas estas coisas que inspiram pena. 

 

Não são poucas as pessoas que conheço que desejam que os outros gostem mais delas. Mais de que elas alguma vez gostarão dos outros. Eu, como psicoanalizada, sei que estes fenómenos têm a ver com coisas da infância. Coisas que não correram tão bem como era devido. Mas não só. Uma amiga minha dizia que "a culpa é da mãe". Por isso, ela, como mãe, desistiu muito rapidamente de fazer análise. Talvez não precisasse muito. Porque senão tinha ficado. Na verdade, a culpa até pode ser da mãe e do pai e dos fenómenos da nossa infância. Mas há uma grande parte da responsbilidade que é nossa. Da generosidade que não temos. Da nossa fraca capacidade de compreender e perdoar. Do nosso egocentrismo. De todas as nossas características que nos fazem sofrer.

UM DIA NA MINHA VIDA


Cat2007

31.03.15

 

O meu pai, que está internado no hospital desde domingo, disse ao meu irmão mais novo hoje de manhã: "Podes ir buscar o carro que eu vou ter alta. Só estou à espera que entreguem as minha roupas". Claro que depois de tudo confirmado com a senhora enfermeira chegou-se à conclusão que era mentira. Bem, mentira não era. Segundo o que o meu pai me disse, "eu pedi alta. Só que nunca mais me trazem a roupa". Não. Não está gagá. Está farto de estar ali. E sobretudo está convencido de que os seus pedidos são ordens que devem ser acatadas. Infelizmente as coisas, a maior parte das coisas, já não se passam assim. E portanto, vai lá ficar mais uns dias. Eu, pela minha parte, faltei ao compromisso de publicar aqui um post diário. Fiquei preocupada com ele. E não tive cabeça para mais nada.  

 

Mas estou de volta. Para dizer que D. Amélia foi lá ao gabinete, como é costume, para dois dedos de conversa. Primeiro perguntou se queriamos um café. Ninguém quis porque àquela hora já abarrotávamos de cafeína. Depois pôs-se a falar sobre o papel higiénico. Que a empresa de limpezas, sua entidade patronal, tinha lá ido entregar o papel. "Que não me peçam para carregar o papel. Porque eu não carrego. Tenho aqui uma cicatriz de uma operação à visícula que me dói muito quando muda o tempo". No mais, segundo D. Améllia, é uma questão de princípio. Os homens que trazem o papel é que o devem ir arrumar no local devido. É sempre bom fazer uma pausa com D. Amélia. Então eu, que estou com uma seca pesada de trabalho entre mãos, agradeço sempre uma interrupçãozinha.

 

Depois de almoço, fui a uma formação sobre classificação de doentes nos hospitais em regime de internamento. Notei que a formadora tinha uma voz demasiado rouca. Como se precisasse de espetorar. Aquilo fazia um bocadinho de impressão. No entanto, expressava-se muito bem e dominava a matéria. Para o que importa, retirei dali o conhecimento que precisava para os meus trabalhos. Foi útil, portanto.   

 

Antes disso fui com a minha colega à Versailles. Porque ela queria comprar um bolo especial de lá. Não se aguenta a Versailles à hora de almoço. Está cheia até à porta. E há imensas pessoas a comer de pé ao balcão. Desde quando é que se paga os preços da Versailles para estar ali assim? Aliás o serviço ao balcão desce ao nível dos snack bares mais rascas. Tudo a gritar. Os empregados a atrirarem com os pratos para a frente dos clientes. Um pandemónio. Mais tarde comemos o bolo a meias. Em mais uma interrupção do tal trabalho que já me pesa na alma. 

 

De fuga da Versailles ainda conseguimos evitar uma cigana que estava a vender óculos de sol. E eu hoje já senti calor nos pés. Estou preocupada porque ainda não troquei a roupa de verão pela de inverno. Daqui a um dia ou dois já não tenho nada para vestir. 

 

Este relato é sobre mais um dia vivido na minha vida. Quase igual a todos os outros. Como se verifica, nada de interessante se passou. Creio que é assim a vida de toda a gente, com as devidas adaptações e salvo as honrosas exceções. Estou farta deste dia. Estou farta deste post.

 

ONTEM NÃO FUI VIOLADA NA COVA DA MOURA


Cat2007

28.03.15

 

Pois ontem não fui violada na Cova da Moura. Por causa disso acusaram-me de mentir. Por causa do título do post anterior. Em vez de ficarem alíviados. E eu só estava a querer provar uma ideia. Mas também não me vou pôr aqui agora a explicar o texto. Basta dizer que provei. O título é que importa. O pessoal realmente não gosta de ler. O pessoal curte as frases curtas de autores conhecidos. Assim o pessoal julga que se cultiva e não precisa de ler os livros. Isto é mais ou menos como ver o trailler de um filme e ficar convencido de que já se viu o filme todo. O pessoal não sabe o que não cresce emocional e mentalmente com esta atitude. 

 

Podia fechar o texto agora. Mas não sei. Há aqui uma sensação de que falta dizer qualquer coisa. Já sei. Não dá para escrever nada de novo. Porque escrevi coisas velhas acima. Coisas do dia de ontem. Por acaso não tenho o hábito de fazer posts sobre posts. Daí que não estou habituada. Agora como é que vou mudar de assunto? Não dá. Portanto, ontem não fui violada na Cova da Moura. É uma não notícia que fica para a história. 

 

No mais, para o que importa, hoje é sábado e estou aqui a ouvir a Janis Joplin. É fabulosa e não datada. Agora há um anúncio de um perfume com uma música dela. Creio que é da Dior. Normalmente os anúncios de perfumes são entediantemente belos. Este também é. Porém, torna-se interessante proque tem a Janis Joplin a cantar. É um contradição que funciona. Parece que aquilo fica mais real. 

A CIGANA DA CASA DA MOEDA


Cat2007

04.09.13

 

Andava a vender utilidades às pessoas que passam no jardim ao pé da Casa da Moeda. Naquele dia à hora de almoço eu estava ali sozinha e apetecia-me conversa. Por isso paguei 30 € por uns Ray Ban evidentemente falsos e por uma pulseira feia. Acredito que devemos pagar por aquilo a que atribuímos valor. E eu precisava de conversar. Há dias assim.

 

Graças às mensagens dos meus olhos consegui retê-la para além do tempo em que demorámos a fazer a transação. Falou-me logo abertamente da infelicidade a que se resumia toda a minha vida. Era inveja. Disse coisas assustadoras. Tinha poderes para ver tudo de mim através dos meus olhos. Eu ia dando graças a Deus por isso. Já estávamos sentadinhas no banco de jardim. Era boa a sensação.

 

Claro que ela queria 1000€ para me salvar. Mas isso não me incomodava. Perguntei se por acaso ela era feliz. Encheu o peito e disse que sim a sorrir radiosa. Depois, não sei porquê, revelou-me que os seus poderes não podiam ser usados em proveito próprio. Pois claro.  Eu achei que ela devia ter um casamento infelicíssimo. Vi nos olhos dela.  

 

De qualquer forma, informei que não tinha 1000€ para lhe dar. Não acreditou. Por isso continuou a conversar comigo. Esteve aliás a falar comigo até se convencer que não dava mesmo. Nem dinheiro, nem joias. Foi quando me abandonou. Pelo meio ainda lhe perguntei se sabia ler a sina. Disse-me que não. Só os olhos. Fiquei desmoralizada.

 

Há dias em que nos sentimos mesmo mal.

 

FAZER CONVERSA


Cat2007

12.04.13

 

 

Tenho imensas dificuldades em fazer conversa. Porque, em princípio, não sei o que dizer. O que na verdade me apetece é estar calada a observar. Era bom que me deixassem observar. Mas não. As pessoas não gostam de ser observadas. E talvez também não tenham vontade de observar. Por isso falam e falam. Quase sempre sobre coisas desinteressantes. O que acentua o meu esforço. E define o nível de interesse que cada um tem pelos outros.

 

Dantes eu sofria do terror dos silêncios nestas circunstâncias. Por isso enchia-me de uma espécie de energia de reserva para falar e falar. Era capaz de agendar na minha cabeça um número razoável de assuntos para “puxar” de acordo com o tempo que a coisa deveria durar. E assim, na maior parte do tempo, quem falava era eu. Chegava a ser chata. E saia esgotada.

 

Agora não quero saber. Mantenho os assuntos enquanto os assuntos me mantêm a imaginação a funcionar. Ainda que em esforço. Na mesma. Mas depois até me posso calar e deixar emergir um silêncio. Paciência. Não sou só eu a ficar afetada. Noto que assim, no entanto, as pessoas me dão muito menos atenção.

 

O DIA A DIA


Cat2007

04.10.12

 

 

Estava aqui a pensar que hoje uma senhora, que muda, mudava o rolo da máquina registadora e nem sequer olhou para a minha cara de pessoa que está à espera e que já lhe tinha dito “boa tarde” sem resposta.

 

Depois a senhora veio atender-me. Como havia coisas que queria perguntar, comecei a fazer perguntas. E veio um senhor que pediu qualquer coisa, tendo sido imediatamente atendido. Calei as minhas perguntas e olhei para a senhora nos olhos após o que disse: “talvez seja melhor atender o senhor primeiro”. Senti atrapalhação na cara dela. Atendeu-o porque era mais rápido. Mas não fez bem. Até porque não me perguntou nada antes. Era uma mulher preguiçosa e desmotivada. Foi por isso que agiu com a má criação objetiva que descrevi. Talvez ganhe pessimamente. E isto completa o meu quadro dos pensamentos que corriam enquanto ela me arranjava o que lhe tinha finalmente conseguido pedir. Baixei os olhos enquanto isso. Abrandei a pose e desmontei um pouco a atitude interior. Ia fazer aquele olhar de superioridade moral. Afinal o que me saiu foi um obrigado neutro. Porque não lhe senti inferioridade moral.

 

TEMPO PSICOLÓGICO PARA DORMIR NOS CONGRESSOS


Cat2007

07.07.12

 

 

Já sabia que congressos é para dormir. Durante. Ontem lá me levantei às cinco da manhã para ir para o Porto dormir num. Tinha que chegar às nove. Foi menos mau a parte da viagem. O motorista conduziu smooth e ainda conseguiu chegar quinze minutos antes.

 

Passei o tempo alheada. De vez em quando aterrava para anotar: “tenho que ficar com a documentação desta intervenção”. Era para estudar depois. É. Porque ouvir, como disse, nada. Ao fim de duas horas já estava a olhar para o programa e a decidir que as intervenções da tarde não tinham interesse nenhum. Estava arrasada em tão pouco tempo. No entanto, o que importa é o tempo psicológico.

 

Tentei convencer a minha colega. Mas ela tentava retardar a coisa por motivos diferentes dos meus mas igualmente por cansaço e tédio. Não queria regressar a Lisboa para trabalhar. Eu estou de férias e interrompi por um dia. Estava numa posição diferente. Lá chegámos a uma situação de compromisso. Sair pela uma da tarde. Eu tinha tentado o meio-dia. Telefonámos ao motorista e ficou tudo tratado.

 

O regresso foi o supremo pesadelo. Por causa da ansiedade. De tirar a roupa, tomar um banho e deitar-me a dormir pelo resto da tarde. Nunca mais chegávamos. Creio que tive até um ataque de catatonia. O certo é que o senhor C conseguiu entregar-me em casa às quatro e meia shout.

 

A verdade é que são quase duas da manhã e ainda não consegui dormir nada. Já que estava cá afinal, fui ver o pai. Depois às Amoreiras comprar tabaco para o cachimbo. A seguir vim para casa jantar mas como não havia nada, a coisa só se deu já perto das dez. Por fim, ainda fui buscar a chave de Vieira para irmos as duas amanhã.

 

Como “perdido por cem perdido por mil” é o mesmo e é verdade, resolvi escrever este bocadinho.

 

PERCEBER POBRE


Cat2007

16.05.12

 

 

 

 

A Terra é um planeta de pobres. Não obstante,

parece que todos os pobres se recusam a aceitar este facto. 

E nenhum rico o reconhece.

 

O instinto de sobrevivência nas crianças está sempre a postos. Não admira. São demasiado frágeis. Precisam de quem as proteja. Há uma consciência do significado do “estar por baixo” em cada criança. Nestas condições, aproximam-se dos que lhes parecem fortes e desprezam os que lhes soam a fracos.

 

Henry é um míudo imigrante (naturalmente) pobre de um bairro (obviamente) pobre. Frequenta pois uma escola de míudos como ele. Pobres. Muitos também produtos do vómito de países europeus caídos em desgraça na altura (da Primeira e Segunda Gerras Mundiais). Os outros são americanos da gema igualmente pobres. Na verdade, estes por seu lado são como crostas caídas das feridas saradas da Europa colonialista. Pobres americanos não emigrantes da época. Tão pobres como milhões de americanos são hoje em dia. E serão. Na maior potência económica, tecnológica e militar do mundo. Um mundo onde os pobres existem por todo lado. E são em número assombroso. Pois. A Terra é um planeta de pobres. Não obstante, parece que todos os pobres se recusam a aceitar este facto. E nenhum rico o reconhece.

 

 Henry e o resto das crianças referidas eram espancados quase diariamente nas suas próprias casas pelos seus próprios pais. Adultos frustrados que, por designadamente lhes terem roubado algures na vida os sonhos de criança, esmagavam sem razão e sem desígnio aparentes o corpo e a alma dos seus próprios filhos pequenos. 

 

Henry não levava guarda-chuva para a escola. “Havia quase sempre porrada. Os professores pareciam não saber de nada. E havia sempre problemas quando chovia. Qualquer rapaz que trouxesse um guarda-chuva para a escola ou usasse uma gabardine era logo posto de parte. A maior parte dos pais era demasiado pobre para comprar essas coisas. E quando o faziam, nós escondíamo-las nos arbustos. Se alguém era visto com um guarda-chuva ou com uma gabardine era logo considerado um mariquinhas pé-de-salsa. Levavam porrada depois das aulas”.

 

Pois. A pobreza é difícil de engolir e não é bonita de se ver. A consciência do ser pobre é pessoal e envergonhada. O esforço vai todo no sentido da inconsciência. Se fosse possível não comparar, se não existissem ricos, esta espécie de inveja sem esperança talvez nem chegasse a doer. Os pobres têm nojo dos pobres. E, quando ainda não chegaram ao ponto em que já estão passados da cabeça e desatam a fazer (inevitáveis?) disparates, têm muita consideração pelos ricos. Subserviente e invejosa, como é natural.

 

Charles Bukowsky. O escritor americano filho de imigrantes alemães nascido no tempo de uma Alemanha desfeita que vomitava sem opção gente para o “Novo Mundo”. É a vida. “Ham on Rye”, o livro de onde venho de citar. É de ler. Apanha-se pelo menos uma náusea no mínimo enriquecedora. Um outro modo de ficar menos pobre. Lá está.

 

QUEM PAGA O ESTADO AO ESTADO?


Cat2007

08.05.12

 

 


 

As famílias que têm rendimentos para mandar os filhos estudar para colégios caros e que frequentam quase exclusivamente os serviços de saúde privados não deviam poder deduzir as respetivas despesas no IRS. Mais, quem pode comportar este tipo de despesas, caso pretendesse aceder aos serviços públicos de saúde e de educação, deveria pagar de acordo com os preços do mercado.

 

Era nisto que eu andava a pensar nos últimos tempos. Reflexões que têm obviamente a ver com a atualíssima questão da necessidade de emagrecer o Estado, reduzindo drasticamente os seus gastos. Um problema que já não é novo. Começou a ser grave aquando do primeiro choque petrolífero dos anos setenta do século XX, ficou pior com o segundo choque nos anos oitenta e agora está na sua fase mais aguda por virtude das crises orçamentais dos países da zona euro.

 

Pois, dá ideia que estamos a falar da evolução de um cancro. E até parece que o Estado Providência está definitivamente condenado. Não duvido nada que esteja no seu modelo tradicional. Aquele a que nos habituámos. Em que o Estado dá para todos e paga a todos. Ricos, pobres e remediados. Basicamente com as receitas provenientes dos impostos o Estado constrói estradas, caminhos-de-ferro e aeroportos, escolas, hospitais, lares e jardins-de-infância, além de que assume os custos de formação dos profissionais e as despesas com a saúde das populações. É assim desde que, em meados do século passado, foram reconhecidos a todos os cidadãos os chamados direitos sociais e económicos.

 

Creio que resulta óbvia a irracionalidade do sistema. Qualquer um compreende a insustentabilidade do modelo. Desde quando é que as receitas dos impostos cobrem responsabilidades desta dimensão? Exato. Não cobrem, pelo que os défices orçamentais se vão expandindo. Assim, creio que os direitos sociais têm de ser comprimidos. Não na sua dimensão interna mas nos limites da sua abrangência.

 

Os direitos sociais, entre os quais se destacam a saúde e a educação, são direitos de proteção económica. Por definição devem, então ser reconhecidos a quem tem de ser protegido. A questão está pois em saber quem tem de ser economicamente protegido. Certamente não são os mais ricos. Mas também não serão apenas os mais pobres, sobretudo se a providência for essencialmente misericordiosa, caritativa e deficiente, como em grande parte dos casos tem sido. A sociedade está obrigada a descobrir o ponto certo do conceito de dignidade humana, o qual corresponderá ao conjunto das condições materiais suficientes que propiciam uma vida digna. E até este ponto o Estado tem de continuar a dar. E a partir deste ponto o Estado tem que tirar. Pelo menos e para já benefícios fiscais.

 

Que me digam: “Não é justo. Os meus filhos estão na escola privada e eu não entro, a não ser em caso de emergência, nas instituições e serviços do SNS. No entanto, pago 10.000 em impostos, contribuindo assim para sustentar serviços que eu não uso”. Eu respondo. Está bem. O que andamos agora a pagar de impostos serve também para saldar as dívidas contraídas para a construção dos heliportos da Madeira, o que, de um certo ponto de vista, é capaz de ser bem pior. E então? São assim os imperativos de justiça social. Ou pretendia-se que o povo da região autónoma assumisse a coisa sozinho?

 

Bem sei que me meti aqui por caminhos onde impera a complexidade das tecnicidades da economia, finanças e ciência fiscal onde os problemas são sempre dificeis de resolver e as soluções óbvias quase nunca são contempladas. Porque, afinal, acaba sempre por se provar de um modo ou de outro, que não são boas ou então que não valem a pena do ponto de vista económico-finaceiro. A verdade é que, independentemente de tudo o mais, estas soluções são é muito dificeis de implementar, requerendo muito trabalho, competência, honestidade e humanidade. 

 

 

DE CLASSE SUPERIOR


Cat2007

13.04.12

 

 

A impressão é quase uma certeza: os olhos não vêem como deviam ver. Não vêem claramente. Como também é por outro lado certo que tais olhos não se querem deixar ver. A verdade é que o rosto do homem que tem os olhos escondidos não precisa de olhos para que o vejam. É fácil observar que o homem que está de luto veste um fato muito elegante. Está de luto. O luto vem da morte e no entanto nota-se bem que é precisamente a morte que ele não quer ver. Veste-se com requinte e fuma com boquilha para parecer mesmo requintado, frívolo, superior, divorciado das menoridades... do que é realmente humano. Ele fuma de boquilha com desprezo pela vida e pela morte. Como se fosse outro e estivesse num patamar mais acima. Como se acreditasse na eternidade que é própria dos deuses. Uma classe material-espiritual de seres muito superiores à qual ele, por força de alguns dos seus marcadíssimos traços pessoais, acredita pertencer. Note-se que ele não vê a eternidade como vida. A eternidade não é vida nem morte. É outra coisa. Outro estado. É algo que se move num plano de beleza e de prazer permanentes. É isto que os seus olhos envoltos de escuridão vêm. É por isto que quem vê o seu rosto sente que tais olhos não vêm bem.

 

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