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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL V - PONTO FINAL


Cat2007

12.07.10

  

 

Madalena voltara-lhe na forma de mulher crescida. Acabada de regressar à sua vida, já lhe retomava o pulso e as emoções. “Madalena”. Voltava a dar por si controlando as pernas e os braços e as palavras. Para não ir até ela.  “São horas de ir para casa.”. O seu verdadeiro desejo era telefonar a Madalena para  lhe dizer que não tinha vontade de ir. Para casa. Marcou. Esperou.

 

Teresa: Estou a sair do escritório.

 

Escutou um breve e fundo silêncio do lado de lá da linha.

 

Madalena: Vem cá ter.

 

Teresa desligou. Madalena dissera-lhe que sim. Sentiu os ombros vergarem. Algo indefinível, mas enorme desprendeu-se do ar e assentou sobre si. Levou consigo este peso tremendo até junto dela.

 

Teresa: Olá.

Madalena: Vamos para a cama?

 

Teresa pôde imediatamente aliviar-se da carga que trazia. Mas não de toda. Os espaços onde as palavras ficaram ausentes, eram demasiados densos.

 

Entraram no quarto e despiram-se. Materialmente distantes e caladas. A parede despida, onde a cama baixa se encostava, estava iluminada pela lua redonda, expondo-se. Elas olharam para lá. No preciso instante em que apontaram o olhar, o filme começou. Sob a luz da lua, a parede branca reflectia nitidamente aquelas cores mudas, mas tão vivas. As imagens não tinham som. Para além das cores, que quase encandeavam, compreendiam-se os gestos perfeitos, completos. Não existiam palavras. E este filme que rodava, dizia-lhes que o tempo, quando quer, pode parar. Que os seus vinte anos não chegaram a passar. Os que tinham e os que correram. Apertaram as mãos para juntas darem um passo em frente. Na direcção do tempo colorido parado na parede branca, sobre a cama do quarto de Madalena. Mergulharam lá, afundando deliberadamente os corpos, que iam juntos. Confundiram a imagem com os braços e as pernas. A pele. Os fluidos. Os sorrisos inaudíveis. E, finalmente, suspiraram profusamente. Mas em silêncio.

 

E depois o tempo rolou, escapando-lhes, afinal. Deitaram-se. A lua mudara de posição. A luz despediu-se da parede e inclinou-se sobre a cama desfeita. O ar encheu-se dos sons ofegantes. O tempo rolou sobre elas, e era novo e presente.

 

Madalena: Estás a sentir?

 

Teresa murmurou qualquer coisa com sentido afirmativo.

 

Madalena: E a gostar, querida, estás a gostar?

 

Teresa não era capaz de responder. Não se concedia liberdade. Colou a boca à de Madalena e prendeu-lhe a língua. Para a calar. Madalena investiu, por isso, ainda mais sobre ela.

 

Madalena: Eu perguntei se estavas a gostar. Tens que me dizer!

Teresa: Querida, Meu Deus! Eu não vou aguentar ...cala essa boca...por favor!

Madalena: Sabes, já não me importa que...tu fujas, que morras...Não me importa porque...hoje... hoje posso morrer contigo...Diz-me, Teresa!

Teresa: Muito!

 

Madalena desceu com a boca até à zona molhada e quente do corpo dela. Aí, desfolhou em agitação as páginas do sonho, procurando por muito tempo um pequeno capítulo de um livro. Da libertação. Sem se cansar, sugava-lhe o corpo para lhe engolir a alma toda inteira. Não podia parar. Não, até ela se desfazer. Buscava a suprema felicidade de ficar com ela desfeita nos seus braços. A única forma de jamais a voltar a perder. E volatilizar-se nos braços dela. Para não pensar que tinha de fugir-lhe. Abriu as pernas para a boca de Teresa, que, de alguma maneira, manifestara o desejo de entrar. Ao abrir, sentiu o corpo que oferecia escorrer sobre o rosto dela. O tempo decidiu novamente parar por um pouco, ficando, desta vez, de fora do passado, presente ou futuro. Pelo momento em que as gargantas se abriram no centro da tremenda explosão que se deu.

 

Logo depois, o tempo prosseguiu no seu ritmo muito próprio.

  

 

AZUL IV - O ULTIMO EXCERTO


Cat2007

09.07.10

 

   

 

Levou a mão à boca. Tapou-a, apoiando a base do nariz entre o indicador e o polegar.Voltou a respirar fundo. Expeliu o dióxido de carbono sobre as costas da mão. Desta vez, era para dar sinal a Clara de que podia falar. Esperou, pois, por uma reacção. Talvez para se orientar. Mas Clara não disse nada.

 

Joana: Apenas, não sei se o farei. O que está a acontecer entre nós é muito forte. Forte demais. É uma coisa muito violenta. Eu, simplesmente, fico sem capacidade de raciocinar. A impressão que tenho é que me deram uma droga meio alucinogénica para tomar. Parece que estou com uma “pedrada” monumental. Como posso eu tomar decisões num estado destes? Tenho medo. Não sei onde isto nos vai levar. Pode parecer muito e não ser nada. Apenas uma alucinação. Uma viajem que levará tanto tempo a passar como o efeito de uma droga. Não sei.

 

Agora tremia um pouco das mãos. Ouviu-se e calou-se. Temeu imediatamente pelo que estava a dizer. Pelas consequências. Por isso desejou uma reacção imediata. Não queria tempo para pensar. Mas Clara emudecera. Apenas a fitava. Assim, Joana acabou por concluir que, afinal, não houve reacção porque não haveriam quaisquer consequências. O que dizia tinha razão de ser. Era verdadeiro. E muito sentido. Estava a ser totalmente honesta. E queria partilhar com ela os seus receios. Estava a fazer tudo muito bem. Já não tremia.

 

Joana: Por outro lado, isto colide frontal e globalmente com a educação que me deram. Acho que com a educação de qualquer pessoa. Desejar uma mulher. Santo Deus!  Ninguém me avisou disto. Sobretudo, não fui preparada para uma coisa destas. Não sei como agir. E isto faz de mim o quê? Que género de pessoa nova sou eu?. Sou gay? Lésbica? Não sei se quero ter esse tipo de vida.

 

Clara levantou-se e virou-lhe as costas. Ficou imóvel por alguns intantes. Não fez mais do que o suficiente para deixar Joana em silêncio. Depois voltou a ela calmamente. E começou.

 

Clara: De todo o teu discurso há uma coisa que sobressai. Falas como se isto só te estivesse a acontecer a ti. Parece que estás aqui, dentro desta sala, sozinha. O que me choca.

 

Declarou-se, então, num sorriso cheio de condescendências.

 

Clara: É verdade. Tu és uma mulher e eu desejo-te tanto! Devias saber que, em nenhum caso, um desejo do tamanho deste surge a pedido da razão. Não devias desconhecer que tratamos aqui de coisas que nos ultrapassam a vontade. E, no entanto, agora que já matei um pouco da minha sede em ti, percebo que é uma imposição feliz. Curiosamente, aquilo de que tens medo é, precisamente, o que mais segurança me dá. A quase-loucura. A tua “pedrada”. Tu não vês que nada há a decidir? Nada há para pensar, Joana. Já foi tudo tratado antes de nós sermos chamadas. O que sentimos, percebes? Agora, só te resta decidir o que fazer. E as opções são apenas duas. Ou vives o que sentes. Ou foges. E morres devagar. Se virares as costas, a Joana que tu és desparecerá ao mesmo tempo que eu for desaparecendo da tua vida.

 

Perdera a calma. Falava com ardor. Apaixonadamente. Abria os gestos para oferecer o peito. Cerrava os punhos para se fazer ouvir melhor. Os olhos estavam humidos de fervor.

 

Clara: Mas tu tens dúvidas! Duvidas porque o que sentes “é forte demais”. Não é assim que dizes? Olha, já pensaste se não é fruto de algum desiquilibrio teu? Era bom que fosse. Assim poderias tentar tratar. É por isso que não sabes se vais acabar com o André. Aliás o André é um grande amigo. Não se importará, certamente, de ser usado. Tu és uma mulher profundamente desonesta!

 

Estava na hora da saída da aula a que não foram. 

 

Joana: Eu não te admito que me fales assim!

Clara: Admites, sim senhora. Os teus actos admitem por ti. Não há nada pior do que a falta de coragem e a mentira. Não há nada pior! Eu fui educada assim. Com estes valores. Pela minha mãe. Só por ela. A pessoa mais honesta e corajosa que eu conheço. Foi ela quem me ensinou. Eu teria vergonha de dizer o que tu dizes. Portanto, faz assim, não tenhas dúvidas. Telefona ao André. Dá beijinhos meus lá na Foz. E deixa-me em paz!

 

Cada palavra fora perfeitamente pronunciada. Num discurso impregnado de uma certa amargura altiva. Rodou rápidamente nos calcanhares e afastou-se com passos largos. Joana foi atrás. Conseguiu ultrapassá-la e estacar à frente dela.

 

Joana: Desculpa. Desculpa, mas eu não sou nenhuma desonesta. Nenhuma mentirosa. Talvez não seja tão corajosa como tu. Isso não sou de certeza. De resto eu não fui educada por nenhuma super mulher. Cresci com o meu pai e a minha mãe e as minhas irmãs. Foram os meus pais que me educaram. São duas pessoas normais. Apesar disso, dois seres humanos de excelente qualidade, posso garantir.

 

Clara: Ouve, eu não te posso desculpar um facto de que não és culpada. A baixa qualidade dos teus sentimentos.

 

Era hora da entrada.

 

Joana: Por favor! Estás a ser injusta. Eu também odeio a mentira. Odeio. Nunca viveria na mentira. Tu estás a desvalorizar os meus sentimentos apenas porque eu não tive capacidade de perceber a importância deles numa hora. Nós só sabemos disto há uma hora! Estás a pedir demais, Clara!

Clara: Não vale a pena. Deixa-me passar!

Joana: Não te vás embora. Por favor!

 

Clara não se sentia. Nem, sequer, as lágrimas que lhe principiaram a inundar o rosto rigido rolavam na dependência da sua vontade. Olhou para ela. O coração já explodira há alguns minutos. As lágrimas brotavam-lhe ainda copiosamente. Agora eram vermelhas. Manchavam-lhe a cara de sangue. Olhou-a de novo. Viu que também chorava. Sentiu pena dela e desprezo por si própria.

 

Clara: Joana, deixa-me passar!

Joana: Não!

Clara: Não faças isso.

Joana: Eu...

 

Clara baixou a cabeça. Não desejava continuar a compartilhar lágrimas com ela.

 

Joana: Eu amo-te.

Clara: O quê?

Joana: Eu até posso estar doida. Mas só se eu estiver doida é que isto não é verdade. Eu amo-te. Tenho a certeza.

 

Clara levantou os olhos molhados para os dela. Joana aproximou muito devagar a cabeça do seu peito. Encostou-a para ouvir-lhe as batidas cardíacas. Assim, Joana precebeu que o coração de Clara falava. Ajeitou-se para ouvir melhor. Decifrou milhares de mensagens sobre coisas de que nunca ouvira falar. Os olhos pesavam-lhe. Por isso os fechou.

AZUL III - O PRINCÍPIO


Cat2007

08.07.10

Afinal vou colocar mais dois excertos. Não um. Dois. Não têm tratamento. Ficam por tratar. Aqui.

 

 

 

Naquela casa não se trancavam as portas. Durante tanto tempo, as chaves mantiveram-se operacionais dentro das respectivas fechaduras, porém, inoperantes. Eram de bronze aparente. De aspecto brilhante, pareciam quase escorregadias, Como se lhes tivessem passado um óleo, que não aplicaram realmente. Estavam escrupulosamente limpas. Como tudo na casa da Alameda. As chaves postas nas ranhuras de cerca de vinte portas já não eram nada em si mesmas. Por há muito terem perdido a sua utilidade própria, foram transformadas em partes integrantes das correspondentes fechaduras todas iguais. Deixou de ser importante individualizar cada um daqueles pequenos instrumentos, separá-los do conjunto de que faziam parte, onde apenas uma parte, a outra, funcionava. Apesar de permanecerem nas fechaduras, as chaves desapareceram porque lhes foi retirada a sua função primordial. Trancar portas. Destrancar portas. Trancar portas. destrancar portas… Assim, neste movimento de entrar. De sair. De proteger. De desamparar. De isolar. De libertar. De encobrir. De expor… 

  

Fora a mãe, D. Amélia, quem instituíra a regra. “Não quero portas trancadas nesta casa. Nunca precisei disso na vida”.  Entendia que uma porta, qualquer porta, uma vez fechada, encerrava uma mensagem muito clara: Não. De momento não. Não entrar. Não interromper. Não incomodar. Não importunar. Não pedir. Não dar. Não ouvir. Não falar. Não perguntar. Não saber. Não. Assim se devia ler o que está escrito numa porta fechada. Uma porta fechada com alguém do lado de dentro é, neste sentido, uma entrelinha. Não é preciso estar trancada. “Não deve estar trancada!”, sempre acentuou.Nunca confessara um outro porquê. O motivo maior das suas razões. Ou seja, o medo em princípio absurdo de ter de arrombar uma tragédia trancada. Se as chaves não rodassem os trincos para dentro das fechaduras, nada de verdadeiramente mau poderia acontecer por detrás das portas apenas fechadas. Era vítima da terrível sensação de pânico sintomático da fobia dos estalidos dos trincos a fechar. Assim, naquela casa os encontros entre mãe e filha davam-se essencialmente nas divisões comuns. Cada uma conhecia os passos da outra sem necessidade de os ver para saber. Ambas as vidas circulavam em redor de rotinas reciprocamente desassegredadas.

 

D. Amélia, era baixa e seca. Dava gosto ver como se vestia de tão bem que a si própria sabia ajustar as roupas. As saias pelo joelho, mas justas. Os conjuntos de malha sobre o tronco a delinear os seios pequenos e redondos. Os sapatos de saltos médios davam vista para os tornozelos torneados. Usava o cabelo penteado para trás da testa alta e larga, solto em ondas muito suaves de prata azul por detrás das pequenas orelhas perfeitas de lóbulos escondidos por duas  pérolas cor de pérola. Entreabria regularmente a boca arredondada pequena, mas bem medida. Tinha por hábito automatizado elevar o nariz curto, estreito, afilado, ligeiramente arrebitado na ponta. Possuía uma pele que permanecia sem dar mostras de grandes cansaços. Os olhos castanhos eram muito sérios, pois franziam, profundos por não se ver o fundo, expressivos quer de certezas, quer de interrogações, sorriam nem sempre, mas de vez em quando. Estes olhos carregavam três rugas profundas como golpes de navalha junto ao seus contornos. Precisamente três em cada. Talvez tal coerência de ser, tamanha harmonia para ver, tivesse sido previamente pensada por quem decide destas coisas. Talvez se tratasse do resultado de um jogo de compensações, onde a D. Amélia não foi, sequer, dada a oportunidade de perder.Tinha as mãos descarnadas de grossas veias azuis salientes, que possuíam a beleza da elegância gestual. Incompreensivelmente, os grossos anéis, moldados em materiais preciosos verdadeiros, não lhe quebravam os dedos. Antes lhe acompanhavam, suportando, a graça dos diversos manejares. 

 

Teresa tinha 15 anos quando a mãe lhe entrou inopinadamente no quarto. Primeiro, D. Amélia elevara os nós dos dedos da mão direita fechada. Batera com eles levemente na madeira lacada de branco. Envolveu o puxador com a outra mão e rodou. Antes de empurrar, sentiu a pele envolvida pelo calor dos materiais. Um calor que nascera do surpreendente aspecto de vida, não singular mas plural, pulsante no interior do quarto. Um calor que se espalhara por todas as suas proximidades e que, agora, lhe aquecia os percursos sinuosos do interior das suas próprias veias azuis.

 

Sim, bateu à porta com os nós dedos afectados pelos aros de ouro e prata. Mas fez tal gesto na passada. Ainda se imaginavam os sons dos ecos daquelas ligeiras batidas, e já os seus pés se encontravam quase um metro para dentro do quarto da filha.Não imaginava sinceramente nada do que iria assistir. Confrontada com tudo o que de material se apresentava sob os seus olhos espalhados por espaços muito bem determinados daquele quarto, desejou não ver. Pregou os olhos vagarosamente no chão, deixando-os ficar por lá, incapacitada. Durante aquela lenta e pesada fracção do tempo, foi-lhe concedido apenas o espaço para pensar Teresa, enquanto sua. Unia-as um amor fundamental para ambas. Não podia perder a filha. Esta era a maior imposição da sua vida. Teresa igualmente não podia perder aquela mãe. Cada sentimento individual transcendia palpavelmente a matéria, fluindo, por todos as saídas dos corpos, em direcção ao outro e fundiam-se ambos num encontro memorável, ligando cada uma destas criaturas eternamente.

 

Subitamente, D. Amélia interrompeu-se no pensar sobre a filha. E ponderou gravemente nas razões pelas quais acabara de quebrar um hábito tão fundamental como aquele que tinha instituído. O de nunca se transpor portas apenas fechadas por não estarem trancadas. Porém, realmente, não sabia. Considerou, então, que não sabia porque talvez não fosse possível saber. Certos eventos poderão ocorrer sem razão e com desígnio, motivados pelos resultados que impõem. Certos eventos são factos que simplesmente têm de acontecer, assumindo a sua existência a partir dos actos mais ilógicos e, por isso, menos previsíveis. Desta vez, como não sucedeu há muitos anos no passado, a porta do quarto não se encontrava trancada e, no entanto, a tragédia de novo lhe acontecia. No entanto, o pânico não a tomou porque não ouviu o estalido do trinco que fecha.

   

 

AZUL II


Cat2007

01.07.10

 

  

Joana conduzia em silêncio. Olhando a estrada. Muito concentrada, muito séria. Por vezes, Clara surpreendia-se com o olhar dela. Sempre inesperado. Como se surgisse a total despropósito. Não condizia com a aquela postura distanciada. Sim, de vez em quando e, por breves instantes que se repetiam, sacudia a alma de Clara com o olhar. Cada vez mais azul. Joana olhava. Não dizia nada ao olhar. E no, entanto, dizia tantas coisas em cada olhar breve. Sorria de um modo inquieto e voltava de novo a cara para a rua. Para o trânsito que não sentia. Era preciso concentrar-se na estrada. Nos sinais. Agarrava com força o volante. Como quem quer segurar os pensamentos e prender-se à realidade. Para não cair. O coração batia no peito de uma forma inusitada. Não batia forte nem fraco, mas doloroso. O sangue, assim bombeado, espalhava-se pelo corpo velozmente. Inundava-a de uma sensação de dormência que invariavelmente terminava com choques eléctricos na ponta dos dedos. Por isso, as mãos tremiam. Agarrava o volante ainda com mais força. E olhava teimosamente para o trânsito que não via. O rosto endurecia pelos maxilares, sustentando uma expressão demasiado carregada.

 

Clara olhava para ela. Todo o caminho olhou para ela. Era simplesmente incapaz de não olhar. Na sua cabeça estava gravado o perfil do rosto de dela, as mãos sobre o volante e o peito. Os seios. Clara também não via à força de tanto olhar. Só tinha a imagem gravada no cérebro. Por isso não pensava. Não conseguia pensar. Tinha os olhos enormes, saturados. Subitamente, sentiu vontade de fugir dali. Foi violentamente invadida por uma sensação de ausência de vida. Queria falar. Mas não sabia o que dizer. Percebeu que não conseguia mexer-se. O barulho lá de fora zumbia-lhe nos ouvidos sem parar. Fora assim o percurso todo. E só agora se dava conta do facto. Era urgente gritar. Não gritou. Continuou ali. Imóvel. Muito calada. A olhar para ela. Ela continuava em silêncio. Agarrada ao volante.

 

Há um bom tempo que Joana deixara, sequer de a olhar. Estavam tão perto da casa. Um quarteirão. Encostou o carro em frente à porta do prédio. Desligou o motor. Não queria entrar na garagem. Porquê? Mais uma vez não a olhou.Tinha o rosto marcado pelos golpes do pensamento.Clara perdeu definitivamente qualquer contacto com a realidade. Deixou de sentir o corpo. E a  alma como que se lhe despegava.

 

Clara: Não entras na garagem?

 

Joana não respondeu. Porque não sabia o que responder. Levantou a cabeça e voltou a olhar em frente. Deu à chave e conduziu. O carro andou sozinho ao acaso dentro do espaço escuro e abafado. Até que ficou imóvel num sítio qualquer. Com a energia do grito contido que nunca chegou a soltar, Clara saiu fora do carro e foi encostar-se a uma parede fria. Já não olhava para Joana. Tinha os olhos pregados no chão. Os braços pendiam-lhe, rendidos, ao longo do corpo. Não sentia força nas mãos moles. Nem nas pernas. Joana olhava-a ali a um metro com aqueles olhos brilhantes pregados numa expressão de santa. Absolutamente demolidores!

 

Alguém deu um passo em frente. Alguém deu o primeiro passo. Agora estavam tão próximas. Clara colocou-lhe as mãos na barriga. Pensou em empurrá-la. Joana segurou-lhe as mãos com força. Caíram nos braços uma da outra. De uma forma abrupta. Apertaram-se muito. Joana relaxou os braços e procurou a boca. Clara recusou o beijo. Mas estreitou-a contra si. Agora com mais força ainda. Colaram as caras de perfil. Ficaram imóveis assim. Sem descolar o corpo, Clara meteu a mão direita por baixo da T-Shirt dela. E passou-lhe com a ponta dos dedos pela cintura num movimento horizontal. Suave.

 

Mantinham-se assim a alguns centímetros da fria e cinzenta parede de betão. No equilíbrio involuntário dos corpos esmagados um contra o outro. A lentidão de cada segundo que passa imperturbável num relógio de pulso marca o tempo de cada movimento facial. De acordo com as batidas do coração. Lentamente. Cadenciadamente. Os rostos  colados movem-se no ritmo definido pela pequena máquina. Vão em sentidos opostos que convergem no objectivo do beijo.

 

Respira-se toxicidade dentro da garagem pelos pulmões de quem lá vá. Entram e saem carros, de acordo com a cadência habitual. Os elevadores sobem e descem com gente dentro. Passam malas pendidas em ombros distraídos e outras presas nos dedos inchados das mãos. Os olhos absorvidos  que trespassam a realidade monotonamente densa não as vêm. Não as podem ver. Porque a vida delas corre num mundo paralelo absolutamente exclusivo das suas duas almas unificadas e libertas. Também não vêm ou ouvem ninguém.

 

O cheiro de Joana mistura-se no sangue de Clara e corre-lhe célere dentro das veias azuis. Os cantos das bocas tocam-se. Das bocas delas. O movimento fica parado ali. Naquele momento em que o relógio de pulso deixa de trabalhar. Porque o coração deixou momentaneamente de bater. A máquina recomeça no seu ritmo imperturbável. Logo que o coração retomou. As bocas recomeçam a mover-se. Os lábios encontram-se por fim numa compatibilidade absoluta. As bocas trémulas são retidas. O relógio volta a parar. E de novo o peito parou. O mundo parou.

 

Aquele mundo paralelo feito por alguém à medida das suas almas. Está parado. Mais uma vez. A possibilidade de um beijo queimar sem dor é impossível. Os ponteiros do relógio de pulso recomeçam a andar. É um relógio suiço. Daí tamanha precisão. A cruz branca marcada no fundo vermelho sobressai no pequeno mostrador. Joana não encontra os seus lábios perdidos na cruz que agora é vermelha. O coração perde-se do ritmo dos ponteiros do relógio. Acelera descompassado. Joana molha a boca de Clara com a língua.

 

Os ponteiros do relógio de pulso apagam-se. O mostrador da pequena máquina já não tem números. A cruz é vermelha. Não há mais nada para além da cruz vermelha. As línguas delas estão inundadas de sangue transparente que se mistura. O relógio desapareceu. Agora é a velocidade do sangue bombeado pelo coração desenfreado que comanda os gestos e os sentidos. Clara solta-se num grito de dor. Os corpos giram porque sim. As costas de Joana dão conta da existência de parede fria. O corpo quente de Clara pesa  contra o seu, apertando-lhe a alma. Joana está subitamente mais pequena. As pernas enormes de Clara abrem as suas. Os jeans apertam-lhe as coxas e a barriga. As mãos de Clara têm o comprimento de todo o seu corpo. Fugir é uma impossibilidade não ponderada. Joana deixa que a morte venha. E o seu corpo desfaz-se. O sangue transparente escorre-lhe para fora da boca e pelo interior das pernas para a mão dela. A mão ensanguentada de Clara ampara-a por ali. Sangue branco viscoso escorre e encharca-lhe o pulso. A mão principia a mexer-se para estancar a hemorragia. O que não é verdade. Os seus longos dedos percorrem agora planos interiores escorregadios. Empurra as coxas contra as dela. Quer derreter-se sobre ela. Penetrar-lhe, feita em líquidos, os poros dilatados da pele. Quer viver por um momento único dentro dela. Abre-lhe as pernas com os joelhos e pressiona-a ainda mais contra a parede. Aproxima o seu rosto selvagem e prende-lhe eternamente o olhar. Os dedos trémulos de ansiedade penetram. De novo. O corpo de Joana volta a abrir-se para Clara entrar. Por entre os lagos e caminhos desta viagem sem destino marcado o silêncio sacode as palavras pouco ditas.

 

Clara: Diz-me, já estiveste com alguém assim... desta maneira?

 

A voz saia-lhe entrecortada. Ofegante.

 

Joana: Eu nuca estive com ninguém antes.

 

O corpo de Joana estremeceu violentamente. Clara empurrara os dedos com mais força. Mordeu-lhe a boca.

 

Clara: Porque me mentes assim?
Joana:Eu não estou a mentir.

 

Sorria e olhava-a com os olhos húmidos.

 

Clara:Eu não queria ninguém na tua vida antes.
Joana:Eu olho para ti, e acho que nunca houve ninguém na minha vida antes.

 

A voz quase não saía do peito.

 

Clara: Mas houve. E eu não queria. Não queria...
Joana: Amo-te tanto, querida. Tanto!

 

Os braços de Joana envolviam a cabeça de Clara. Clara saiu de dentro dela. Abraçaram-se num desespero incompreendido. Com força. Olharam-se como se o mundo não existisse para além da extensão total do espaço que os seus pés ocupavam. As lágrimas rolaram pelas face de Clara. Molharam-lhe a boca inchada. Pingavam-lhe dos lábios em grossas gotas que caiam sobre o ombro  de Joana. Estavam tão agoniantemente felizes. Era uma felicidade que lhes doía, mas que também lhes sossegava a alma. Como se a morte as envolvesse sem lhes tocar. Estiveram assim muito tempo. Num silêncio cheio de significados. Repleto de mensagens. Nem todas descodificadas.

 

Joana: Eu queria morrer agora.
Clara: O quê?
Joana: Eu queria que morressemos as duas agora.

 

Clara fitou-a muito séria. Afastou ligeiramente o corpo e deixou cair os braços. Depois, levou as duas mãos ao rosto dela e segurou-o com cuidado. Beijou-a. Cerrou os olhos. Joana fechou os dela. Esperaram assim que a morte chegasse.

  

 

O QUE É O AZUL?


Cat2007

30.06.10

 

 

De certo modo, "Azul" é como eu. Um argumento inacabado. Sei como acaba a história. Sei como começa. Sei o que acontece pelo meio. Mas falta organizar a densidade das personalidades dos personagens. São complexos. É uma coisa sobre mulheres. É por isso. Claro. Mães e filhas e amantes. Não é uma história de lésbicas, mas os romances ali vividos tinham de o ser. Porque constatei que há algo de incontornavelmente incestuoso na relação mãe/filha. E nada o faria supor. Com efeito, até hoje nunca observei grande proximidade entre as mulheres. Entre as que geram e as que são geradas. Pode ser um equívoco meu, mas parece-me que as mães estão sempre mais próximas física e emocionalmente dos filhos do sexo masculino. Existe um não sei o quê de falta de à vontade, um distanciamento, uma espécie de fronteira que separa as mães das filhas. Ao ponto de se pensar que os rapazes são os preferidos.

 

Resolvi confrontar a minha mãe com esta questão: "Mãe, é verdade que sempre gostou mais dos manos do que de mim?". Ela ficou estupefacta. "NÃO!". Acreditei imediatamente nela. Por isso ficou-me na mente a imagem daquela barreira sem nome e sem forma que sempre nos separou.

 

A sensação é que caminhámos sempre lado a lado cheias de cuidado para não tocar nesse muro imaginário. Um elemento que nunca esteve presente na relação com o meu pai. Não questionei os meus irmãos sobre isso, mas será que com o pai a coisa corria para eles do mesmo modo? Quando questionar, poderei escrever sobre os homens e da relação pai/filho. Agora escrevo sobre mulheres. Só porque sou mulher.

 

Nunca medi a separação de que falo pelo número de beijos, abraços ou quaisquer outras demonstrações de afecto. Igualmente a falta de orgulho em mim nunca foi queixa que tivesse contra a minha mãe. Não é por isso que há uma fronteira que não se pisa. Talvez a questão esteja um pouco no modelo. As mães serão, em princípio, o modelo que as filhas devem seguir. Existe a enorme responsabilidade de orientar. E bem. As mulheres que não têm este tipo de relação de sangue vão juntas à casa-de-banho. Parecem demasiado próximas para a verdade da proximidade que realmente não têm. Eventualmente, é difícil para uma mulher ser mãe de outra porque tendo que ser o seu modelo, também está convencida de que tem de rivalizar. Estar contra. Desfazer. A imagem do homem dentro de casa é crucial. Tudo isto tem a ver com os papeis sociais destinados aos homens e às mulheres. Naturalmente, as relações das mães com as filhas são confusas. Não duvido da profundidade do amor que lhes subaz. Mas é mesmo isto que confunde. Parece que as mulheres não foram feitas para se amarem profundamente.

 

No "Azul" faço experiências. Criei uma mãe demasiado madura, que não tem uma relação de origem biológica com a filha, e já não tem marido. Construi uma mãe biológica jovem, que fica viúva ao fim de dois anos de casamento. A primeira mãe é heterossexual. A segunda mãe é filha da primeira, e é homossexual não praticante por ser heterossexualista e, para além disso, homofóbica. A filha desta é a Maria, e é homossexual.

 

Sem homens, abri um espaço para romper a barreira invisível onde não se pode tocar. As fronteiras entre estas mães e filhas foram violadas. Resultaram daqui relações quase incestuosas, demasiado intensas e com contornos um tanto trágicos. Fica-se muito próximo do ridículo. É difícil para as mulheres viverem sem pontos de referência masculinos. Mesmo as lésbicas precisam de homens. Nem que seja para compreenderem melhor porque gostam de mulheres.

 

A vida emocional de todas as pessoas corre muito próximo do ridículo. Todas as relações de amor começam pelo incesto. Há que enfrentar estes factos. Porque são factos.

 

O "Azul" não está pronto. Meti coisas nas bocas das pessoas erradas. Acresce que, enquanto narrador, não assumi as minhas responsabilidades, deixando os personagens falar quando não deviam. É por isso que não está bom. Ainda. De qualquer modo, há excertos do "Azul" onde eu não vou tocar. Como este que publiquei aqui. Talvez possa fazer o mesmo com mais um ou dois.

 

Ah, Azul! Pois... são os olhos de Teresa, do céu e do mar. Também os de Joana. Na verdade, a Ana é Joana. Decidi mudar. Fiz mal. A Maria. Nunca foi Maria. É Clara. Vai ficar Clara mesmo. Este argumento foi escrito em 2004. Não tenho culpa de me ter cruzado com Joanas e Claras depois disso. Além de que ninguém me garante que esteja livre de alguma Maria ou de uma Ana. Nomes são nomes quando pertencem a pessoas da vida real. Mas na ficção já não pode ser assim. Os nomes que eu esolhi respondiam a uma necessidade de dizer mais qualquer coisa. Ajustam-se ao que eu quero fazer com os personagens. Não podem por isso ser mudados.

 

 

AZUL


Cat2007

25.06.10

 

 

No momento, o carro rodava por entre os elementos, móveis e imóveis, da cidade. E era só. Lá dentro ouvia-se o silêncio. Somos dois gritos calados. A música soltava-se nítida do rádio. Elas, porém, não ouviam. Estavam surdas de silêncios. As mentes perdiam-se de encontro ao objectivo traçado. Iam para casa. Para a cama. Fazer amor. You took a mistery and make me want it. A música que não se ouvia, estava ali apenas para acompanhar os ritmos das emoções. As melodias vinham de qualquer lugar não definido. De uma emissora irreal. Por isso, a estranha selecção musical. 

   

 

 

Até almas mais aventureiras e corajosas sentem, pelo menos, um respeito reverencial em relação ao desconhecido. Como se sairia do confronto com ele? Era nisto que Maria pensava. A verdade é que lhe doía a alma de uma forma física. Como se tivesse dores musculares. O sofrimento que antes lhe fora imposto enfraquecera-a. Sentia-se como uma criança desprotegida. Muito pequenina. Estava anormalmente fragilizada. Assim que o dia amanheceu lá no mar alto da paixão/Dava pra ver o tempo ruir/Cadê você, que solidão/Esquecerá de mim e enfim/De tudo o que há na Terra não há nada em lugar nenhum/Que vá crescer sem você chegar/ Longe de ti tudo parou/Ninguém sabe o que eu sofri. A dor da separação precoce que não chegou a acontecer, ainda lhe tocava assim. Desta maneira.

 

 

 Ana não a via de fora para dentro. Mas ao contrário. No teu poema existe um verso em branco e sem medida/Um corpo que respira em céu aberto/Janela debruçada para a vida/No teu poema existe a dor calada lá no fundo/ O passo da coragem em casa escura/E aberta uma varanda para o mundo. Tinha mergulhado dentro do espírito de Maria. Buscava-a nas profundezas do ser. Navegava a sua alma. Para a ver melhor. Existe um rio, a sina de quem nasce fraco ou forte/O risco, a raiva e a luta de quem cai ou que resiste/Que vence ou adormece antes da morteEmergiu no fim da canção. Agora, que tinha a imagem completa, podia vê-la com toda a nitidez. Existe um rio/O canto em vozes juntas vozes certas/Canção de uma só letra/ E um só destino a embarcar/No cais da nova nau das descobertas/No teu poema existe a esperança acesa atrás do muro.O carro estava parado junto ao prédio. Fixaram-se. O mesmo amor expelia pelos olhos energias convergentes. Era exactamente o mesmo género de amor. Existe tudo o mais que ainda me escapa/E um verso em branco à espera do futuro.

 

 

 

 

 

Maria deixou-se conduzir à casa, ao quarto e à cama. Foi a música que a levou. Aquela música que continuava a tocar dentro delas. A melodia que substituía todas as palavras. Ana despiu-a, deixando-a totalmente nua, estendida sobre o edredão. Parecia-lhe que ela acabara de morrer. Recuou. Foi capaz de se afastar dela. Só para a ver. Maria deixou-se estar imóvel. Fechou os olhos para não incomodar Ana.

 

Ana estava de pé embriagada de espanto. Continuava vestida. Tudo em si parara. Tal qual como o resto do mundo. You’re just too good to be true/Can’t take my eyes of you/You’ll be like even to touch/I Wanna hold you so much. Despiu-se. Manteve-se, no entanto, onde estava. De pé. Do mesmo modo. Entretanto, Maria abriu os olhos no momento em que virou a cabeça para ela. O sorriso foi-lhe transportado no movimento do olhar. Dos pés à cabeça de Ana. O olhar. You looked inside my fantasies/and made each one come true/Something no one else had ever found a way to do. Estendeu-lhe a mão. Ana foi.

 

 

Tudo acontecia com a solenidade das grandes ocasiões. Dos grandes eventos. Involuntariamente. Olharam-se com a seriedade de quem preside a um ritual. Apenas as pontas dos dedos actuava sobre a pele. Durante algum tempo. O sangue a ferver pulsava nas bocas, no entanto. Por isso o beijo interminável colou os corpos nus que se confundiram.A musica aproximou-se devagar. Au premiere temp de la valse/Toute seul te sorrit dejá/Une Valse à trois temps/ Une valse à quatre temps. Subia de tom.Une valse à vingt temps/ Une valse à cent temps.Explodia! Une valse à mil temps/ une passion de vignt ans/parsque tu as ving t ans et j’ai vingt ans. Dans le premirére temp de la valse 

 

 

 

A paixão afrouxou um pouco. Para deixar respirar o amor através das bocas que buscavam ar uma na outra. If i could make a wish i think i’d pass/can’t think of anything i need/No cigarettes, no sleep, no light, no sound/Nothing to eat/No books to read/Making love with you left me peaceful, warm and tight/What else could I ask/there’s nothing to be desired/Sometimes all I need is the air that I breath and to love you.

 

 

 

 O que se tornava difícil de suportar era aquela alternância de emoções, que mudava todos os ritmos intempestivamente, confundindo tudo. Sem possibilidades de contrariar nada, elas abandonavam-se. Deixavam os corpos vibrar de acordo com os sons. Entregavam as almas indefesas aos caprichos da música. Ver te correr /ver te pedir me mas/y se volviera a nascer repetiria/y se volviera te pediria mas calor/Me quemas con la punta de tus dedos/Tus manos hacem chagas in mi piel/Me abraco con tu lengua qui es de fuego/Tu ja sabes que me tienes quando quieras/Ja sabes como soy/Y que calor/Me gusta tu infierno. Ana provava o corpo de Maria. Incendiava-a. Molhava-a com saliva. Acalmava-lhe a pele. Entrou dentro dela vezes sem conta. Saiu. Entrou pela virgindade dela. Furou. Maria sentiu a devida dor. Ana bebeu o sangue com devoção. Passou-lhe os dedos pela boca. Pintou-lhe os lábios de vermelho. Tu vieste em flor/ eu te desfolhei/tu te deste em amor.

 

 

 Ana: És minha?

Maria: Toda!

 

Nenhuma delas sentia obscenidade no que acontecia.

 

Ana: Boazuda!

Maria: És tu.

 

Nem uma ponta de vergonha.

 

Maria: Vem, faz tudo outra vez.

Ana: Atrevida!

 

O mundo tinha o tamanho daquelas quatro paredes. Era essa a dimensão do universo. Aquele quarto. Os únicos seres viventes eram elas. De modo que podiam dizer e fazer tudo o que queriam, sem limites.

 

Ana: Tens que pedir.

Maria: A sério?

Ana: Implorar, pode ser?

Maria: Fode-me e chupa-me outra vez, querida.

Ana: Tu não tens vergonha…

Maria: Desejo-te.

Ana: E eu a ti.

 

Rolou para cima do corpo dela. Mais uma vez. Maria fechou os olhos. Devora me otra vez/ven, devora me otra vez.

 

Mas depois, como uma inevitabilidade, o prazer do amor recuperou completamente o espírito de Maria. Cresceu.

 

Maria: Agora vais ficar ai. Bem quietinha.

 

A bela amazona sentia-se já plena de vigor. Cheia do seu espírito guerreiro. Preparava-se então para subir para a sua montada. Desejava cavalgar velozmente a sua égua. Queria-a sem freios. Deu-lhe de esporas. Ela empinou. Maria sentiu uma vertigem. Depois, fê-la desenfrear numa correria. Sentiu-a a querer afrouxar, de vez em quando. Não lho permitiria. Feria-a nos flancos. A égua relinchava de dor. E sangrava. O animal acabou por disparar incontrolado. Como Maria desejava. Manteve-se habilmente na sela até a égua estacar. Completamente extenuada. Desmontou.

 

Passou-lhe as mãos pelo corpo derretido em líquidos de várias qualidades. Lambeu-lhe as zonas doridas. Engoliu-lhe as lágrimas. Uma por uma. O sal fez-lhe sede. Foi beber à fonte de água corrente. Ao lugar que, no momento, era o centro do seu universo. O seu mundo provisório. Ana enfiou os dedos nos cabelos dela e respirou fundo. Nobody does it better.../Nobody does it half as good as you/Babe your the best!

 

 

Maria: Querida, querida.

Ana: Diz, minha querida.

Maria: Querida!

Ana: Minha querida.

 

Apertaram-se muito. Como de costume. When you wish upon a star/Makes no difference who you are/Anything your heart desired/Will come to you/If your heart is in a dream/No request is too extreme/When you wish upon a star/ As dreamers do.

 

 

 

 

Davam as mãos com os corpos adormecidos. Há um bocadinho que nada diziam. Cada uma tinha-se retirado para uma tomada de consciência individual. Estavam a regressar cheias dos momentos ainda há pouco vividos. Principiavam, agora, a querer saboreá-los. Depois de os terem consumido.

 

Foi então que Maria, num gesto amplo alterou o cenário. E deu novas falas ao texto. Ficou repentinamente muito séria.

 

Maria: Tu tiraste-me a virgindade.

 

Ana olhou-a ardentemente. Não sabia falar.

 

Maria: Percebeste que eu te dei tudo, para além disso?

 

Pegou na mão dela e exibiu-lhe os dedos com réstias de sangue. Mesmo em frente aos olhos. Ana tocou-lhe o canto da boca com eles.

 

Ana: Eu sou tua.

Maria: Sem dúvida.

 

Ana franziu um pouco a testa.

 

Ana: Doeu?

Maria: Nada. Só no peito.

LOUCURA E AMOR


Cat2007

20.01.10

 

 

 

 

Muitas coisas me têm afectado ao longo da minha vida numa base diária. Coisas importantes e coisas sem importância nenhuma, numa perspectiva relativa das coisas. Por exemplo, tudo o que se passa durante uma semana da minha vida é como se fosse um trabalho de casa que eu tenho de fazer semanalmente. E que tudo o que se passa durante uma semana da minha vida, é tudo aquilo que eu vejo, ouço, sinto e penso durante essa mesma semana. O que, obviamente, dá muito mais do que o produto de sete dias comuns. Assim como quem vai só para o trabalho e descansa ao fim de semana.

 

Há uns tempos  vi o filme "As Horas" de Mrs. Dalloway (Virginia Woolf). Do nascimento à morte na vida de uma mulher em um só dia. Impressionou-me. Porém, fiquei segura que, embora percebendo o essencial, não compreendi muitas coisas. Coisas que eu não sei dizer quais são porque não li Mrs Dalloway. Tudo por causa do "The Lady in the Looking-Glass" . Não gostei e não voltei a tocar na Virgínia Woolf. Também era uma adolescente! Talvez deva voltar às duas, e à terceira: à Mrs, à Lady e à Virginia.

 

Antes de ver o filme, e passe a ignorância, não tinha ideia que Virginia Woolf era esquizofrénica. E continuo sem certezas. Mesmo tendo visto "Quem tem medo de Virgínia Woolf " no teatro. É claro que a própria nada tem a ver com esta peça. Só aparece na cantilena (sim, realmente, sintomática de padecimento esquizofrénico de uns e do medo do padecimento, por parte de outros): "Quem tem medo de Viginia Woolf? Virginia Woolf , Virginia Woolf ...".  Talvez a Elizabeth Taylor hoje. Ela que fez de Martha no cinema.

 

Em geral, as pessoas têm medo dos loucos. Eu não. Praticamente nasci e cresci num sítio onde os loucos eram amados. Onde não havia só loucos. Onde os loucos não eram diferentes dos paraplégicos, dos cegos, dos negligenciados e dos normais desproblematizados, segundo os parâmetros do senso comum. Nada mais semelhante a um circo alegre, ou aquele que não existe. Diferente do clássico que deprime toda a gente.

 

A propósito, não sei porque se concebe que o circo é para as crianças. Nem, aliás, porque se pensa que o circo é para alguém. Por mim, o circo não existia. Ponto.

 

Bom, mas os loucos de onde eu cresci eram teoricamente menos perigosos para si próprios do que os do Hospital Júlio de Matos, ali na Avenida do Brasil. E esta frase sobre o perigo da loucura não tem sentido nenhum neste contexto. Ponto. Só para ligar com o parágrafo seguinte, na verdade.

 

Um dia fui ao Júlio de Matos. Embrenhei-me lá pelos jardins que cortam os diversos pavilhões. O Paul Newman, ainda em novo, pediu-me um cigarro. Olhou-me bem nos olhos com os olhos azuis. Eu não tenho medo de loucos. Estávamos completa e irremediavelmente sós. Eu e ele. Ele colou os olhos nos meus. Eu preguei os meus nos dele. Senti o sangue muito frio por uma fracção de segundo. Medo, pois. Depois, ele franziu a testa. Passou o medo, que eu não tenho, pois. Dei-lhe o cigarro e acendi-lho. Ele deixou os ombros relaxarem. Disse-me: "você é uma boa pessoa. Não é como eu. Eu sou muito mau. Por isso estou aqui". Respondi-lhe que não com a cabeça. Sorri-lhe e fui arrependida por não lhe ter dito que ele era lindo, apesar de tristemente morto de vez em quando. Era lindo. E inesquecível. Nunca lhe diria que percebi que ele estava morto de vez em quando. Mas fiz bem porque isso também não era verdade. Ambos sabíamos bem que o que se passava era, precisamente, o contrário:  com efeito, transbordâncias de vida mental, era o que se passava. Em conclusão, pelo que pude observar, o Paul Newman estava muito mais lixado do que a Virginia Woolf .

 

Não compreendi porque razão, em "As Horas", as mulheres passavam a vida a beijar a boca uma das outras. Igualmente não li o "Orlando". Por causa de "The Lady in..." , já o disse. Também deixei passar o filme ("Orlando"). De qualquer modo, li o "Retrato de um casamento", publicado por Nigel Nicholson, e baseado no diário da mãe, Lady Vita Sackville-West. Que só aparentemente nada tem a ver com o assunto. Pois, ao que consta, um dado está ligado ao outro. Vita e Orlando são a mesma pessoa.

 

Por outro lado Victória Sackville-West, ou mais propriamente, o filho,  revela ter tido um caso de amor com Virginia Woolf. O que o pai de Nigel andava, não andava e permitia fazer, também está esclarecido no referido livro. Mas o que se passava com o senhor Woolf é que passou a ser, para mim, desde "As Horas", um perfeito mistério. E o que esperava este homem daquele casamento?

 

Claro que Viginia Woolf não se suicidou.  O que não é verdade. Embora esteja pouco ou nada morta. No entanto, não tem nenhum filho que lhe publique o diário. Creio eu. Sobre o filho e sobre o diário, não sei se efectivamente existem. Embora tenha quase a certeza que não.

 

Se eu pertencesse à nobreza inglesa, talvez pudesse entender porque razão vai um filho expor os afectos arrebatadores e as intimidades homossexuais da mãe Vita com Violet Kiepel. Quero dizer, não entendo porque não se bastou ele, o Nigel, com as explicações que deu no livro. Para quê publicar extractos do próprio diário da mãe, que, ainda por cima, contrariam quase tudo aquilo em que ele nos quer fazer acreditar? Talvez não lhe publicassem o livro de outro modo. Mas para quê publicá-lo? Talvez a Rainha Isabel II saiba tudo.

 

Porém, ainda, sobre "As Horas," os beijos femininos sobre os beijos femininos foram ali colocados para dizer que Virginia Woolf se sensualizava por mulheres? A isto a Rainha Isabel II não saberá responder. Estou quase certa.

 

Pensava que para amar e ser correspondido era necessário ser tomado a sério pelo correspondente. Talvez os Correios percebam isto melhor do que eu, já que se fala aqui de correspondências. Porém, nem eu, que não tenho medo de loucos, acreditaria num amor desses. Gosto de ser levada a sério. Para começar. De resto, não poria obstáculos ao amor de um louco por mim. Se tal amor tivesse aspectos carnais estimulados pelo ciúme e por aquele género de pulsão que nos leva a fazer as maiores loucuras. Também, o amor necessita de uma sólida base de confiança mútua.

 

Alexandre O'Neill


Cat2007

19.02.07

 
O Alexandre O'Neill escrevia. Um gosto. Uma sinceridade. Uma franqueza. Escrevia com a inteligência mais sensível que a simplicidade pode ter. Alexandre é português. Um português vivo-morto.

 

É muito importante O' Neill estar vivo. Todos temos de o ler. E ouvir. Como eu o ouvi na voz da Amália. Um dia, de surpresa. Deixou-me um nó dorido na garganta. Onde anda o Portugal destes dois?



Vinícius nunca mais! 

 

 

 

 

 

  

 

 

  

 

 

"Só mesmo o Irineu me punha a escrever sobre o Vinícius . O melhor é ler o Vinícius , não escrever sobre ele. Parece que escrever sobre é uma necessidade hoje em dia tão grande que até se fazem jornais quase só para isso. E então se há comemoração de aniversário... Eu gosto muito de ler certos poetas, mas bem pouco do que se escreve a propósito da obra ou da vida deles. Há quem pense que a leitura do Pessoa, por exemplo, está a ser bastante prejudicada pelo excesso de explicadores da obra dele. É provável. O que acontece comigo e com esta enorme falta de vontade de escrever sobre a obra de seja quem for é que não acredito que uma obra ganhe muito em ser explicada. Depois, eu não sou explicador. Só tenho palpites. Sou como o «tio» João: tenho palpites de impressionista, como diz dele o poeta com nome de navio.

E ainda acontece outra coisa comigo: durante muito tempo li mais as explicações do que as coisas que, em princípios, as explicações explicam, e agora, invertida a tendência, estou a ver se aproveito o tempo que me resta de vida para ler finalmente as coisas. Tenho tido surpresas (mais boas que más) que nem lhes digo! Uma das mais importantes foi a leitura das Mémoires d'Outre-Tombe . Recomendo, e deitem pela borda fora tudo o que lhes disseram sobre Chateaubriand , romantismo, etc. Entreguem-se ao prazer da leitura. Façam o mesmo com um Céline e, em duas semanas, vão atirar às malvas uma boa dúzia de autores considerados geniais. É que já lá estava tudo e há muito mais tempo. É uma chatice mas é assim... Mas como gosto muito de Irineu e do amor verdadeiramente patológico que ele nutre pela coisa literária, vou tentar falar do Vinícius , que era como eu, com a diferença de ter mais dinheiro para comprar whisky, o que, verdade verdadinha, também não faz uma diferença por aí além.

A poesia do Vinícius diverte-me tanto que até fiz uma antologia dela. Nas primeiras edições, a antologia chamava-se O poeta apresenta o poeta, que era o meu modo de dizer que um poeta não precisa de ser explicado. Mas como éramos (em princípio...) dois poetas em presença, as pessoas julgavam que era o O Neill a explicar o Vinícius.

Depois do 25 de Abril, a antologia passou a chamar-se, com maior sentido das oportunidades, O operário em construção, que é o título dum dos poemas. Já publicaram 7 edições do Operário, mas o texto, a cartinha que escrevi para o Vinícius só me foi pago (1 conto de réis) uma vez. Dizem que é assim, que não há nada a fazer, que só o Dr. Branquinho da Fonseca é que recebia mais grana cada vez que saía uma reedição duma tradução das dele.

Ora a poesia do Vinícius diverte-me. Ele tem um notável irrespeito por tudo e todos. Ele dá a impressão dum homem que teve respeito só uma vez, só até aprender que nada nem ninguém merece essa hipocrisia a que as pessoas chamam de respeito, essa espécie de esmórfia (passe o italianismo...) de reflexão grave que os mundanos da literatura e arredores põem na bandeira da cara. Aí a gente encontrava-se e ríamos muito. Depois, na poesia do Vinícius há um lado deliberadamente cabotino que também me diverte imenso. Aquela coisa do amor a ser eterno enquanto durar só mesmo dum malandro de génio, que era o que era o Vinícius . Dava a impressão que ele fazia poesia para engatar, para ser imediatamente útil, o que é uma excelente maneira de fazer poesias. Os especialistas não gostam, dizem que se sacrifica muito ao anedótico,

mas haverá coisa mais excitante do que conseguir engatar uma mulher com um soneto? Só mesmo os dois fingirem que foi por causa do soneto...

Outra, coisa que também me diverte é o Vinícius estar-se nas tintas para aquilo a que se poderia chamar o progresso técnico da sua poesia. Imagino que, no fim da vida, ele conseguiu aquilo a que eu, mero aprendiz, aspiro: ser detestado por todos os sectores, ser considerado um ordinarão pela cabeleireira da minha mulher e um idiota reaccionário pelo médico do meu filho e saber, não obstante tudo isso, que há uma mulher de meia-idade que extrai um prazer onanístico da leitura às escondidas dos meus versos... O Vinícius deve ser considerado pelos explicadores um caso arrumado como poeta. É bem feito! Quem lhe mandou fazer tanto soneto de engate e beber tanto whisky em público? O Vinícius era um farsante! Tenho aqui em casa um livro dele com uma dedicatória em que diz que está muito triste por escrever aquela dedicatória na véspera da partida da Christina para o Brasil... Ou então não era farsante nenhum e tinha uma sinceridade para cada momento.

Meu caro Irineu , eu disse-lhe (já que V. mo proibiu ...) que não ia falar das mulheres do Vinícius , mas como posso falar da poesia dele sem falar, pelo menos de raspão, da Christina , das que vieram depois, etc.?

Irineu : com este tipo de máquina já estou nas 3 páginas. Nem Você, caro Amigo, nem o Vinícius , caríssimo Amigo, merecem mais.

Vinícius nunca mais! "

   

 

 

Vinicius de Moraes

 


 

"A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete . Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre".

 

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