CAFÉ EXPRESSO

Outubro 09 2016

Teresa: Tens sentido falta do meu corpo e do prazer, queres dizer.

Madalena: Sim. Porque, embora eu naquela altura o desejasse, tu não me largaste a porta. Sinto falta do teu corpo e do prazer que ele me dá. Único. Muita falta. Nuca mais dormi como deve ser. E tem sido um desconserto escrever a tese.

Teresa: Eu também sinto falta de ti. De colar a minha pele à tua. Do teu cheiro. Igualmente, não tenho trabalhado nada de jeito.

Madalena aproximou-se dela. Levou-a pela mão para se sentarem juntas no sofá sangue-de-boi. Ficaram um pouco em silêncio viradas uma para a outra de mãos dadas e as cabeças baixas. Depois Madalena falou em voz baixa.

Madalena: Porque não disseste tu à tua filha que me amavas quando ela te disse que amava a Joana. Era tão simples. Para que foste repudiá-la? E não lhe contaste nada quando ela estava a ser sincera contigo? Para que vieste aqui agredir-me em seguida?

Teresa: Querida, tu sabes. Ela apanhou-me de surpresa quando eu ia contar-lhe de nós. Do nosso amor.

Madalena: Mas o que te sucedeu foi uma crise de homofobia. Tu ali só pensaste em ti. E quando vieste ter comigo, e me tomaste, foi com raiva. Como se a culpa da Clara ser gay fosse também minha.

Teresa: Naquele momento em que ela me contou, eu odiei-me por ser lésbica. Era como se a culpa de ela também o ser fosse minha. Uma coisa hereditária. Sei lá. E, obviamente, odiei-te. Porque eu sou lésbica porque te amo. Porque foste o meu primeiro amor da vida. O único até hoje. Porque eu não estive com outra mulher. Às vezes duvido que seja lésbica por estas razões. Por seres a única.

Madalena: Sim. Dá impressão que uma pessoa deixa de ter orientação sexual quando ama. Eu sinto o mesmo. Porque, apesar de não teres sido a única, foi só a ti que amei. E amo. Mas agora, as coisas que tu fizeste, este desastre que criaste, vai dar cabo de nós.

Teresa: Não fales assim. É óbvio que eu tenho de esperar pela Clara. Mas ela há-de chegar. Há-de compreender e aceitar. Depois, teremos a vida. A nossa vida.

Madalena: Vai ser tão complicado. Já falámos sobre isso. Para já, como te disse, ela vai acabar com a Joana. E tu vais ter que aguentar as consequências disso. Neste momento, a tua filha deve estar a sentir uma raiva muito grande de ti.

Teresa: Também já te disse que ela é muito melhor do que isso.

Madalena: Espero que estejas certa.

Teresa: Porque me largaste as mãos? Porque te levantaste?

Madalena: Porque este é aquele assunto que nos fere. Estou ferida. Tu não tinhas o direito de fazeres as coisas todas mal. Comigo, não. Porque me partiste um dia. Não tens créditos atualmente.

Teresa: Não confias em mim.

Madalena: Como confiar? Tu fazes sempre tudo para nos afastar uma da outra.

Teresa: Vem cá, querida. Esquece o trauma. Finge que não há passado. Vive hoje como se nós existíssemos apenas a partir do presente. O presente corre desde o dia em que nos voltámos a amar na cama e foi maravilhoso. Vem cá.

Madalena foi. Sentou-se ao lado dela e estendeu-lhe a mão.

Madalena: Mas o presente já está como está.

Teresa: Isso agora não importa.

Teresa aproximou-se dela. Tocou-lhe nos cabelos devagar. Passou-lhe os dedos pelos olhos e pela boca. Madalena inspirou e expirou com calma. Aclamara-se pelo efeito dos atos de Teresa. Abriu os olhos. E ficou presa naqueles dois lagos profundos cheios de pontes a atravessá-los. A custo saiu deles e reteve-se sobre a boca encarnada. Inclinou a cabeça para a frente. E beijou-a muito devagar. Foi talvez o beijo mais longo que deram no presente. Os corpos conformaram-se com as emoções que se iam soltando. Madalena subiu para cima de Teresa sem nunca lhe largar a boca. Esmagaram o vente. Os seios. Partiram as mãos. Apesar da roupa. Madalena soltou-se para lhe dizer baixinho.

Madalena: Tenho tanto medo de ti, mulher.

Teresa voltou a beijá-la. Madalena deixou-se cair naquele beijo. Mais uma vez longo. Depois voltou a afastar-se ligeiramente. Falava-lhe sobre a boca.

Madalena: Isto só me vai fazer mal.

Libertavam-se da roupa com muito vagar.

Madalena: Depois vais-te embora. E eu vou ficar aqui a atravessar um deserto enquanto te espero.

Teresa: Não vais esperar muito, querida.

Madalena: Talvez nem voltes.

Teresa: Cala-te. E não pares de me beijar. Se beijas não falas, querida.

Madalena foi tomada de uma fúria amorosa. Mordeu-lhe a boca. Teresa respondeu ao golpe. Mas com as mãos. Como sempre, perderam a razão e alhearam-se das razões que lhes que lhe recomendavam que parassem. Não pararam até que que os corpos se aquietaram de exaustão.

publicado por Cat2007 às 14:50
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