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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL - Cap X


Cat2007

16.09.16

Clara acabara de chegar a casa. Vinha de um almoço com uma colega de turma que já era sua amiga. Joana. Ligava a esse encontro os pensamentos que tinha agora. A vontade de pensar no passado. Estava a passar um pente fino pela memória. De lá ia fazendo cair parte da história da mãe. Teresa. E da sua própria, evidentemente. Da cara viva do pai não tinha qualquer recordação. Morrera quando ela tinha apenas dois anos. Um pouco mais tarde a mãe explicou-lhe a razão. Um cancro no estômago. Morreu com trinta anos. O que a mais sabia dele recolhera dos inúmeros álbuns de fotografias que havia. Até tinham fotografias de quando ele era pequenino. Via sem dificuldades as semelhanças com as suas próprias. Pareciam quase a mesma pequena pessoa de rosto largo e com grandes olhos castanhos.

Já em relação à mãe, poucas eram as semelhanças físicas. Tinham os mesmos pés, mãos, pernas e braços, o que não se percebia. De visível existia apenas uma ou outra subtileza no sorriso e o pequeno corte vertical a querer dividir o queixo. Porém, e sobre o mais que não se podia imediatamente perceber, a forma da alma, Clara estava convencida de que ela e a mãe eram basicamente iguais. Era por este motivo que sonhava ser um dia como ela. Aproximar o seu espírito aos contornos do da mãe.

Quando os pais casaram foram viver para a Alameda. Teresa não se quis separar da mãe Amélia. Ela, porém, morreu alguns meses depois do casamento. Clara imagina que foi a pior dor da sua vida. Tem impressão de que deu conta dessa dor imensa quando ainda aconchegada no útero. Mas não certamente por ouvir a mãe chorar. Teresa não chorava. Nunca saíram da casa da Alameda. A mãe não desejava separar-se de vez da avó Amélia. Ficariam juntas. Mesmo depois da morte. A certa altura Teresa mandou fazer obras. Contudo, quando redecorou a casa, integrou os móveis e todos os objetos mais queridos da sua mãe em espaços perfeitos. Como quem dá a adequada materialização a um projeto que esteve desde sempre planeado. Depois a mãe confidenciou-lhe que a presença da avó Amelinha haveria de manter-se sempre naquela casa. Clara devia notar que tal presença dava uma energia especial. “Não tens uma certa sensação de equilíbrio, segurança, conforto e sobretudo esperança?” Clara tinha de facto muitas destas impressões. Na verdade estava profundamente convencida do que a mãe dizia. Sabia que a avó era como que o alicerce fundamental da alma da mãe. Isto bastava-lhe para compreender que não era possível pensar a mãe sem a luz e o oxigénio que a avó lhe tinha ministrado. Toda a vida até à morte e depois de ela ter morrido.

Abriu os olhos. Deixara-os ficar fechados sobre o edredão da cama. Estava na hora de jantar. A mãe ainda estava no escritório certamente. “Ela é totalmente maluca pelo trabalho. Aquilo preenche-a. Não há outra coisa. Um homem, uma paixão. Porquê?”. Nunca soubera da mãe apaixonada. “Porquê?”. E no entanto nunca lhe fizera esta pergunta simples. “Porque nunca lhe perguntei? A mãe não deixaria de me responder. Sempre me deu resposta a tudo.”. Considerou primeiramente que nunca perguntara nada porque acabava sempre por se distrair do assunto. Mas rapidamente concluiu que não. “Durante tanto tempo, estes anos todos?”. E o que lhe responderia a mãe? Tenho a certeza que se metia por um discurso inflamado cheio de enormes complexidades. Tenho a certeza. Foi por isso que não tive paciência, talvez.”. Vieram-lhe à cabeça um par de rostos. Acabou por se deter num jornalista que depois foi viver para Itália. Lembrou-se deste por um acaso da memória. E também por ser um bom exemplo. Com efeito, pelo que lhe foi dado observar, a mãe não estivera mais nem melhor com ele do que com qualquer outro. Ou seja, mal esteve.“. “Tenho a impressão que ela não dormiu com ele mais de uma vez.”. Mas rapidamente abandonou estas ideias. Não gostava nada de misturar a mãe com sexo. Virou-se para a avó. Foi de encontro ao amor profundo e projetou a eterna fidelidade que a mãe lhe votava. “Se calhar é por isso. Por causa do meu pai. Amava-o”. A mãe uma mulher de um amor. Uma mãe. Um homem. Uma filha. Uma filha. Uma mãe. Um homem. Concluiu assim e pareceu-lhe que percebia tudo.

Levantou-se para ir jantar sozinha e passou pelo espelho. E aquela foi uma das raras vezes em que podia suceder que olhasse para ele parada. Continuava a ver refletida uma figura singular de pernas longas e finas e “esta boca gigantesca”. Não se considerava bonita. Malgrado terceiras opiniões que a contrariavam sempre. Lembrou-se ali que na escola secundária a maior parte das colegas tinham namorados com quem mantinham relações sexuais. Enquanto ela desconhecia o nome das pílulas e jamais experimentara as dores da primeira penetração. Não partilhara os terrores suscitados pela possibilidade de uma gravidez e nunca tivera um desgosto de amor. Os sentimentos, que chegou a crer fortes, morreram todos no mesmo instante em que se tornaram concretizáveis. E quando as bocas se tocavam sentia sempre frias deceções. Assim, aos vinte anos mantinha-se tranquilamente virgem. Era uma tranquilidade própria e pessoal. Porque no lado da vida e das pessoas, no lado dos outros, o pior lado, Clara sentia-se desconfortável. Não gostava por isso de ver essa língua de espaço em branco. Deixava-se perturbar com a terceira parcela do universo dos afetos por estar à vista de todos que ainda se encontrava por ocupar. O espaço que pertencia à mãe estava desde sempre perfeitamente preenchido. O outro, o das amizades, foi sendo ao longo do tempo cada vez mais bem gerido e no momento estava até melhor do que nunca, uma vez que aparecera Joana. Mas restava-lhe realmente um espaço vazio. Já se tinha perguntado inúmeras vezes sobre as razões disso. Agora adiantava a possibilidade de que talvez ainda não tivesse aparecido a pessoa certa. “Talvez eu seja como a mãe. Uma mulher de um amor só.”.  

 

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