Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL - Cap XLV


Cat2007

04.10.16

Mantinham-se no chão com os corpos ligeiramente afastados. As mãos de Madalena tapavam a própria cara. Por entre os dedos, escorria-lhe o líquido salgado. Até aos pulsos. Teresa falou baixinho.

Teresa: Desculpa.

Madalena: Desculpo o quê?

Parou um segundo para levantar a voz enquanto se erguia. Ficou sentada. As lágrimas agora percorriam livremente a face, o pescoço e o peito. Encarou Teresa.

Madalena: Deves estar a falar da foda que me deste. Mas disso não tens que pedir desculpa. Eu gostei. Como viste. Não sabia que um dia seria violada e que poderia gostar.

Teresa: Não sejas hipócrita. Eu não te violei.

Madalena: Então estás a pedir desculpa de quê?

Teresa: De ter sido um bocadinho bruta. De te ter esbofeteado…

Madalena: E do resto não? Nada mais te perturba.

Teresa: Escuta-me, Madalena. Eu estou muito confusa e desgostosa.

Madalena: Teresa, levanta-te do chão, veste-te e sai, se faz favor.

Teresa: Porquê, meu amor. Eu amo-te. Não me faças isto.

Madalena: Olha, eu vou tomar um duche. Quando sair não te quero ver cá em casa.

Teresa saiu imediatamente. Veio para a rua pensar que não queria voltar a casa e enfrentar a filha. “Não neste estado humilhado”. Era hora do lanche. Foi à Mexicana. Pediu um café e, ironicamente, uma madalena. Comeu e bebeu depressa. Tinha intenção de caminhar a Avenida de Roma toda até ao cruzamento com a Avenida do Brasil. E voltar pelo mesmo caminho até à Alameda.

Era necessário desentorpecer os músculos. Distrair-se da tragédia que lhe acabara de suceder e respirar. Até porque havia Clara. Com Clara não poderia existir um corte na relação. Como acabara de suceder com Madalena. E que já lhe estava a arder tanto. Mas talvez fosse melhor assim. Era preciso lutar pela filha. Como poderia fazer isso, se estivesse envolvida com Madalena? Aliás, com que moral falaria à filha se lhe tivesse que contar que amava Madalena e que queria partilhar a vida com ela? O essencial era que Clara fosse feliz. “Desde que tudo começou com Joana que a minha filha está outa. Quantas vezes terão dormido juntas? Mais do que as vezes que Clara não dormiu em casa. E que foram mais vezes do que aquelas que Teresa sabia. Deixou-me sem qualquer possibilidade de agir”. Clara, pela omissão, impedira-a de assumir o controlo da situação. Sentia-se de novo furiosa. O que falhara? Afinal chegava à conclusão que a filha não confiava nela. Se Clara lhe tivesse dito alguma coisa antes, podiam ter conversado. “Era possível evitar tanta coisa. Mas não. Hoje atira-me para cima o facto consumado. Isto não é honestidade.”. A raiva levava-a consumir o oxigénio mais rapidamente. A casa passo que dava, sentia-se ofegante. “Agora é tão mais complicado protege-la do sofrimento que ai vem. Porque razão a minha filha há-de passar por uma coisa horrível destas? A culpa é da Joana. Ela veio dos braços da Madalena para alterar as regras do jogo. Que nojo! Num passo de sedução aprendida, a Joana modificou a Clara. Raios! Pensava que a Clara fosse mais forte. Ensinei-a a pensar pela cabeça dela. Como pôde falhar assim?”. Era este o pensamento contorcido de Teresa. E assim virou a Avenida de Roma para trás. Até à Alameda.

2 comentários

Comentar post

stats

What I Am

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Em destaque no SAPO Blogs
pub