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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL - Cap XXI


Cat2007

20.09.16

Ouvia-se o silêncio através do som de um rádio ligado num sítio qualquer. Somos dois gritos calados. A música soltava-se nítida. Elas, porém, não ouviam. Estavam surdas de silêncios. As mentes perdiam-se de encontro ao objetivo traçado. Iam para casa. Para a cama. Fazer amor. You took a mistery and make me want it. A música que não se ouvia estava ali apenas para acompanhar os ritmos das emoções. As melodias vinham de qualquer lugar não definido. De uma emissora irreal. Por isso a estranha seleção musical.

Até as almas mais corajosas e aventureiras sentem pelo menos um respeito reverencial em relação ao desconhecido. Como se sairia do confronto com ele? Era nisto que Clara pensava. A verdade é que lhe doía a alma de uma forma física. Como se tivesse dores musculares. As violentas emoções que lhe vinham sendo impostas enfraqueceram-na. Via-se como uma criança desprotegida. Muito pequenina. Estava anormalmente fragilizada. Dependia enormemente de Joana. Tinha medo. Assim que o dia amanheceu lá no mar alto da paixão/ Dava prá ver o tempo ruir/ Cadê você? Que solidão /Esquecerá de mim e enfim/ De tudo o que há na terra não há nada em lugar nenhum/ Que vá crescer sem você chegar/ Longe de ti tudo parou/ Ninguém sabe o que eu sofri. A dor da separação ainda lhe tocava. A separação que imaginara num desejo forçado que não teve forças para realizar. Pertencia agora a Joana.  Joana não a via de fora para dentro mas ao contrário. Tinha mergulhado dentro dela, buscando-a nas profundezas do ser. Navegava no seu espírito para a ver melhor. No teu poema existe um verso em branco e sem medida/Um corpo que respira, um céu aberto/Janela debruçada para a vida/No teu poema existe a dor calada lá no fundo/O passo da coragem em casa escura/E aberta uma varanda para o mundo/Existe a noite, o riso e a voz refeita à luz do dia/A festa da Senhora da Agonia e o cansaço do corpo que adormece em cama fria/Existe um rio, a sina de quem nasce fraco ou forte/O risco, a raiva e a luta de quem cai ou que resiste/Que vence ou adormece antes da morte/No teu poema existe o grito e o eco da metralha/A dor que sei de cor mas não recito/E os sonhos inquietos de quem falha/Existe um rio, o canto em vozes juntas, vozes certas/Canção de uma só letra/E um só destino a embarcar no cais da nova nau das descobertas/No teu poema existe a esperança acesa atrás do muro/Existe tudo o mais que ainda me escapa/E um verso em branco à espera do futuro. Emergiu no fim da canção. Agora que tinha a sua imagem mais completa podia vê-la com toda a nitidez. Fixaram-se. O mesmo amor expelia pelos olhos energias convergentes. Era exatamente o mesmo amor. Clara deixou-se conduzir ao quarto e à cama. Foi a música que as levou. Aquela música que continuava a tocar dentro delas. As melodias que substituíam todas as palavras. Joana despiu-a, deixando-a completamente nua estendida sobre o edredão. Parecia-lhe que Clara acabava de morrer. Mais uma vez. Recuou então. Foi capaz de se afastar dela só para a ver. Clara deixou-se estar imóvel, fechando os olhos para não incomodar.

Joana estava de pé embriagada de espanto. Continuava vestida. Tudo em si parara. Tal como o mundo. You’re just too good to be true/Can’t take my eyes of you. Despiu-se. Manteve-se no entanto onde estava. De pé. Do mesmo modo. Clara abriu os olhos no momento em que virou a cabeça para ela. O sorriso foi-lhe transportado no movimento do olhar. Dos pés à cabeça de Joana. Viajara assim. You looked inside my fantasies and made each one como true/Something no one else had ever found a way to do. Estendeu-lhe a mão. Joana foi.

Tudo acontecia com a solenidade das grandes ocasiões. Dos eventos importantes. Olharam-se com a seriedade de quem preside a um ritual. Apenas as pontas dos dedos atuavam sobre a pele. Durante algum tempo foi assim. Talvez durante muito tempo. O sangue a ferver pulsava nas bocas, porém. Por isso o beijo interminável colou os corpos nus que se confundiram. E a música aproximou-se devagar. Au première temp de la valse toute seul te sorrit déja/ Une valse à trois temps. Une valse à quatre temps. Subia de tom. Une valse à vingt temps/Une valse à cent temps. Explodia. Une valse à mil temps/Une passion de vingt ans parsque tu as vingt ans et j’ai vingt ans. A paixão afrouxou um pouco para deixar respirar o amor através das bocas que buscavam ar uma na outra. If i coulda make a wish i think i’d pass/can’t think of anything I need/No cigarrettes, no sleep, no light, no sound/Nothing to eat/No books to read/Making love with you left me peaceful, warm and tight/What else could I ask there’s nothing to be desired/Sometimes all I need is the air that i breath and to love you. O que se tornava difícil de suportar era aquela alternância de emoções que mudava todos os ritmos intempestivamente, confundindo tudo. Sem possibilidade de contrariar nada, elas abandonavam-se. Deixavam os corpos vibrar de acordo com os sons. Entregavam as almas indefesas aos caprichos da música. Joana queria-lhe o corpo. Incendiava-a com o hálito. Molhava-a com saliva, acalmando-lhe a pele. Entrou pela virgindade dela e furou. Clara sentiu a devida dor. Depois Joana foi beber o sangue com devoção. Passou-lhe os dedos pela boca, pintando-lhe a boca de vermelho. Tu vieste em flor/Eu te desfolhei/Tu te deste em amor.

Joana: És minha?

Clara: Toda.

Joana: És boa.

Clara: Tu é que és.

Nenhuma delas sentia obscenidade no que acontecia. Nem uma ponta de vergonha.

Clara: Vem por favor. Faz tudo outra vez.

O mundo tinha o tamanho daquelas quatro paredes. Era essa a dimensão do universo. Aquele pequeno quarto. Os únicos seres viventes eram elas de modo que podiam dizer e fazer tudo o que queriam. Sem limites. Experimentaram.

Joana: Tens que pedir.

Clara: A sério?

Joana: Sim.

Clara falou-lhe muito baixinho.

Clara: Fode-me e chupa-me outra vez.

Joana: Tu não tens vergonha.

Clara: Tenho um bocadinho.

Joana rolou para cima do corpo dela mais uma vez. Clara fechou os olhos. Devora me outra vez, vem devora me outra vez. Por fim o prazer do amor recuperou completamente a vitalidade de Clara.

Clara: Agora vais ficar ai bem quietinha.

A bela amazona sentia-se novamente plena de vigor. Cheia do seu espírito guerreiro. Preparava-se para subir para a montada. Desejava cavalgar velozmente a sua égua. Queria-a sem freios. Deu-lhe de esporas. Ela empinou. Clara sentiu uma vertigem. Fê-la desenfrear numa correria. Sentiu-a a querer afrouxar. Não lho permitiu. Feriu-a nos flancos. A égua relinchava de dor. E sangrava. O animal acabou por disparar descontrolado como Clara desejava. Manteve-se habilmente na sela até a égua estacar completamente extenuada. Desmontou. Passou-lhe a mão pelo corpo derretido em líquidos de várias qualidades. Lambeu-lhe as zonas doridas. Engoliu-lhe as lágrimas uma por uma. O sal fez-lhe sede. Foi beber à fonte de água corrente. Ao lugar que no momento era o centro do seu universo. O seu mundo provisório. Joana enfiou os dedos nos cabelos dela e respirou fundo. Nobody does it better/Nobody does it half as good as you/Babe your the best. No fim Clara regressou à boca dela e sussurrou-lhe sobre os lábios.

Clara: Querida. Querida.

Joana: Diz, querida.

Clara: É só para te chamar querida.

Joana: Minha querida.

Pararam pelo tempo do leve cansaço. Voltaram depois no gesto amplo com que Clara alterou o cenário e deu novas falas ao texto. Parecia muito séria.

Clara: Tu tiraste-me a virgindade.

Joana apenas a olhou ardentemente. Não sabia falar. Clara pegou na mão dela e exibiu-lhe os dedos com réstias de sangue mesmo em frente ao azul dos seus olhos. Joana tocou-lhe o canto da boca com eles e declarou com solenidade:

Joana: Eu sou tua.

Clara: Sim.

Pararam. Joana franziu ligeiramente a testa.

Joana: Doeu, amor?

Clara: Nada. Não notei nada.

Joana: Parece que durantes estas horas passaram muitos anos.

Calaram-se. Os olhos de Clara seguiam figuras transparentes que lhe fugiam em direção ao céu. Joana tentou alcança-la.

Joana: Em que estás a pensar?

Clara: Estou a pensar que ainda não há muito tempo eu era uma pessoa diferente e a minha vida era outra.

Joana: Também eu era.

Suspirou, expirando algumas toxicidades.

Clara: Sim.

Joana: E agora como vai ser?

Clara: Agora talvez eu precise de te amar todos os dias a todas as horas para poder continuar.

Joana: Continuar a respirar?

Clara: Sim.

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