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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL - Cap XXIII


Cat2007

21.09.16

Clara tinha que sair. Joana ia levá-la. Queria estar em casa antes de a mãe chegar. Tinha medo que ela adivinhasse. Entre as duas não havia segredos. E sobretudo não se diziam mentiras. No entanto, preparava-se para uma omissão. Gravíssima. Era preciso não a encontrar. Pior do que mentir era ser confrontada com a mentira. O telemóvel emitiu um sinal habitual. “Hoje não janto em casa”. Suspirou. Que coincidência feliz. A mãe muitas vezes não aparecia para jantar. Mas, naquele dia, acontecia, de facto, uma coincidência feliz. Acalmou. Já não tinha assim tanta pressa. Desceram à garagem. Saíram da garagem.

O regresso ao mundo ocorreu de forma semelhante a um parto. Eram como duas gémeas expelidas de um útero. Mal ouviam e custava-lhes falar. Um feixe de energia imanente transbordava para fora das fronteiras da pele, atuando como escudo protetor contra as influências do meio.

Rodavam devagar pelas ruas indistintas. Alheias a todas as externalidades supérfluas. Joana apenas se concentrava mal na estrada. Transportavam nas mãos, que se apertavam a espaços e fugazmente uma aguarela de cores felizes. As tintas, aplicadas com um certo sentido sobre os seus corpos, cobriam-nas da cabeça aos pés. E davam cores brilhantes e vivas aos olhos. Aos cabelos. E às peles. Eram dois fantásticos retratos vivos, cuja criação está apenas ao alcance de uma outra arte. De matriz eminentemente divina.

Aconteceu-lhes tocarem-se uma vez. A primeira. Com bocas magnetizadas. Aquela paixão foi inevitável talvez por isso. Pelo magnetismo. O que de resto sucedeu não foi igualmente ponderado. O que se passaria a partir daí era imprevisível.

Nunca ouviram. Nunca leram. Nunca tinham ouvido falar. De uma coisa assim. Como saber, então? Quem poderia imaginar que o sangue corre com mais força nas veias do que o mar revolto em noite de tempestade contra as rochas que sustentam os faróis? Quem saberia falar daquela solidão irresistível que as assaltava? Geralmente pensa-se que a solidão é só. Só para uma alma. Nunca para dois seres que se têm completamente. Porém, num certo tipo de sentimento, sucede que, em determinados momentos, o dois passa a um. E nasce um ser novo. Diferente de cada uma das unidades. Um ser só que, de seguida, volta a dois. E reaparece. E volta a dois. E reaparece. E volta… Quem saberia disto? Ambas compreendiam, em qualquer caso, que aquele sentimento dominava totalmente os atos e os factos subsequentes aos atos. Tomara vida própria, existindo para além da vontade delas.

Joana: até amanhã.

Clara: até amanhã.

Subiu. Não comeu nada. Nessa noite, pela primeira vez desde sempre, não vestiu o pijama.

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