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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

O ESCUDO DA INFÂNCIA


Cat2007

12.04.20

O Desenho DO Criança Mulher Terrível Stock Vector - FreeImages.com

 

Estava tão deliciada a recordar as incidências da vida de Agnes, que cai das nuvens quando, após a declaração da própria para si própria de que, na verdade, não amava Paul, o seu marido, o livro, a “Imortalidade” de Kundera, passou para o romance absurdo de Goethe com a jovem estupida Bettina. Já não me lembrava disto. Enfim, é toda uma segunda parte que, desta vez, vou ter que suportar. É que, antes, não a li, tendo passado diretamente para as deprimentes peripécias de vida de Laura, irmã de Agnes, que tinha uma gata com uma imaginada personalidade igual à sua. Mas agora vou ler. Porque o autor também, neste passo do livro, diz coisas preciosas, dada a simplicidade com que observa os fenómenos e depois conclui com acuidade. Vejamos a seguinte observação: “Refugiar-se atrás do escudo da infância era a astúcia toda da sua [de Bettina] vida. Era a sua astucia, mas também a sua natureza, pois já na infância ela se fazia de criança”. Ainda não atingi o nível de egocentrismo e falsidade desta heroína de Kundera, por estar a ler devagar, mas não consigo deixar de recordar certas pessoas e das coisas que elas fazem para ver se nos saltam para o colo, pesando, e para (perigosamente) nos envolverem o pescoço.

 

MUNDO DE AVENTURAS


Cat2007

28.05.19

Resultado de imagem para Aquilino Ribeiro

 

Desde pequena que leio muito. Muitos livros. No início todos os que me apareciam à frente. Hoje em dia, escolho. Mas, como ia dizendo, lia muito em pequena.  Por isso, logo cedo, li todos os livros do meu pai. Além daqueles que também ia buscar à biblioteca perto de casa.

 

O primeiro impulso foi a curiosidade. Porém, o segundo estímulo veio do meu irmão mais velho (2 anos mais), que lia muito mais do que eu, diga-se. Assim, estava sempre a desafiar-me para mais uma leitura. E passou a ser ele quem me apresentava aos títulos.

 

Bem, para dizer verdade, não li todos os livros do meu pai. É que havia a coleção do Aquilino Ribeiro. Tentei. Abri um e a linguagem fechada, agreste, teve em mim um impacto semelhante ao de um pontapé no traseiro. Senti-me, assim, expulsa daquele mundo particular.

 

Porém, o meu irmão não. O meu irmão lia aquilo e vibrava. Quantas vezes o vi a sorrir e mesmo a rir no âmbito daquelas leituras. Depois vinha contar-me as estórias que por ali encontrava. Que me admiravam muito. Quer me fascinavam, quero dizer. E lá ia eu tentar de novo. Ele disse-me que “Quando os lobos uivam” era talvez o melhor. Tentei de novo. E não fui, mais uma vez, capaz.

 

A questão é que aquilo estava demasiado longe da minha zona de conforto literária. Eu, como na prosa e na poesia, tenho na vida um espírito aventureiro com açaime. É assim.

UMA IDA AO INFERNO


Cat2007

28.06.18

Resultado de imagem para crime e castigo dostoievski“Se pecares vais para o inferno”. Esta é uma frase que é um clássico. Sempre que a ouvia em pequena pensava que, então, só pagaria pelos meus pecados depois de morta. Ora, como ainda faltava imenso tempo, tratava de andar na vida como melhor me parecia, sendo feliz, contrariando os sagrado preceitos. Mais à frente na vida haveria de pensar numa solução que impedisse a minha alma de ser lançada às chamas e salvar-me in extremis

 

Ora, nada disto tem a ver como o livro que eu mais gostei até ao momento.

 

No Crime e Castigo, Dostoievsky conta a história de um jovem estudante de direito que, influenciado pela aura de Napoleão, andava a desenvolver uma teoria sobre a superioridade e a suprema libertação dos seres que matavam. Assim, sem razão e sem desígnio, matou. Uma velha agiota e sua filha. E como matou, resolveu roubar alguma coisa do que viu numa tentativa vã de justificar-se a si mesmo. Só que, como era de esperar, e apesar de ser paupérrimo, deitou tudo ao rio. Tudo o que roubou. Depois ficou doente e ainda mais miserável.

 

Chegada aqui, optei por não falar do meio. O meio é o mais impressionante da história. É o que mais nos toca. Portanto, não o digo, só o fim. Que é para não ser spoiler.

 

Bom, no fim ele foi para a Sibéria. Quer dizer, foi condenado a trabalhos forçados durante alguns anos. Isto é o fim.

 

Mas há também um final. No final, uma mulher amava-o. Por isso, ela também foi para a Sibéria. E nunca desistiu dele. E esperou por ele. Era uma mulher que ele também amava mas não se permitiu antes do fim.

 

Pois. Trata-se de uma história de amor, de consciência e de justiça. Um longo conto de humanidade. Vale a pena ler. 

 

SAIR DA GAVETA


Cat2007

09.09.16

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O livro só tem a ver com o blog por razões que se podem intuir. Para já, a autoria é a mesma. Todos os dias vou publicar um capítulo, como hoje fiz. Até ao fim. Não sei se quem vá ler possa gostar. Eu só publico porque um dia decidi escrever para a gaveta. E mudei a decisão. Agora já acho que é melhor publicar. E tenho o meio. Este.

 

Não obstante, continuarei a escrever os meus posts como sempre. Este é um post como sempre. Costumo publicar os meus posts como sempre no Facebook. Mas os capítulos do livro não. Porque o Facebook é o que é. Um contexto complexo. No meu caso, cheio de pessoas que não conheço. Portanto, um ambiente que eu não apreendo com muita facilidade. Sem conhecer de todo a maioria, conheço muito melhor quem vem aqui. Nem que seja porque não costumam dizer nada. As pessoas que aqui vêm. Gosto delas intuitivamente.

DE VOLTA AO AZUL E MAIS QUALQUER COISA


Cat2007

02.09.10

 

 

Finalmente decidi retomar o "Azul". Esta coisa que eu tenho aqui em casa. Como se sabe, já publiquei alguns excertos neste blog. Comecei a escrevê-lo há muito tempo. Entretanto parei. Também já disse isto. Creio que me perdi no meio das personalidades dos personagens que inventei. Nada de novo. É um enredo sobre mães e filhas, essencialmente. Já o tinha dito. Mas agora quero dizer mais coisas e outras que não estão aparentemente relacionadas. Aparentemente.

 

Claro que tenho desejos e algumas pretensões. No que respeita ao livro. Mas, em princípio, vai para a gaveta. Não é assim tão mau escrever para a gaveta. Pelo menos ela não nos critica. E nisto as gavetas são como os cães e os gatos. Apenas não nos lambem as mãos. Embora os nossos animais domésticos, por seu lado, não nos entalem os dedos. Em comum entre cães, gatos e gavetas ainda há o seguinte: estão todos na nossa casa e precisam de alimento. É claro que as gavetas não morrem se não comerem. Mas convém dar-lhes alguma utilidade. Senão, mais cedo ou mais tarde, alguém as deita fora. O que não deixa de ser também um modo de morrer.

 

O Fernando Pessoa dizia que "o sentido útil das coisas é elas não terem sentido útil nenhum". A um nível mais profundo de pensar, não há como discordar disto. Se a vida corre para a morte, pouco ou nada faz sentido útil. No entanto, se olharmos para a vida enquanto valor em si mesmo, então quase tudo tem um sentido útil. Qualquer coisa serve para algo e o que não serve é destruído ou esquecido, o que é quase a mesma coisa. O desaparecimento ou o esquecimento.

 

O meu livro é, como disse, sobre os relacionamentos entre mães e filhas. Sobre o que as une e separa. Sobre as respectivas dependências emocionais. Sobre as causas determinantes dos destinos. Sobre os modos de ser de mulheres. Importa-me este assunto. É difícil para uma mulher compreender bem uma mulher. Talvez por isso as mães se entendam melhor com os filhos do sexo masculino. Por outro lado, talvez os pais se relacionem melhor com as filhas. Não que as compreendam bem. Porém, ao contrário das mulheres, parece que os homens não precisam de compreender tudo para conseguirem amar sem dramas.

 

Se há algo que me dá grande gozo neste blog é o descuidado com que posso escrever. Tudo sai ao ritmo dos pensamentos. Quase. Eu não consigo escrever tão depressa quanto penso. No entanto, esforço-me. Esta liberdade de escrever o que quero e como quero é inestimável. Os assuntos não têm de o ser propriamente. Os planos não existem. A estrutura vai-se montando. Não me preocupo nada com o aprofundamento dos casos. Não quero fazer esforço. Isto para mim é como jogar um King. Recuso-me a decorar cartas. Perco e ganho de acordo com a sorte, intuição e raciocínio. Mais nada. Não me importo de perder ao King. E por aqui (no blog) ninguém me paga nada. Realmente é uma pena que não se pague ou receba por actividades apenas relaxantes. É uma pena de um certo ponto de vista, evidentemente. É que, de outro modo de ver, se estas coisas dessem direito a recebimentos e compensações perdiam a essência ou o seu sentido útil. Ou seja, não provocar pressões. 

 

Nunca me interessei pelo Bridge por ser demasiado sério. Aquilo não é um jogo é uma função. É preciso compreender que existem espaços e momentos da vida em que podemos ser "meias tintas" e não há mal nenhum nisso.  Não é possível jogar/não jogar Bridge. Portanto, para mim o melhor é não jogar. Não é que eu não goste do jogo em si. Do Bridge. Claro que gosto. Dá é muito trabalho. Dá tanto trabalho, que a maior parte dos jogadores recebe dinheiro pela sua prestação. Quando ganha, claro. Mas eu gosto de pontes (bridges). Uma ponte é sempre uma ligação. Uma possibilidade de ir e voltar. De conhecer. De trazer. De levar. Em princípio, as pontes proporcionam vistas bonitas pelo caminho. Também é uma bela qualidade. Uma ponte é uma esperança de chegar. De visitar. De compreender. É uma oportunidade de dar.

 

Independentemente das discussões que envolveram Hobbes, Russeau, entre outros amigos, eu, sem querer entrar pelas teorias do contrato social (pois não interessam para a minha questão), eu, dizia, acredito que o homem, se não nasce débil emocional ou com outro defeito de origem, é bom. Basta olhar para uma criança. Um bebé. Ver como é frágil e aberto. Como espera. Como acredita. A extensão da sua dependência. Mais, basta olhar para o mundo. Os adultos governam o mundo. Nós, portanto. Nós tantas vezes mesquinhos, egoístas, maldizentes, conflituosos, imaturos, estúpidos, gananciosos, doentes. Nós hoje temos o mundo na mão. Se nós, esta amálgama de desconfianças emocionais, fossemos realmente maus, já tínhamos arrancado os olhos uns aos outros e, depois de cegos, púnhamos isto tudo a arder.

 

No "Ensaio sobre a cegueira", José Saramago dá-nos esta visão realista. O mal que somos capazes de fazer ao mundo e ao próximo. No entanto, veja-se porquê. Pela doença, pela fome (de comida e de sexo). Pelo medo essencialmente. A crueldade do ser humano não é maior do que a de uma bela leoa esfomeada. E a sua maldade não vai além da de uma hiena sorridente. Se os animais não estão interessados em se destruir sem um motivo, também os homens não o estão. Para os homens e para os animais esse motivo não existe.  Mas os homens não o querem  porque não querem. Porque podem. Aqui está uma das diferenças. O instinto e o instinto mais a vontade racional a que se junta o padrão emocional humano.

 

Com certeza que existem biltres. Uns são loucos, outros tarados, outros têm distúrbios da personalidade. Claro que existe gente muito má. Porquê?  Talvez a maldade dos maus resida sobretudo na frieza. Confesso que isto eu compreendo mal. Há uns tempos vi, na SIC notícias, um documentário sobre o maior "serial killer " americano. Perdida a conta às mortes que o homem provocou, interessava saber porquê. Por nada que realmente valha a pena salientar, afinal. Ou seja, por nada mesmo. Para ele, tirar uma vida tinha o mesmo impacto emocional do que comer um "hot dog". Talvez lhe provocasse um bocadinho de azia de vez em quando. Mais nada. Está bem.  Por outro lado, o senhor tinha família. Mulher e filhos, que amava. Amava, portanto. Pereceu-me sincero.  À conclusão só pode, eventualmente, chegar-se por uma via. Para ele todos os outros são os outros. Perfeitos estranhos. Não lhe era possível atravessar pontes. Como se todos os que moravam para lá do jardim da sua casa não fossem iguais aos do lado de dentro. E para isto não existe qualquer explicação. O senhor não é doido, como o Hitler, por exemplo (foi o que disseram, que o homem não era doido). Então é o quê? Indiferente ao que o transcende? Perfeito. Creio que não existem animais assim.

 

De facto, há muito de péssimo no mundo, sendo que a culpa é quase exclusivamente nossa. E eu nem sei mais o que dizer. Apetecia-me deixar aqui uma palavra positiva. Mas, quando ia a escrever, parei. Senti-me muito ridícula sentada aqui, em frente ao meu computador, de cigarro na mão e a pensar que não me apetece jantar lombos de borrego.

 

O que eu queria dizer sobre o livro que recomecei a escrever é que é muito difícil. Parar, sentir, compreender, pôr por palavras, seguir uma estrutura, alimentá-lo de consistência racional, moral e emocional. É muito difícil ser profissional, mesmo que o patrão seja a Gaveta.

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