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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

POR IMPOSIÇÃO DO MEIO E EM VIRTUDE DA CRENÇA


Cat2007

29.03.19

Resultado de imagem para mentiroso compulsivo

 

Em tempos conheci uma pessoa que nem uma maçã acabada de comer era capaz de confessar. Dizia, antes, que tinha sido uma pera. Na verdade, por força de um vicio que a dada altura da vida se instalou, esta pessoa estava sempre a mentir. Mas isso era porque, ab initio, tinha os clássicos problemas de afeto. Digo que são clássicos porque há imensa gente com este handicap - com a desvantagem relativa de desejar mostrar-se pelo que possui quando, na verdade, não tem muito material de seu, sendo obrigada a dizer que tem muitíssimo mais. Lembro-me que a estória favorita desta pessoa passava por uma viagem, de ida-e-volta no mesmo dia, ao Algarve em cima de uma moto de grande cilindrada que não existia na sua disponibilidade.

 

Atualmente sei de outras pessoas que também estão sempre a mentir. Gente que, movimentando-se confortavelmente num meio físico e social que confere a quem o habita uma sensação de não-pertença, abdicou da sua autenticidade para nele poder entrar e viver. Assim, como disse, tais pessoas mentem. Porque, logicamente, a mentira, por imposição do meio e por virtude da crença, passou a constituir um elemento estrutural das respetivas personalidades.

 

AZUL - Cap XXV


Cat2007

22.09.16

Naquele fim de tarde Teresa lia na sala. Clara, sentada ao seu lado, olhava ausente para a televisão onde não via as imagens do amor que ainda há pouco interrompera. Hoje tinha estado de novo com Joana durante a tarde.

Teresa: A joana?

Clara: Como?

Teresa: A Joana. Por onde anda a Joana? Tinhas-te afastado dela, se não me engano.

Clara: Não. Bem, sim.

Teresa: Sim ou não, Clara? Disseste-me que só a conhecias há um mês. Que tinham decidido deixar de fazer programas juntas porque ela tem uma vida diferente da tua no que respeita aos gostos e às amizades.

Clara: Sim, durante um dia ou dois não estivemos muito juntas. Mas agora já voltou tudo ao normal.

Teresa. Como assim, já voltou tudo ao normal e tão depressa? Agora já têm os mesmos gostos e as amizades dela já são as tuas? Nunca te vi com muitos amigos, Clara.

Clara: A mãe não baralhe as coisas. Ela tem outras amizades porque, como já lhe contei, ela é do Porto. Tem as amizades do Porto. E eu não tenho amizades nenhumas porque detesto gente à minha volta. A mãe conhece-me. A minha amiga é ela.

Teresa: A tua amiga é ela, como foram outras. Ainda no ano passado tinhas outra amiga favorita.

Em Clara instalara-se já o conflito. Entre a necessidade de mentir e a obrigatoriedade de dizer a verdade. “Nesta casa não se trancam as portas. Aqui, eu e a mãe vivemos rotinas conhecidas. Aqui não existem segredos. A mãe nunca me mentiu”.

Clara: Mas a Joana é diferente.

Teresa fechou o livro. E pôs-se de pé.

Teresa: Posso saber quais são os gostos dela?

Clara: Quais gostos?

Teresa: Os gostos diferentes. Tu é que disseste que ela tinha gostos diferentes dos teus, relembro.

Clara: Porque está a mãe a tentar baralhar-me?

Tentava ganhar tempo. O conflito agudizava-se.

Teresa: Fiz-te uma pergunta direta. Queres responder-me?

Clara: Não!

As lágrimas começaram correr-lhe sobre as faces.

Teresa: O que foi, filha? O que se passa?

Clara: Não se passa nada. A mãe está a fazer uma coisa que nunca me fez. Está a interrogar-me. Como se eu lhe andasse a esconder alguma coisa. Eu não estou a gostar da forma como a mãe me está a tratar. Não é justo.

Cedia à mentira. Fazia chantagem.

Teresa assustou-se. Que impressão lhe fazia o choro. O choro da filha. A filha não chorava. A menos que estivesse realmente a sofrer. Estava a fazer Clara sofrer. Porque naturalmente não estava no seu estado normal. Andava enlouquecida com Madalena. Ela é que andava a mentir à filha. Por momentos passou-lhe pela cabeça pedir-lhe desculpas e revelar que tinha ciúmes de Joana por causa de Madalena. Porque amava Madalena. Tudo aquilo, aquelas perguntas, tudo era por causa de Madalena. Clara sabia que Joana era lésbica. E que andara com a professora Madalena. O seu amor. Conhecia a filha. Sabia que ela não se deixaria levar. Joana não a levaria para a cama, se ela não quisesse. E Clara não queria. Porque não era homossexual. Era simples. Toda a educação que lhe deu contava muito. Não havia qualquer possibilidade de Clara ser homossexual. Por isso não era correto estar a interrogar a filha daquela maneira. Aproximou-se dela devagar. Sentou-se e tocou com os dedos nas fronteiras dos olhos dela.

Teresa: Desculpa filha. A sério. Desculpa. Não volta a acontecer.

Clara foi para o quarto vergada pelo peso da mentira e cheia de pena da mãe.

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