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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

O EQUÍVOCO


Cat2007

25.09.20

Filomeno Silva - "De costas voltadas" - YouTube

 

Uma vez, perguntei a uma pessoa de quem nunca me separava um instante o que sentia por mim. Disse-me: “odeio-te profundamente!”. Basicamente porque se sentia sempre disponível para mim, e por mais esta ou aquela razão da mesma índole de que já não me lembro. Fiquei um tanto desconcertada. Porque era a primeira vez que alguém me dizia tanto afeto em tais termos. A mim, que imaginava sentir-me apenas sua amiga. A questão é que a questão é sempre mais complicada do que isso. Ou seja, não é possível responder a uma paixão inteligente feita em raiva sem sentir igualmente uma paixão complexa. E, na verdade, se essa pessoa não podia dizer-me não, eu procurava-a a todo o momento, sem que existisse outra com quem quisesse estar. E, no entanto, talvez lamentavelmente, nunca fizémos amor.

 

O QUE NA VERDADE INTERESSA


Cat2007

02.07.20

Pérolas aos Porcos — 23/04/2020 - Gustavo - Medium

 

Não pretendo ser como alguém, que já não está cá, me ensinou a ser. Curiosa e estudiosa para saber o mais possível de tudo um pouco. Sucede que não consigo ser assim. Há assuntos que não me interessam, e mais nada. Também, há processos e procedimentos através dos quais se chega a certos conhecimentos, que me enfadam. Assim, vai tudo dar ao mesmo. Ou seja, prefiro não saber. Ou seja, há coisas que não sei porque não quero e há outras que não conheço porque não gosto da forma de lá chegar. Exemplos, por exemplo, não me interessa e, na verdade, até me cansa, perceber o processo, que me foi explicado, através do qual a água da Barragem de Castelo de Bode abastece a cidade de Lisboa. Por outro lado, mas para chegar ao mesmo, ou à ignorância, também não sou capaz de andar pelos museus atrás dos guias explicadores das obras de arte. Prefiro não saber os conteúdos dos respetivos ensinamentos. Antes, vejo o que quero ver e aprendo por mim na medida em que a minha sensibilidade o permite.

Agora, quando me interesso, quando me interesso, tudo flui. Arranjo conhecimento dos outros que misturo com as minhas próprias apreensões sobre as coisas, em busca do resultado quase perfeito. E digo quase perfeito porque tenho noção de que a perfeição existe, mas faz perder demasiado tempo, produzindo resultados imperfeitos. E, assim, nesta especial contingência, não me importo de dar tudo para quase nada. Se for quase nada o que tenha a obter em determinadas circunstâncias, atentas as qualidades das pessoas recetoras. Com efeito, não me importo que, às vezes, algumas pérolas vão para os porcos.  Importa-me muito mais o que faço e o que faz em mim e de mim o que faço. É sempre mais um degrau que subo. Um degrau, mas de que escada? Não sei bem. Talvez pense que o espírito é uma escada com uma luz lá no topo.

 

 

ADOLESCÊNCIA FELIZ


Cat2007

22.04.20

Sapatilhas mulher - grande variedade de Sapatilhas - Entrega ...

 

Como é sabido, por razões essencialmente fundadas em questões hormonais, os adolescentes estão sempre apaixonados. Além disso, como odeiam, rejeitando globalmente os pais, os “teen” têm uma necessidade exacerbada de aceitação. No seio do grupo. Assim, quem não se enquadre, tem de fingir que está enquadrado. Ou seja, quem não se apaixona, inventa. Era o meu caso. Para alem do que fazia nas aulas de educação física, ainda praticava 14 horas de desporto por semana. De maneira que me apresentava sempre mais ou menos equilibrada (do ponto de vista hormonal). Portanto, como ia dizendo, eu inventava. Então, no início de cada ano letivo, escolhia o rapaz de quem haveria de gostar, preferindo o que, por esta ou aquela razão, me parecesse menos acessível. Depois, era só contar discretamente a uma ou outra colega - digo discretamente porque não queria que parecesse mentira ou estranho. Claro que nunca concretizava nada, passando por mal-amada. Mas isso era o que se passava com a maioria das outras colegas. Enfim, foi tudo excelente. Estes procedimentos permitiam-me parecer parvinha, como de certo modo era pretendido, e, ao mesmo tempo, dedicar-me por inteiro às coisas que queria e gostava de mesmo fazer: jogar, estar com os amigos, ler e aprender. É por isso que toda a minha adolescência foi muito feliz.

FALTA DE "CABEDAL"


Cat2007

14.04.20

 

Não era seu hábito procurar-me para saber de mim ou, ao menos, simplesmente estar um bocadinho comigo. Sugeriu-me um encontro de amigos de longa data. Mas, na verdade, era apenas porque precisava. Mais uma vez, queria que eu, do alto de uma sabedoria por si imaginada, lhe dissesse o que desejava ouvir sobre uma nova relação amorosa. Como se as coisas que vinha contar-me pudessem ter algum grau de profundidade para serem complexas. Assim cansou-me logo que começou a ler as infinitas mensagens de telemóvel que trocou com ele. Todas sem significado. Ou seja, com o significado único de que ali havia um nada amoroso. Porém, incompreensivelmente ou não, de cada vez que lia, via-se-lhe nos olhos a esperança. Quando finalmente me foi possível falar, disse que não. “Não. Não gosta de ti”. Viu-se a agitação e talvez também uma certa raiva. “Não? Porque é que dizes isso? Tu nem sequer o conheces”. Ignorei o golpe essencialmente por pena. “Não preciso conhecer. Basta-me o teor das mensagens e as coisas que me contas. Afinal, ele nem sequer quer ir para a cama contigo. Dois meses de namoro… “. Fiz mais uma ou duas observações. A questão era demasiado simples. Como sempre, só mudavam os nomes. Dito isto até parece que falo de uma pessoa na fase da adolescência, o que não sucede.

É verdade que sempre me confundiu aquela incapacidade de detetar afetos e de não querer contornar não-afetos. Porém, agora já não. Percebo perfeitamente que tudo tem a ver com escolhas e com a falta de “cabedal” para suportar a falta que lhe faz tudo aquilo que rejeitou ao escolher como escolheu.

NOITES E NOITES NUMA SÓ NOITE


Cat2007

18.10.16

 

 

Queria postar aqui um trecho de um poema do Ary dos Santos. Um que toda a gente conhece. A Estrela da Tarde. Há dias que ando a pensar neste poema. Na força alimária dos seus versos.

 

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram/ Dos noturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram/Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram/ E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram. /Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram /Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam /Era a noite mais clara daqueles que à noite se deram /E entre os braços da noite, de tanto se amarem, vivendo morreram.

 

E o verso que mais me impressiona é o seguinte: Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram. Significa que uma noite de amor pode ser tão intensa e abrangente que consegue ter o sentido de várias. Para isto ser verdade, exige-se uma paixão com uma força especial e uma certa qualidade na entrega. Há quem consiga.

 

AZUL - Cap LXIV


Cat2007

16.10.16

Uma semana depois Teresa ainda não tinha o carro. De qualquer modo, não lhe fizera ainda falta. Não tinha muita vontade de sair para longe da Alameda. Fazia tudo a pé no respeito de rotinas muito bem programadas. Todas as manhãs subia a Guerra Junqueiro e ia à Mexicana tomar o pequeno-almoço e ler os jornais. Depois visitava as montras da Avenida de Roma até à hora do almoço. Por vezes comprava uma peça de roupa ou um livro. Almoçava em casa. Saía em seguida para dar um passeio breve no jardim da Igreja da Praça de Londres. Voltava a casa meia hora depois. Pegava no computador e vagueava nas páginas a que sempre se habituara. Ler não conseguia. Jantava cedo em qualquer lado antes de ir para o ginásio. Quando regressava retomava o computador. Ia para a cama perto da meia-noite. Como é evidente Madalena fazia parte destes ramerrões que Teresa projetara. Havia sempre a esperança de esbarrar com ela em algum daqueles lugares. E à noite, na cama, mil vezes as lembranças do amor com ela lhe acendiam o corpo. Num fogo que era necessário apagar. Sentia como se durante toda a vida não tivesse passado um dia sem fazer amor com ela. Estava completamente tomada pelo vício.

Na manhã seguinte Madalena descia a Guerra Junqueiro. Teresa viu-a do outro lado da rua quando subia. Deixou-a avançar uns metros e foi atrás dela. Não sabia se havia de a abordar. Madalenas andava com pressa. Dobrou a esquina ao fundo da rua e subiu á direita. Teresa sentiu um sobressalto. Andou mais depressa e pôde surpreender-se com o que via. Madalena estava parada em frente à porta do seu prédio. Teresa pegou no telemóvel e marcou o número.

Teresa: Madalena, onde estás?

Madalena: Não muito longe, como sempre.

Teresa sentiu-lhe a tensão na voz.

Teresa: Eu não estou em casa.

Madalena: Não? Onde estás?

Teresa: Não muito longe, como sempre.

Teresa ia subindo a rua. Podia vê-la perfeitamente. Com o cabelo liso a cair-lhe sobre a cara pregada no chão.

Madalena: Mas quanto tempo levas a chegar a casa?

Teresa: Porquê?

Madalena: Porque eu estou aqui à tua porta.

Teresa desligou o telefone e falou-lhe a um metro.

Teresa: Então sobe.

Madalena: Jesus!

Teresa: Vens tomar chá?

Madalena: O quê?

Teresa: Chá. Vens tomar chá com a tua amiga muito amiga quase como uma irmã?

Madalena: Nós somos amigas, Teresa.

Teresa: Pois somos.

Entraram em casa.

Madalena: Isto está diferente. Fizeste obras. Mas os móveis são os mesmos. Não estão é nos mesmos sítios. Nem as fotografias. Aqui está a tua mãe.

Teresa: A minha mãe está por todos os lados desta casa. Tomas chá ou não?

Madalena: É muito cedo. Não costumo beber chá de manhã. Prefiro um café. Outro. Já tomei o pequeno-almoço.

Teresa: Pois eu não. Tomo sempre na Mexicana a esta hora. Mas hoje não foi possível porque te vi passar.

Madalena: E porque não me chamaste, imbecil?

Teresa: Por acaso tive essa intenção. Mas tu andaste muito depressa. Vinhas para aqui com muita pressa. Porquê?

Madalena: Eu ando depressa.

Teresa: Não andas nada. Tu vinhas depressa porque tiveste medo de perder a coragem.

Madalena: Coragem para quê?

Teresa: Diz-me tu.

Madalena: Tem sido difícil passar os dias.

Teresa: E as noites.

Madalena: Sim. As noites.

Teresa: Como passas as noites? Fazes-te todas as noites?

Madalena baixou a cabeça.

Teresa: Diz-me.

Madalena: Por vezes de dia também.

Teresa: No entanto, és apenas minha amiga.

Madalena: Não sejas cínica, Teresa.

Teresa: Descarada és tu. Vens aqui para ter sexo comigo. Só para isso. Podias ter ligado há mais tempo. Não percebo o que te fez vir à Alameda. Tens tão más recordações daqui. Não percebo porque queres fazer amor aqui.

Madalena: Também não percebo nada. Ontem chorei muito à noite. Hoje de manhã acordei com esta decisão tomada. Queria ver-te aqui.

Teresa: Descansa. Eu também só penso em fazer amor contigo. Não te vou pedir mais nada. Vem cá.

Madalena aproximou-se. Teresa abraçou-a pela cintura e puxou-a contra si. Ficaram presas pelo ventre. Olharam-se intensamente. E beijaram-se violentamente na boca.

AZUL - Cap LXIII


Cat2007

16.10.16

Clara: Emagreceste.

Joana: Tu também.

Clara: Não fui capaz de comer grande coisa.

Joana: Eu vomitava.

Clara: Disseste-me. Já estás bem, não é?

Joana: Sim.

Clara: Não foste à faculdade, claro.

Joana: Claro que não. E tu?

Clara: Não.

Calaram-se. Ficaram frente a frente muito tempo. Sem palavras. De olhos cerrados. Estiveram assim até as almas se reanimarem.

Joana: Vamos ver o mar?

Foram comer junto à praia. Comeram imenso. Embora lhes doesse um pouco o estômago. De uma forma tácita, encetaram um processo comum de recuperação. O corpo doía-lhes. Cansado nos músculos e nos ossos. Cada uma tinha uma nódoa negra bem visível no peito. Clara olhou dentro dos olhos azuis de Joana e em seguida virou o seu olhar extenuado para o mar. Fez uma ligação perfeita de cores. Joana segui-lhe o olhar.

Clara: Duvidaste de mim? Achaste que eu não voltava?

Joana: Nunca. Só senti muito a tua falta.

Clara: Eu amo-te tanto!

Um brilho iluminou-lhe o olhar rasgado. Parecia que tinha tomado uma droga qualquer. Olhou Joana por dentro de um sorriso que despontara.

Clara: É perfeito o nosso amor. Como é perfeito! A ti eu não preciso de pedir nada. Tudo vem no ritmo dos meus desejos e necessidades.

Joana: E eu não preciso de te fazer muitas perguntas. Quase tudo o que quero saber descubro no silêncio da tua boca molhada ou através do contacto com a tua pele.

Clara: Eu precisava muito de te beijar agora. Quero todas as respostas. E responder-te a tudo.

Joana: Eu preciso de te beijar agora para saber como foi sem mim.

Levantaram-se da mesa. Descalçaram os sapatos. E atravessaram a areia, até ao mar. Molharam as mãos e a cara. Beijaram-se profundamente com sabor a sal pelo tempo de uma eternidade.

Joana: E se adoecermos de amor? Achas que podemos ficar doentes de amor?

Clara sorriu.

Clara: Não, acho que não. Juntas, não. Separadas, sim. Eu fiquei doente de amor.

Joana: Eu também.

Clara: Perdoa-me, Joana.

Joana: Gostar de ti não é uma decisão. Desejei simplesmente voltar. Aliás, tinha mesmo que voltar.

Clara: Mas perdoas-me ou não, querida?

Joana: Não sei se compreendes porque nos deixaste.

Clara: Porque dizes isso?

Joana: Porque podes voltar a deixar-me, talvez.

Clara: Tu sabes que eu te deixei por causa da minha mãe.

Joana: Tu disseste-me que tinhas de me deixar porque, pelo que vieste a saber da vida da tua mãe, o nosso amor já não te parecia tão belo.

Clara: Não parecia porque eu estava completamente louca. Doente da cabeça por causa daquelas emoções todas. Na altura, o nosso amor não me pareceu belo, de facto. Mas só naquele momento. Compreendes?

Joana: Acho que compreendo mais do que isso. E solidarizo-me contigo. Coloco-me no teu lugar e vejo perfeitamente que o teu mundo desabou.

Clara: É verdade. Perdi o pé. Coloquei tudo em causa. Mas como viver como sou se rejeitasse a minha mãe como é? Se eu não queria que a revelação dela fosse mais do que um pesadelo, como viveria feliz contigo? Foi por isso que terminei.

Joana: Eu sei.

Clara: E perdoas-me.

Joana: Não posso perdoar algo que tu fizeste sem consciência. Só posso compreender. E já compreendi, anjo.

Clara: E já não tens medo que eu te deixe?

Joana: Tu, na verdade, não me deixaste. Mas eu fiquei perdida.

Clara: Pois não. Só enlouqueci momentaneamente. Mas demorei a ir buscar-te porque estava partida por causa da minha mãe. Não lhe falei durante este mês. Nem ela a mim.

Joana: E agora já se falam. Resolveram tudo, como é evidente. O que acha ela de mim? Detestava-me.

Clara: Foi ela quem me ordenou que te telefonasse. Foi ela que me explicou que tu ficarias feliz. Que não me rejeitarias.

Joana: A sério? Olha, eu nunca simpatizei com ela. Confesso-te. Mas acho-a linda de morrer. Por isso posso ultrapassar qualquer obstáculo.

Riu-se.

Joana: A Madalena é uma mulher de sorte.

Clara: A Madalena disse-lhe que não queria mais nada com ela.

Joana: Disse? Mas, olha, eu não acredito. A Madalena é louca por ela.

Clara: Eu sei. Mas tem medo.

Joana: Pois.

Clara: Mas a minha mãe mudou. Creio que o facto de eu ser lésbica a ajudou a mudar. O problema dela era aquela homofobia e a necessidade de parecer perfeita ao mundo. Ela adora a Madalena. Não creio que a fosse deixar outra vez. Não com o que já aprendeu com tudo o que sofreu durante vinte anos e agora. O problema é que a minha mãe decidiu não ir mais atrás da Madalena.

Joana: Ai agora a Madalena vai ter que ultrapassar-se e tomar a iniciativa de ir ter com a tua mãe? Não sei se ela fará isso.

Clara: Nem eu. Ela deve continuar a achar-se uma vítima das coisas que a minha mãe lhe fez no passado. E portanto acredita que tem uma fatura que ainda não está paga.

Joana: Sabes o que acho?

Clara: Diz.

Joana: Acho que elas são duas mulheres marcadas. A maturidade tem isto. Muitas experiências traumáticas. E muitas delas mal absorvidas. Enquanto nós temos o espírito limpo. Confiamos totalmente. Por isso foi tão fácil voltar.

Há já algum tempo que caminhavam à beira mar de mãos dadas. Pararam. E sentaram-se na areia. Ficaram caladas a observar as ondas vigorosas que se lançavam cegas contra a costa. E se desfaziam. Escutavam o barulho plural do mar. Talvez o único que não incomoda ou irrita mas acalma. O barulho que é necessário ouvir quando o silêncio é preciso. As ondas morrem pacificamente. E renascem uma e outra vez. Olhavam juntas para o mar e assistiam a um movimento constante e alternado de vida e de morte. Olhavam para o mar e metia-se-lhes no peito a ideia de renovação. Só de o ver atuar. O mar explicava-lhes como tudo deve ter um fim pacífico. Como é pacífica a fusão entre a água salgada e a massa compacta de grãos de areia. Assim como a força das águas, que consecutivamente renasce nas ondas extraordinárias, apela ao sentimento profundo de vida renovada. Princípio. Sal. Sabor. E a vida que afinal nunca acaba. Os olhos delas transformaram-se em água do mar de tanto olharem. Tinham-nos por isso da mesma cor. Azul. Aquele azul que um dia Clara sonhara ter para si, agora era definitivamente seu.

Clara: O mar. Esta energia. A minha boca ainda sabe a sal. Sinto-me como que renascida. E por isso com necessidades primárias. Tenho muita fome.

Joana: Eu também preciso de te comer toda inteira.

Clara: Sinto formigueiro nas mãos.

Joana: E na língua.

Puxou-a pelo colarinho e deu-lhe um beijo ávido na boca.

Caíram na areia. Os corpos debatiam-se. O beijo não parava de magoar.

Clara: Vamos para casa.

Joana: Vamos.

Foram com as mãos cheias de segredos e mistérios comuns sobre o mar e a vida.

“Hoje fico com a Joana. Gosto muito de si, mãe”.

Teresa sorriu. “Quero ver quando é que tenho o carro de volta”.

 

AZUL - Cap XXXIII


Cat2007

27.09.16

Teresa: Como podes estar tão certa disso? Eu vou para a cama contigo praticamente todos os dias. Sei coisas de ti. Coisas que tu sentes. Que tu não fazes questão nenhuma em esconder quando fazemos amor. Tu não estás comigo só pelo prazer.

Madalena: Claro que não. Estou contigo porque te desejo imenso. Olha para ti. És a mulher mais bonita que eu alguma vez conheci na vida.

Teresa: Ora, Madalena. Há muitas mulheres bonitas.

Madalena: Mas nenhuma tão bonita como tu.

Teresa: A beleza de alguém não é tanto o que se vê mas o que se sente. Eu acredito em ti. Achas que eu sou a mulher mais bonita que conheces mas…

Madalena: És a mulher mais bonita que eu já alguma vez vi.

Teresa: Ou isso. Mas, como ia a dizer, a beleza que dizes que eu tenho é sentida por ti.

Madalena: Pois é. E então?

Teresa: Então, estás apaixonada por mim.

Madalena: Ah! Isso é diferente. Claro que estou apaixonada por ti. Mas já não te amo.

Teresa: Mas eu amo-te.

Madalena: Mas eu não te amo porque tu, há vinte anos atrás, me deixaste partida. Nunca mais amei ninguém tão profundamente. Porque eu, apesar de só estar contigo há dois anos, amava-te profundamente. Por causa da entrega que foi total e sem reservas.

Teresa: Amavas-me como eu te amava. Mas era um amor que não tinha sido testado.

Madalena: E quando foi, tu deixaste-me. Já falámos sobre isso.

Teresa: Por causa dessa entrega eu, que te sufoquei dentro de mim, durante todo este tempo, libertei-te, libertei-me e percebo que continuo a amar-te.

Madalena: Mas eu, por causa do que me fizeste, deixei de te amar. Porque deixei de acreditar em ti e passei a duvidar de mim.

Teresa: Então como permitiste que eu me aproximasse tanto outra vez?

Madalena. Eu não queria. Mas tinha que acontecer. Só tu me fazes sentir assim. Era impossível dizer que não à vida.

Teresa: Faço-te sentir assim como?

Madalena: Tu disseste que sabes como me fazes sentir.

Teresa: Eu explico-te o que te faço sentir, dizendo o que tu me fazes sentir.

Madalena: Sim, bem sei que é a mesma coisa. E o que é que eu te faço sentir?

Teresa: Madalena, tu fazes-me sentir viva e feliz.

Madalena: Teresa, tu fazes-me sentir arrepios na espinha e tremores nas mãos. Tu desorientas-me os sentidos porque os sons, as imagens, a textura da tua pele, o teu cheiro e o teu sabor se misturam todos ao mesmo tempo. Então eu já não sei se o que vejo é o mesmo que toco. Se o teu gosto é igual ao teu cheiro… Contigo eu viajo para fora deste mundo e regresso como se nunca tivesse voltado. Ando na vida a sentir-me muito mais viva. Porém, isto não me faz feliz. Quero que passe.

Teresa: Porém, estás com medo. Diz antes assim, querida

Madalena: Agora és tu que me chamas querida no fim da frase?

Teresa: Sim. Porque me deixaste com tesão. Compreendes, querida?

Madalena: Mais tesão, querida?

Teresa: Com certeza, meu amor. Percebo que seria mais fácil para ti se eu não te chamasse, meu amor. Era melhor estar só apaixonada como tu estás. Acontece que eu sinto as duas coisas ao mesmo tempo. Amor e uma paixão desenfreada como a tua.

Madalena: Seria mais fácil porque eu quero que isto acabe.

Teresa: Tens medo de que essa paixão te leve ao amor outra vez.

Madalena: Teresa, francamente, Tu falas de amor mas estou certa de que não te ocorre partilhar a tua vida comigo. A tua homofobia é que me garante que esta minha paixão não vai resultar em amor nenhum.

Teresa: Já não me apetece ir a Sintra. Estamos em Cascais. Porque não fazemos um lanche ajantarado ao pé do mar?

Madalena: Está bem. Gosto de ver o mar enquanto olho para os teus olhos. Parece a mesma coisa. Vamos.

Teresa: Não penses que tentei evitar o assunto da minha homofobia, que é real. Apenas não me apetece falar disso agora. Porque estou confusa nessa matéria. Por outro lado, quero encetar uma manobra de engate sobre ti, querida.

Madalena: Estás a aprender comigo, querida.

AZUL - Cap XXIII


Cat2007

21.09.16

Clara tinha que sair. Joana ia levá-la. Queria estar em casa antes de a mãe chegar. Tinha medo que ela adivinhasse. Entre as duas não havia segredos. E sobretudo não se diziam mentiras. No entanto, preparava-se para uma omissão. Gravíssima. Era preciso não a encontrar. Pior do que mentir era ser confrontada com a mentira. O telemóvel emitiu um sinal habitual. “Hoje não janto em casa”. Suspirou. Que coincidência feliz. A mãe muitas vezes não aparecia para jantar. Mas, naquele dia, acontecia, de facto, uma coincidência feliz. Acalmou. Já não tinha assim tanta pressa. Desceram à garagem. Saíram da garagem.

O regresso ao mundo ocorreu de forma semelhante a um parto. Eram como duas gémeas expelidas de um útero. Mal ouviam e custava-lhes falar. Um feixe de energia imanente transbordava para fora das fronteiras da pele, atuando como escudo protetor contra as influências do meio.

Rodavam devagar pelas ruas indistintas. Alheias a todas as externalidades supérfluas. Joana apenas se concentrava mal na estrada. Transportavam nas mãos, que se apertavam a espaços e fugazmente uma aguarela de cores felizes. As tintas, aplicadas com um certo sentido sobre os seus corpos, cobriam-nas da cabeça aos pés. E davam cores brilhantes e vivas aos olhos. Aos cabelos. E às peles. Eram dois fantásticos retratos vivos, cuja criação está apenas ao alcance de uma outra arte. De matriz eminentemente divina.

Aconteceu-lhes tocarem-se uma vez. A primeira. Com bocas magnetizadas. Aquela paixão foi inevitável talvez por isso. Pelo magnetismo. O que de resto sucedeu não foi igualmente ponderado. O que se passaria a partir daí era imprevisível.

Nunca ouviram. Nunca leram. Nunca tinham ouvido falar. De uma coisa assim. Como saber, então? Quem poderia imaginar que o sangue corre com mais força nas veias do que o mar revolto em noite de tempestade contra as rochas que sustentam os faróis? Quem saberia falar daquela solidão irresistível que as assaltava? Geralmente pensa-se que a solidão é só. Só para uma alma. Nunca para dois seres que se têm completamente. Porém, num certo tipo de sentimento, sucede que, em determinados momentos, o dois passa a um. E nasce um ser novo. Diferente de cada uma das unidades. Um ser só que, de seguida, volta a dois. E reaparece. E volta a dois. E reaparece. E volta… Quem saberia disto? Ambas compreendiam, em qualquer caso, que aquele sentimento dominava totalmente os atos e os factos subsequentes aos atos. Tomara vida própria, existindo para além da vontade delas.

Joana: até amanhã.

Clara: até amanhã.

Subiu. Não comeu nada. Nessa noite, pela primeira vez desde sempre, não vestiu o pijama.

AZUL - Cap XXI


Cat2007

20.09.16

Ouvia-se o silêncio através do som de um rádio ligado num sítio qualquer. Somos dois gritos calados. A música soltava-se nítida. Elas, porém, não ouviam. Estavam surdas de silêncios. As mentes perdiam-se de encontro ao objetivo traçado. Iam para casa. Para a cama. Fazer amor. You took a mistery and make me want it. A música que não se ouvia estava ali apenas para acompanhar os ritmos das emoções. As melodias vinham de qualquer lugar não definido. De uma emissora irreal. Por isso a estranha seleção musical.

Até as almas mais corajosas e aventureiras sentem pelo menos um respeito reverencial em relação ao desconhecido. Como se sairia do confronto com ele? Era nisto que Clara pensava. A verdade é que lhe doía a alma de uma forma física. Como se tivesse dores musculares. As violentas emoções que lhe vinham sendo impostas enfraqueceram-na. Via-se como uma criança desprotegida. Muito pequenina. Estava anormalmente fragilizada. Dependia enormemente de Joana. Tinha medo. Assim que o dia amanheceu lá no mar alto da paixão/ Dava prá ver o tempo ruir/ Cadê você? Que solidão /Esquecerá de mim e enfim/ De tudo o que há na terra não há nada em lugar nenhum/ Que vá crescer sem você chegar/ Longe de ti tudo parou/ Ninguém sabe o que eu sofri. A dor da separação ainda lhe tocava. A separação que imaginara num desejo forçado que não teve forças para realizar. Pertencia agora a Joana.  Joana não a via de fora para dentro mas ao contrário. Tinha mergulhado dentro dela, buscando-a nas profundezas do ser. Navegava no seu espírito para a ver melhor. No teu poema existe um verso em branco e sem medida/Um corpo que respira, um céu aberto/Janela debruçada para a vida/No teu poema existe a dor calada lá no fundo/O passo da coragem em casa escura/E aberta uma varanda para o mundo/Existe a noite, o riso e a voz refeita à luz do dia/A festa da Senhora da Agonia e o cansaço do corpo que adormece em cama fria/Existe um rio, a sina de quem nasce fraco ou forte/O risco, a raiva e a luta de quem cai ou que resiste/Que vence ou adormece antes da morte/No teu poema existe o grito e o eco da metralha/A dor que sei de cor mas não recito/E os sonhos inquietos de quem falha/Existe um rio, o canto em vozes juntas, vozes certas/Canção de uma só letra/E um só destino a embarcar no cais da nova nau das descobertas/No teu poema existe a esperança acesa atrás do muro/Existe tudo o mais que ainda me escapa/E um verso em branco à espera do futuro. Emergiu no fim da canção. Agora que tinha a sua imagem mais completa podia vê-la com toda a nitidez. Fixaram-se. O mesmo amor expelia pelos olhos energias convergentes. Era exatamente o mesmo amor. Clara deixou-se conduzir ao quarto e à cama. Foi a música que as levou. Aquela música que continuava a tocar dentro delas. As melodias que substituíam todas as palavras. Joana despiu-a, deixando-a completamente nua estendida sobre o edredão. Parecia-lhe que Clara acabava de morrer. Mais uma vez. Recuou então. Foi capaz de se afastar dela só para a ver. Clara deixou-se estar imóvel, fechando os olhos para não incomodar.

Joana estava de pé embriagada de espanto. Continuava vestida. Tudo em si parara. Tal como o mundo. You’re just too good to be true/Can’t take my eyes of you. Despiu-se. Manteve-se no entanto onde estava. De pé. Do mesmo modo. Clara abriu os olhos no momento em que virou a cabeça para ela. O sorriso foi-lhe transportado no movimento do olhar. Dos pés à cabeça de Joana. Viajara assim. You looked inside my fantasies and made each one como true/Something no one else had ever found a way to do. Estendeu-lhe a mão. Joana foi.

Tudo acontecia com a solenidade das grandes ocasiões. Dos eventos importantes. Olharam-se com a seriedade de quem preside a um ritual. Apenas as pontas dos dedos atuavam sobre a pele. Durante algum tempo foi assim. Talvez durante muito tempo. O sangue a ferver pulsava nas bocas, porém. Por isso o beijo interminável colou os corpos nus que se confundiram. E a música aproximou-se devagar. Au première temp de la valse toute seul te sorrit déja/ Une valse à trois temps. Une valse à quatre temps. Subia de tom. Une valse à vingt temps/Une valse à cent temps. Explodia. Une valse à mil temps/Une passion de vingt ans parsque tu as vingt ans et j’ai vingt ans. A paixão afrouxou um pouco para deixar respirar o amor através das bocas que buscavam ar uma na outra. If i coulda make a wish i think i’d pass/can’t think of anything I need/No cigarrettes, no sleep, no light, no sound/Nothing to eat/No books to read/Making love with you left me peaceful, warm and tight/What else could I ask there’s nothing to be desired/Sometimes all I need is the air that i breath and to love you. O que se tornava difícil de suportar era aquela alternância de emoções que mudava todos os ritmos intempestivamente, confundindo tudo. Sem possibilidade de contrariar nada, elas abandonavam-se. Deixavam os corpos vibrar de acordo com os sons. Entregavam as almas indefesas aos caprichos da música. Joana queria-lhe o corpo. Incendiava-a com o hálito. Molhava-a com saliva, acalmando-lhe a pele. Entrou pela virgindade dela e furou. Clara sentiu a devida dor. Depois Joana foi beber o sangue com devoção. Passou-lhe os dedos pela boca, pintando-lhe a boca de vermelho. Tu vieste em flor/Eu te desfolhei/Tu te deste em amor.

Joana: És minha?

Clara: Toda.

Joana: És boa.

Clara: Tu é que és.

Nenhuma delas sentia obscenidade no que acontecia. Nem uma ponta de vergonha.

Clara: Vem por favor. Faz tudo outra vez.

O mundo tinha o tamanho daquelas quatro paredes. Era essa a dimensão do universo. Aquele pequeno quarto. Os únicos seres viventes eram elas de modo que podiam dizer e fazer tudo o que queriam. Sem limites. Experimentaram.

Joana: Tens que pedir.

Clara: A sério?

Joana: Sim.

Clara falou-lhe muito baixinho.

Clara: Fode-me e chupa-me outra vez.

Joana: Tu não tens vergonha.

Clara: Tenho um bocadinho.

Joana rolou para cima do corpo dela mais uma vez. Clara fechou os olhos. Devora me outra vez, vem devora me outra vez. Por fim o prazer do amor recuperou completamente a vitalidade de Clara.

Clara: Agora vais ficar ai bem quietinha.

A bela amazona sentia-se novamente plena de vigor. Cheia do seu espírito guerreiro. Preparava-se para subir para a montada. Desejava cavalgar velozmente a sua égua. Queria-a sem freios. Deu-lhe de esporas. Ela empinou. Clara sentiu uma vertigem. Fê-la desenfrear numa correria. Sentiu-a a querer afrouxar. Não lho permitiu. Feriu-a nos flancos. A égua relinchava de dor. E sangrava. O animal acabou por disparar descontrolado como Clara desejava. Manteve-se habilmente na sela até a égua estacar completamente extenuada. Desmontou. Passou-lhe a mão pelo corpo derretido em líquidos de várias qualidades. Lambeu-lhe as zonas doridas. Engoliu-lhe as lágrimas uma por uma. O sal fez-lhe sede. Foi beber à fonte de água corrente. Ao lugar que no momento era o centro do seu universo. O seu mundo provisório. Joana enfiou os dedos nos cabelos dela e respirou fundo. Nobody does it better/Nobody does it half as good as you/Babe your the best. No fim Clara regressou à boca dela e sussurrou-lhe sobre os lábios.

Clara: Querida. Querida.

Joana: Diz, querida.

Clara: É só para te chamar querida.

Joana: Minha querida.

Pararam pelo tempo do leve cansaço. Voltaram depois no gesto amplo com que Clara alterou o cenário e deu novas falas ao texto. Parecia muito séria.

Clara: Tu tiraste-me a virgindade.

Joana apenas a olhou ardentemente. Não sabia falar. Clara pegou na mão dela e exibiu-lhe os dedos com réstias de sangue mesmo em frente ao azul dos seus olhos. Joana tocou-lhe o canto da boca com eles e declarou com solenidade:

Joana: Eu sou tua.

Clara: Sim.

Pararam. Joana franziu ligeiramente a testa.

Joana: Doeu, amor?

Clara: Nada. Não notei nada.

Joana: Parece que durantes estas horas passaram muitos anos.

Calaram-se. Os olhos de Clara seguiam figuras transparentes que lhe fugiam em direção ao céu. Joana tentou alcança-la.

Joana: Em que estás a pensar?

Clara: Estou a pensar que ainda não há muito tempo eu era uma pessoa diferente e a minha vida era outra.

Joana: Também eu era.

Suspirou, expirando algumas toxicidades.

Clara: Sim.

Joana: E agora como vai ser?

Clara: Agora talvez eu precise de te amar todos os dias a todas as horas para poder continuar.

Joana: Continuar a respirar?

Clara: Sim.

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