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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

VIM PARA UM CONCERTO


Cat2007

10.11.16

Resultado de imagem para antónio vitorino de almeida

 

Vim para um concerto. Mas ainda faltam alguns minutos para começar. Os espectáculos raramente começam a horas. Sou totalmente contra isto.

 

Não vejo nada. Entrei aqui nesta sala para esperar. Está cheia. Para mim, muito menos cheia do que para quem vê. Não tenho a impressão das imagens nos olhos.

 

As pessoas têm o tamanho do que dizem. Por isso são muito mais pequenas. Ocupam muito menos espaço. Esta é uma das grandes vantagens de ser cega. O espaço vital. O meu. Raramente o sinto ameaçado. Sei que as pessoas que vêm se sentem ameaçadas. Com falta de espaço. Sei porque estou sempre a ouvir o que dizem. Não vendo, concentro-me apenas nos sons e nos cheiros. É este o meu modo de sociabilizar.

 

Normalmente as pessoas não falam muito comigo. A deficiência. Sou apenas cega. Mas, por alguma razão, parece que também sou deficiente mental. Acredita-se que não percebo bem os assuntos. Mas isso é um ponto. O ponto injusto. O outro é justo. Não posso falar daquilo que não vi. Sei que os assuntos dominantes se referem ao que se vê. Não, não vi o jogo. Não, não vi o filme. Não, não sei como é a Soraya Chaves. Não, não posso dizer se o Renato Seabra tinha condições para “vencer no mundo da moda”. Não. Comigo não se pode falar daquilo que é só visto. Percebo que não se queira conversar com alguém limitado naquilo que pode saber.

 

Finalmente, evita-se falar comigo por causa do trabalho que pode dar. É o medo de ficar com os movimentos limitados porque se tem que ajudar uma pessoa com limitações. A subir a escada. A descer a escada. A ir. A vir. A respirar. A perceber.

 

Na verdade, não preciso de ninguém para viver sem perigos ou enganos. Tenho o meu cão que me orienta. Viver não é assim tão perigoso. Tenho o privilégio de poder entrar com o meu cão em todo o lado. E ficar a ouvir as respirações impacientes. Já contabilizei. Cerca de 80% dos sons que as pessoas emitem são respirações impacientes. É por causa da pressa ou das concessões de simpatia que têm de fazer. Resta-lhes 20% do tempo. Queixam-se um bocadinho da vida, dizem mal dos outros ou tentam seduzir alguém. Não se importam de fazer isto ao pé de um cego porque acham que também é surdo.

 

Noto que os motivos de maledicência nascem todos de impressões visuais. A apresentação. O modo de olhar. A expressão facial. A imagem das pessoas aumenta o espaço que ocupam. Normalmente há atropelos. No fundo, é disto que as pessoas se queixam. De coisas a que não tenho acesso.

 

O concerto vai começar. 

 

3 comentários

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    Cat2007 10.11.2016

    Essa pergunta está off topic. De qualquer forma, a resposta é: não sei. Vão telefoner-me a dizer.
  • Sem imagem de perfil

    Catarina 10.11.2016

    Não está nada off topic. É o tópico. Ver. Ver melhor os "motivos de maledicência" e também os motivos de bemdicência
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